O furacão Melissa, tempestade mais poderosa registrada no mundo neste ano, com ventos de 298 km/h, tocou o solo no sul da Jamaica nesta terça-feira por volta das 14h (horário de Brasília), enquanto autoridades do país ainda se preparavam para efeitos potencialmente catastróficos do fenômeno mais forte da História a atingir a ilha caribenha. O primeiro-ministro jamaicano, Andrew Holness, afirmou nenhum país da região estava pronto para uma tempestade desta magnitude, em um apelo para que moradores de zonas na rota de impacto direto se retirassem — na noite de segunda, o governo estimava que 50 mil pessoas deviam deixar suas casas, mas apenas 1,7 mil teriam atendido ao chamado e procurado abrigos públicos. Pelo menos sete pessoas já morreram em três países diferentes por causa da tempestade.
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As altas temperaturas do oceano alimentam furacões e, segundo projeções, aumentaram a velocidade máxima dos ventos do Melissa em cerca de 16 km/h — o que aumentou o potencial de danos em 50%, de acordo com uma avaliação preliminar da Climate Central. As águas caribenhas estão 1,4º Celsius mais quentes do que o normal. O furacão se manteve com a potência de um fenômeno de categoria 5 por mais de 24 horas, algo extremamente raro, e ganhando ainda mais força na manhã desta terça, o que o ranqueou como o segundo mais forte da História no Atlântico (atrás apenas do furacão Allen, de 1980). Os ventos sustentados de 298 km/h do Melissa são mais potentes do que os ventos durante a intensidade máxima do furacão Katrina, que destruiu Nova Orleans em 2005.
Em uma avaliação antes da chegada do Melissa, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirmou esperar que a situação na Jamaica seja “catastrófica”, enquanto a Cruz Vermelha prevê um impacto a 1,5 milhão de pessoas.
— Para a Jamaica, será, com certeza, a tormenta do século — disse Anne-Claire Fontan, especialista em ciclones tropicais da OMM, em entrevista coletiva na terça-feira. — É uma situação catastrófica esperada na Jamaica.
Autoridades do país caribenho confirmaram que três pessoas morreram durante os preparativos para a chegada do furacão na Jamaica. O ministro da Saúde e Bem-Estar jamaicano, Christopher Tufton, disse na segunda-feira que as três mortes ocorreram durante o corte de árvores — duas pela queda das árvores, e uma eletrocutada. A tempestade de categoria cinco também já foi responsabilizada pela morte de três pessoas no Haiti e uma na República Dominicana, totalizando sete no total até o momento.
— Não acredito que haja qualquer infraestrutura nesta região [Caribe] que possa suportar uma tempestade de categoria 5, então pode haver perturbações significativas — Holness em entrevista à rede americana CNN na segunda-feira.
Em um aviso pouco antes do contato, por volta das 11h, o Centro Nacional de Furacões dos EUA (NHC, na sigla em inglês) moradores e turistas na Jamaica que aquela era a “última chance” de procurar abrigo antes da chegada dos ventos — o processo de “tocar o solo” começa quando a parede do furacão, onde estão os ventos mais rápidos, chegam à terra firme, mas se completa com a passagem do olho do furacão.
Especialistas preveem que os ventos destrutivos sejam ainda mais fortes nas montanhas da Jamaica, que cobrem quase metade do país. À medida que as rajadas sobem e descem as montanhas, o relevo pode “canalizar os ventos e mudar sua direção e velocidade”, segundo Jack Beven, especialista sênior em furacões do Centro Nacional de Furacões dos EUA (NHC, na sigla em inglês) — o que pode tornar o fenômeno até 30% mais forte.
Outro fator de preocupação é o deslocamento lento do Melissa. Com uma velocidade de deslocamento inferior a 4 km/h, a passagem do furacão deve ser mais prolongada, o que potencialmente aumenta os danos causados pelos ventos de tempestade.
As estimativas apontam que o clima extremo afete a Jamaica por toda a noite de terça-feira, antes de seguir para Cuba, onde quase 900 mil pessoas receberam ordens de retirada. A Marinha dos EUA concluiu a evacuação de cerca de mil funcionários não essenciais de sua base na Baía de Guantánamo e retirou da rota da tempestade oito navios de guerra.
A Força Aérea dos Estados Unidos divulgou imagens impressionantes captadas do interior do furacão Melissa, enquanto ele se aproximava da Jamaica. Os registros foram feitos por um esquadrão militar a bordo de um avião a hélice, que mergulhou no olho da tempestade para coletar dados meteorológicos.
Nas fotos, é possível ver a imensa formação de nuvens que circunda o centro do furacão, um cenário de rara beleza e perigo extremo. Segundo os dados divulgados pela equipe, a pressão atmosférica caiu para 933 hectopascais, indicador de força máxima na escala Saffir-Simpson.
A escolha de uma aeronave a hélice — modelo tradicionalmente usado pelos chamados hurricane hunters — garante autonomia de voo e maior capacidade de manobra dentro do ciclone. A missão, segundo a Força Aérea, visa monitorar a evolução e o deslocamento de Melissa, alimentando os centros meteorológicos com informações em tempo real.

Veja imagens do olho do furacão Melissa feitas por avião da Força Aérea dos EUA
Registros históricos apontam que o Melissa pode ser o pior furacão da História da Jamaica. Segundo os registros do NHC, que datam de 1850, o pior furacão que atingiu o país chegou à categoria 4, e isso aconteceu há 37 anos — o furacão Gilbert, que em 1988 ficou conhecido na ilha como “Gilbert Selvagem”, por seus ventos máximos sustentados de 209 km/h. À época, cerca de 500 mil pessoas — um quinto da população do país— ficou desalojada, e 45 pessoas morreram.
Desde a virada do século, três furacões de categoria 4 passaram perto o suficiente para causar danos financeiros relevantes na ilha. O furacão Beryl, em 2024, atingiu a costa sul, causando mais de US$ 200 milhões em danos. Em 2007, foi o furacão Dean que deixou para trás cerca de US$ 300 milhões em destruição. O furacão Ivan, em 2004, provocou 17 mortes e quase US$ 600 milhões em danos.
Em agosto de 1951, o furacão Charlie atingiu a Jamaica e foi considerado na época o “pior desastre de furacão do século” no país, de acordo com um relatório federal, matando 152 pessoas, ferindo 2 mil e deixando 25 mil moradores desabrigados.
Em meio aos preparativos do governo, vários moradores relataram que iriam permanecer em suas casas durante a chegada do furacão — apesar da expectativa sobre o nível de destruição.
— Não vou me mexer. Acho que não consigo escapar da morte — disse Roy Brown na área costeira de Port Royal, em Kingston, citando experiências anteriores com as más condições dos abrigos do governo para furacões.
O furacão também ameaça o leste de Cuba, assim como o sul das Bahamas e o arquipélago das Ilhas Turcas e Caicos, um território britânico. Na ilha comunista, onde há dificuldades para difundir informações preventivas por causa da falta de energia elétrica, as autoridades aceleram os preparativos para enfrentar Melissa nesta terça-feira.
O Conselho de Defesa Nacional declarou “fase de alerta” em seis províncias do leste: Santiago de Cuba, Guantánamo, Holguín, Camagüey, Granma e Las Tunas.
As autoridades começaram a retirar milhares de pessoas dessas províncias, onde os moradores estocam suprimentos e tentam proteger os telhados de suas casas com cordas. Aulas e atividades de trabalho não essenciais foram suspensas.
— Tenho muito medo porque é um furacão muito perigoso. Podem acontecer coisas sérias, pode destruir a casa da gente, levar o telhado […] Tenho pânico do vento — contou Anabel Chacón, dona de casa de 62 anos que vive em uma casa de folhas de zinco em Bayamo, capital de Granma. (Com NYT e AFP)

