O GLOBO lançou um projeto mensal em que, ao longo de uma semana, publica conteúdos exclusivos, todos os dias, sobre uma determinada doença. O tema dessa semana é depressão e leitores do jornal enviaram suas dúvidas, que foram respondidas pelo psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-Estar.
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Importante ressaltar que as discussões tratadas aqui vão ajudar a esclarecer dúvidas. Elas não se configuram como uma consulta e sempre procure seu médico antes de tomar qualquer decisão sobre seu estado de saúde.
Há um mês tenho estado mais desanimada e meus níveis sanguíneos estão todos bem, minha saúde é boa. Pode ser depressão?
Sim, pode ser depressão. A depressão não depende de alterações laboratoriais ou condições físicas detectáveis, mas sim de um conjunto de sintomas emocionais, cognitivos e comportamentais, como tristeza persistente, perda de interesse em atividades, alterações no sono ou no apetite e dificuldade de concentração, tendo esses sintomas duração superior há duas semanas geralmente. Se o desânimo for contínuo e impactar o dia a dia, é importante procurar um profissional de saúde mental para uma avaliação adequada.
A depressão pode ser tratada sem uso de medicamentos? Até que ponto a atividade física pode melhorar o quadro?
A depressão é tratada de acordo com o espectro de gravidade. Nos casos leves a depressão pode ser tratada com psicoterapia, mudanças no estilo de vida e apoio social, sem necessidade de medicação. A atividade física regular é uma intervenção muito eficaz: libera neurotransmissores como endorfinas e serotonina, que melhoram o humor, além de reduzir o estresse e a ansiedade. O exercício físico é comprovadamente tão eficaz quanto a psicoterapia em casos leves e a combinação de ambos pode ser uma ótima escolha. Já em quadros moderados ou mais graves a combinação de psicoterapia com medicamentos costuma ser a abordagem mais recomendada. Muitas vezes a pessoa sequer tem motivação, energia e disposição para iniciar exercícios ou executar mudanças de estilo de vida.
Existem alimentos que podem ajudar a melhorar a depressão?
Embora a alimentação sozinha não trate a depressão, manter uma dieta equilibrada pode ajudar na regulação do humor. Alimentos ricos em ômega 3 (como peixes de água fria), triptofano (como ovos e leguminosas) e vitaminas do complexo B, além de uma boa ingestão de fibras e vegetais, estão associados a menor risco de depressão. O padrão alimentar conhecido como “dieta mediterrânea” tem mostrado benefícios para a saúde mental em diversos estudos. Em suma, o ideal é manter uma alimentação livre de alimentos ultraprocessados e privilegiando alimentos naturais.
Se eu tenho depressão, meus filhos correm risco maior de ter também?
Há uma predisposição genética à depressão, o que significa que filhos de pessoas com depressão têm um risco aumentado de também desenvolverem a doença ao longo da vida. No entanto, fatores ambientais, como o estilo de vida familiar, experiências traumáticas e o modelo de enfrentamento emocional desempenham papel importante, podendo tanto aumentar quanto reduzir esse risco. Dessa forma, apesar de haver uma predisposição genética, ambiente, relações, experiências pessoais, rede apoio e proteção parecem fundamentais na gênese ou prevenção da depressão.
Como distinguir depressão de uma tristeza comum ou de um cansaço?
A tristeza é um sentimento ou emoção natural do ser humano frente a experiências desagradáveis ou frustrações. Ela é comum e geralmente passageira, relacionada a eventos específicos e não impede a pessoa de realizar suas atividades. Já a depressão é caracterizada por um humor deprimido ou perda de interesse que persiste por pelo menos duas semanas, associada a sintomas como alterações no sono, apetite, energia, autoestima e pensamentos negativos. O cansaço físico melhora com repouso, mas a fadiga na depressão costuma ser persistente e não aliviada mesmo após descanso. A grande diferença reside na persistência dos sintomas e no prejuízo da funcionalidade da pessoa.
