Representantes do setor privado que participaram de edições anteriores da COP não pretendem ir à conferência do clima agendada para novembro deste ano em Belém, capital do Pará. Instituições financeiras, consultorias e assessores empresariais colocam os altos custos de hospedagem e viagens longas como justificativas para priorizar eventos preliminares no Rio e em São Paulo.
O Rio, por exemplo, vai sediar o Local Leaders Forum, entre 3 e 5 de novembro. A expectativa é de que a cidade receba no período da COP30 cerca de 10 mil pessoas, o que ajudaria a desafogar a infraestrutura de Belém. O município pretende ser o principal espaço de debate entre os entes subnacionais do mundo todo durante a conferência. Haverá dentro do evento a Cúpula Mundial de Prefeitos do C40 e a Cúpula Global de Estados e Regiões.
Nos últimos meses, o prefeito Eduardo Paes chegou a testar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a possibilidade de atrair uma parte maior da COP, na esteira da crise de Belém. O movimento, no entanto, foi freado, e Paes reforçou nesta sexta-feira a defesa da capital paraense como sede.
— A COP tem que ser em Belém. Esse evento lá passa uma mensagem importante do presidente Lula de que a Amazônia não é só floresta e bicho; que lá existem grandes cidades. Desde o início se sabia que havia desafios — disse em visita ao Museu Olímpico. — Não é fácil ter esse aglomerado urbano com aquela dimensão. Rio, São Paulo e Brasília são cidades que vão ter eventos paralelos. O interessante é olhar para a Olimpíada (do Rio, em 2016). Disseram que ia dar tudo errado e não teria hotel.
Interlocutores do prefeito carioca, contudo, consideraram estrategicamente ruim a declaração do embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, que afirmou nesta quinta-feira que países pediram a ele uma mudança de local do evento. O comentário, dizem, demonstra uma “fragilidade” do governo.
Lago apontou que os preços das hospedagens estão “completamente abusivos” e que há um esforço do governo federal, coordenado pela Casa Civil, para convencer o setor hoteleiro a baixar os valores das diárias. A declaração foi dada durante um evento com o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), promovido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros (AIE).
— Tornou-se público que diversos países do grupo que faz parte da administração da convenção (veem) a questão do preço dos hotéis como uma preocupação. Representantes de regiões pediram para tirar a COP de Belém. Isso aconteceu em uma reunião anteontem — disse Corrêa do Lago. —Acredito que talvez os hotéis não estejam se dando conta da crise que eles estão provocando.
O embaixador enxerga “uma sensação de revolta, sobretudo por parte dos países em desenvolvimento, que estão dizendo que não poderão vir à COP por causa dos preços extorsivos que estão sendo cobrados”.
A ideia de se concentrar em eventos no Rio e em São Paulo virou notícia no jornal britânico Financial Times.
“As empresas estão dizendo que será muito caro e difícil encontrar acomodações. Elas estão se concentrando em eventos no Rio e em São Paulo”, disse um assessor da coordenação da COP30 à publicação.
De acordo com o jornal, o setor privado tem planejado enviar ao Brasil equipes menores e priorizar os compromissos fora de Belém. Um deles, além do fórum no Rio, é a PRI in Person 2025, conferência anual organizada pelo Principles for Responsible Investment (PRI), das Nações Unidas, que ocorrerá dos dias 4 a 6 de novembro na capital paulista.
O PRI in Person pretende reunir mais de mil investidores institucionais, formuladores de políticas e representantes de empresas interessadas em finanças sustentáveis de todo o mundo.
Veja o vídeo de Corrêa do Lago:
‘Pediram para tirar a COP de Belém’, diz presidente da conferência
O setor hoteleiro de Belém reagiu às críticas sobre os preços das hospedagens no período da COP. Eduardo Boullosa, presidente do sindicato que representa a categoria na capital paraense e em Ananindeua, classifica a situação como “sacanagem” e afirma ter firmado compromisso por tarifas mais baratas para as delegações de países em desenvolvimento.
— Estão querendo tirar a todo custo a COP de Belém, o que não é a primeira vez — diz. — Pegaram a COP30 como boi de piranha. Isso é uma sacanagem que estão fazendo com o Brasil e com o estado do Pará. Estamos todos (governo do estado e setor hoteleiro) de mãos dadas com o mesmo objetivo. A presidência da COP quer acabar com o Brasil, puxando a toalha da mesa.
Dono de um hotel de quase 200 apartamentos, Boullosa afirma que tem “compromisso com tarifas de 100 a 300 dólares para países em desenvolvimento”.
Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA), Tony Santiago diz que “o embaixador em questão (Corrêa do Lago) está mal informado”. De acordo com o empresário, a entidade foi demandada no início de junho para que providenciasse 500 apartamentos com tarifas entre 100 e 300 dólares destinadas ao países “menos favorecidos economicamente”, como também indica Boullosa.
— Acho que muita gente não sabe que fizemos o que nos foi solicitado — afirma Santiago. — Há uma inversão de fatos. Quem deve ser cobrada por hospedagem é a Secretaria da COP30, que até hoje não conseguiu botar no ar a plataforma de hospedagem que prometeu no início do ano. É isso que está tumultuando todo o processo.
A Secretaria Extraordinária da COP30 (Secop) informou que uma nova reunião está agendada para o dia 11 de agosto, com o objetivo de “dar continuidade ao diálogo sobre o conjunto de ações para a realização da conferência”. Estarão em pauta temas como acomodação, transporte, segurança, alimentação e outros aspectos essenciais para o sucesso da conferência.
Richard Muyungi, presidente do Grupo Africano de Negociadores, que convocou a reunião, disse à Reuters que o Brasil concordou em abordar as preocupações dos países sobre acomodações e apresentar um relatório no próximo encontro.
— Recebemos a garantia de que revisitaremos isso no dia 11 para ter certeza se a acomodação será adequada para todos os delegados (…) Não estamos prontos para reduzir os números. O Brasil tem muitas opções em termos de ter uma COP melhor, uma boa COP. Por isso, estamos pressionando para que o Brasil forneça respostas melhores, em vez de nos dizer para limitar nossa delegação.