Com papel determinante tanto na guinada na aprovação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto na operação da última sexta-feira contra Jair Bolsonaro (PL), o tarifaço de Donald Trump inseriu de vez o Brasil na lista de nações que rejeitam com afinco a postura do presidente americano — o que respinga na piora da percepção da população sobre os Estados Unidos como um todo. Mundo afora, lugares atingidos pela artilharia de tarifas e ameaças do republicano impuseram à maior economia do planeta uma deterioração da imagem. Assim como nos outros países, a intervenção de Trump prejudica a oposição brasileira, que se vê dividida sobre como reagir ao episódio ao mesmo tempo em que lida com os problemas judiciais de Bolsonaro.
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A última pesquisa Genial/Quaest confirmou o que o Planalto já detectava em levantamentos internos: os brasileiros repelem, em menor ou maior grau, tudo o que envolve o anúncio de Trump. São 72% os que consideram errado condicionar as tarifas a processos contra Bolsonaro, e 79% aqueles que avaliam que terão a vida afetada pela medida. Perguntados sobre a ideia, propagada pelo americano, de que a relação comercial entre os países é injusta, 63% dizem que ela está incorreta.
A Quaest não testou no novo levantamento a percepção geral sobre os EUA, mas o instituto nacional e o Pew Research Center já haviam identificado, antes mesmo do tarifaço, um menor apreço dos brasileiros pelo país da América do Norte após Trump assumir.
— Sempre houve, no caso do Brasil, um antiamericanismo histórico, que tem a ver com intervenções diretas ou indiretas daquele país na política nacional. Mas isso nunca foi maior do que a admiração e até a espécie de modelo que os Estados Unidos representam para o Brasil em alguns estratos sociais, com a percepção de que lá é “o Brasil que deu certo” — observa o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV EAESP. — São leituras antagônicas, mas que compõem essa visão histórica. Agora que viramos alvo específico, essa percepção vai naturalmente se degradar.
Casarões aponta ainda que Trump passou a não diferenciar os aliados históricos dos Estados Unidos dos demais países na condução da política externa, o que explica o aumento da rejeição em países como Canadá e Europa:
— Começamos a perceber uma inversão da imagem dos Estados Unidos diante desses parceiros históricos pelas ações e pela maneira retórica como vem sendo conduzida a política externa. Passaram a ser vistos como ameaça.
De fato, dados do Pew Research Center escancaram como Trump tem feito a visão positiva sobre o país despencar no mundo. Em um ano, 14 das 25 nações testadas diminuíram a opinião favorável sobre os EUA, que no século passado se consolidaram como principal “exportador” de ideais por meio de um massivo “soft power” cultural. Só em três nações — Israel, Nigéria e Turquia — houve melhora no último ano, e nos demais as oscilações não foram significativas.
O Brasil, mesmo antes de ser vítima do tarifaço — a pesquisa saiu em junho —, já engrossava a lista: a opinião favorável passou de 64% para 56%. Levantamentos nacionais divulgados em períodos prévios à taxação e à interferência de Trump na política interna brasileira, como a penúltima Quaest, também indicavam piora: entre março do ano passado e abril deste ano, passou de 58% para 44% a percepção positiva sobre os EUA. Já havia naquele momento, por exemplo, a questão migratória, com ampla repercussão da deportação de brasileiros.
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Na nova sondagem da Atlas/Bloomberg, feita logo depois da carta que anunciou as tarifas para o Brasil, a imagem negativa de Donald Trump entre brasileiros passou de 52% para 63,2% em seis meses.
— O que as pesquisas revelam é que tem sido afetada a confiança dos demais países nos Estados Unidos, e a confiança é a base das relações políticas e diplomáticas. Há uma tendência de erosão substancial da confiança — afirma o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, fundador do Ipespe. — Quando se vê a quantidade de países em que houve esse declínio acentuado, sobretudo em países que são aliados tradicionais, percebe-se que Trump está erodindo de forma acelerada uma ordem internacional que eles mesmos construíram após a Segunda Guerra, quando substituíram o Reino Unido como principais organizadores da ordem econômica e do concerto das nações.
Recorte mais amplo feito pelo Pew Research, que compara 2019 a 2025, mostra que subiu a quantidade de nações que consideram os Estados Unidos a “maior ameaça”. Variações significativas foram observadas nos dois países que fazem fronteira com eles, México e Canadá. No caso mexicano, o percentual, que já era alto, saltou de 56% para 68%, enquanto no canadense o número triplicou, indo de 20% para 59%.
Trump impulsionou, por lá e na Austrália, a popularidade dos governantes vigentes, com direito a impacto eleitoral no país da Oceania e no Canadá, onde partidos que vinham em baixa com a população conseguiram se reeleger.
Desde o anúncio das tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, o governo Lula empreendeu uma narrativa nacionalista a fim de recuperar o prejuízo acumulado em meses de pesquisas negativas. O petista explora agora o discurso da soberania, com direito a uma tentativa de se apropriar novamente do verde e amarelo e da bandeira nacional, símbolos incorporados pelo bolsonarismo nos últimos anos. Até um boné com o mote “Meu partido é o Brasil”, idêntico ao que aliados de Bolsonaro pregavam em campanhas, foi produzido.
— Trump parece não compreender muito bem a dinâmica do nacionalismo alheio e que esse tipo de postura dele gera uma resistência que se volta como uma ameaça à soberania — analisa Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV. — Só em casos muito específicos esse efeito não se produz, e sobretudo em países muito vulneráveis aos Estados Unidos, onde há a compreensão de que resistir não funciona por causa da enorme assimetria. No caso do Brasil, isso não se aplica.
O tarifaço de Trump, diz Lavareda, germinou no Brasil uma coalizão “around the flag” (em torno da bandeira) que acabou beneficiando Lula:
— Na carta das tarifas, Trump cometeu um erro do ponto de vista dos interesses do Partido Republicano em relação ao Brasil, onde tem a direita bolsonarista como aliada. Um erro básico de misturar as tarifas e a justificativa econômica, que seria a deterioração da balança comercial, com a questão judicial de Bolsonaro. Trouxe tudo isso embrulhado.
Na mesma noite da operação da Polícia Federal que impôs medidas cautelares a Bolsonaro para evitar uma fuga do país, como o uso de tornozeleira eletrônica, o governo americano reforçou a aposta no embate ao anunciar a cassação do visto de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda não se sabe quais os impactos da nova medida na percepção dos brasileiros sobre os EUA.