Alice Caymmi e Eduardo Moscovis chegam ao Manouche para a sessão de fotos e posam numa escada utilizada nas obras. O serviço ainda não terminou. Mas falta pouco. E os dois vão voltar quando tudo ficar pronto. Fechado desde março para reformas, o espaço de shows instalado no subsolo da Casa Camolese, no Jardim Botânico, volta à cena na próxima quinta-feira, de cara nova, mas com a mesma proposta e o mesmo clima intimista. A reabertura marca os sete anos do lugar, que guarda registros de momentos históricos, como o último show de Moraes Moreira, além de ter recebido Maria Bethânia em algumas de suas raras apresentações.
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O espaço reabre com decoração e projeto cenográfico novos. A concepção do décor é de Nina Becker, cantora, compositora e diretora criativa acostumada a se apresentar na casa. A cenografia mistura veludo vermelho com toques de rosa, dourado e prateado, evocando a estética do cabaré e o espírito cigano que batiza a casa — manouche é uma referência ao jazz cigano francês com pitadas da brasilidade irreverente do tropicalismo. Nina conta que se debruçou sobre cada detalhe com um olhar afetivo e simbólico.
— Aqui tenho a chance de desenvolver o meu trabalho como diretora e como cantora. Isso me enche de alegria, poder me envolver em todas as etapas do projeto. Fui muito feliz nesse palco durante anos, fiz shows magníficos com a casa lotada; um deles foi até criado para ser feito aqui. Acho que é por isso que confiaram em mim para esse trabalho. Está sendo um presente contribuir com esse lugar — destaca Nina.
O projeto leva a assinatura do arquiteto Philippe Leon, que buscou potencializar a experiência visual e acústica para o público, além de ter criado um espaço mais fluido e acolhedor entre o palco e a plateia. A entrada, por exemplo, ganhou um corrimão dourado adornado por corações, uma espécie de portal simbólico que propõe, desde o primeiro passo, um elogio ao amor, tema recorrente na curadoria e nas performances da casa.
A reforma, no entanto, não se limitou à aparência. Toda a estrutura foi repensada: luzes, estrutura de som, cabine técnica, camarins e bastidores receberam a mesma atenção dedicada ao palco.
— Cuidamos da alma da casa. Da magia que acontece tanto sob os holofotes quanto atrás das cortinas. Não é só para o público, mas para que quem está lá atrás também fique confortável e seja agraciado com as belezas do espaço. Estamos escrevendo um novo ciclo do Manouche com uma nova identidade visual. Tem esse cuidado para que todos se sintam em casa e tenham prazer de estar trabalhando nesse ambiente — afirma Nina.
Para Cello Camolese, fundador da casa e da própria Camolese, o momento é de celebração e reconhecimento, além de representar mais que uma obra física.
— A reforma é um presente para os artistas e para o público carioca e também um reconhecimento à trajetória que o Manouche vem construindo — orgulha-se.
A curadoria artística de Alessandra Debs continua apostando na pluralidade: da MPB ao jazz cigano, da filosofia às artes performáticas. A casa mantém também seus projetos autorais, como “Conversas para iluminar o mundo”, idealizado com o jornalista Charles Gavin e inspirado por Ailton Krenak; e os encontros mensais mediados pela jornalista de cultura Maria Fortuna.
—O Manouche volta muito mais bonito e convicto da função sublime da arte e das ideias provocadoras de uma nova sociedade: transformar e embelezar o mundo, nos lembrando das nossas virtudes como humanidade. O mais bonito do projeto é que cada detalhe está repleto de sentido. Nina tem o mesmo entendimento profundo da arte que faz o Manouche acender suas luzes — elogia Alessandra.
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Nina volta sete anos na história do espaço e recorda que no início do projeto ninguém sabia quanto tempo ele iria durar.
— Acho incrível que a Alessandra e o Cello se sintam imbuídos da missão de fomentar a arte na cidade. É uma batalha sustentar um trabalho artístico no Rio e ter esse espaço para que os músicos possam se apresentar. Lembro que, quando abriu, ninguém sabia se daria certo, e agora é um projeto que chega a um novo momento, com estrutura, acabamentos e coerência visual e de narrativa melhores — opina.
O Manouche reabre com capacidade para até 250 pessoas em pé ou cem sentadas e mantém sua essência de buscar oferecer uma experiência intimista e intensa
A programação de junho é um mergulho nas diversas formas da expressão artística, do jazz ao samba, da filosofia à poesia, passando pela estreia de uma cantora mirim e um tributo comovente à música brasileira, reafirmando a proposta do Manouche de ser palco não só para música, mas para ideias provocadoras.
— Tenho uma história muito bonita com esse palco, de trazer shows de experimentação, que não aconteceram muito, ou aconteceram só aqui. Foi nesse palco que ouvi Maria Bethânia falar meu nome. É um lugar muito especial para mim, para minha carreira e para o meu entendimento de mim como artista. É um palco para onde retorno com muito amor e tranquiildade, como quem volta para casa — afirma Alice Caymmi.
Quem dá o tom da reestreia é Marcelo D2, ao lado do trio SambaDrive, trazendo seu projeto jazzy que traduz em arranjos livres e sofisticados a contundência das letras que marcaram sua trajetória no Planet Hemp.
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No dia 11, a poesia toma o palco com “Lendo, amor”, uma leitura performática com a poeta Alexandra Maia e o ator Eduardo Moscovis. No dia seguinte, a casa abriga uma festa: a estilista Alessa recebe convidados, entre eles a Velha Guarda da Mangueira, no espetáculo “I love”.
— Normalmente, gosto de me apresentar em teatros pequenos, em espaços que possibilitem a proximidade com o público. Sou frequentador do Manouche. Já assisti a muitos shows inesquecíveis, peças, leituras e encontros. Sou fã da curadoria deles, e vai ser literalmente um prazer estar no palco nesse momento especial — afirma Du Moscovis.
No dia 13, Sofia Gilberto, de 9 anos, neta de João Gilberto, lança seu primeiro álbum, batizado de “Garota bossa nova”. A conexão entre Buenos Aires e Paris inspira o concerto do dia 14, que reúne obras de Astor Piazzolla e Gato Barbieri, interpretadas pelo AC Jazz e convidados.
A partir do dia 17, o amor ganha ainda mais camadas. Viviane Mosé apresenta sua aula-show “O amor segundo Viviane Mosé”, uma meditação filosófica sobre o afeto. No dia seguinte, Thiago Amud lança seu disco “Enseada perdida”. Dia 19 será a vez da memória e do humor: Gilda Mattoso sobe ao palco com “Assessora de encrenca”, espetáculo baseado em seu livro sobre os bastidores da MPB.
Nos dias 20 e 21, Alice Caymmi apresenta o show “Para minha tia Nana”, uma homenagem afetiva à obra de Nana Caymmi. Ela foi a última se apresentar no palco em fevereiro, antes da reforma.
— Antes, esse show era uma alusão ao repertório dela, mas sua morte o tornou um tributo com as músicas mais emblemáticas. Interpretar Nana é uma delícia porque é um lugar familiar, mas claro que tenho a minha maneira de cantar esse repertório e com os meus arranjos. Esse repertório invoca memórias familiares e questionamentos sobre a trajetória emocional da minha tia. Eu me pego pensando se ela estava apaixonada em determinada música, ou se estava se separando. É como se eu mapeasse o coração dela com suposições e montasse um quebra-cabeça, criando uma autoficcção da minha tia, seus sonhos, ambições, amores, tudo o que passava na cabeça dela. Fazer um tributo para um Caymmi é um processo de autoconhecimento porque faz parte de mim. É uma espécie de herança genética com herança familiar — detalha Alice.
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No dia 24, o projeto “Amor: a (r)evolução”, em parceria com o aplicativo 639, convida os astrólogos Edson Drago, Lygia Franklin e Sérgio Seixas para um bate-papo sobre o amor como via de autoconhecimento.
Anna Ratto sobe ao palco dias 25 e 26 para lançar o álbum “Vison negro”. Encerrando o mês, dias 27 e 28, o pianista e compositor pernambucano Zé Manoel se apresenta com seu trio.

