Ele nasceu muito magro, meio calvo, e só usava roupa — um chapéu e uma vetusta capa de chuva — quando se levantava para ir embora. Ao longo dos anos, ganhou um pouco de peso, ficou careca e perdeu completamente o pudor — além das únicas peças de vestimenta que se dispunha a usar. Até hoje, em seus 87 anos de existência, o Bonequinho é referência na crítica de cinema brasileira (para o bem e para o mal) e figura indissociável da identidade visual do GLOBO. Poucos ainda são capazes de ficar indiferentes ao seu veredito, capaz de impactar a carreira de um filme no circuito comercial.
— Acho um tanto redutor utilizar uma imagem para qualificar ou desqualificar um filme. Mas não dá pra negar que o Bonequinho se tornou um ícone. Sim, a relação com ele é de amor e ódio, e eu não vou negar que simpatizei mais com ele nas vezes em que ele aplaudiu meus filmes — confessa o diretor Sérgio Machado, autor de filmes como o drama “Cidade Baixa” (2005) e a animação “A arca de Noé” (2024).
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Amado por uns e condenado por outros, o Bonequinho começou a tomar forma nos anos 1930 por iniciativa de Rogério Marinho, então vice-presidente do GLOBO, e do crítico Edmundo Lys, um dos heterônimos do poeta mineiro Antônio Barros. A ideia que o jornal criasse uma representação gráfica para as críticas de cinema foi apresentada ao chargista Luís Sá, criador dos personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona, da revista O Tico- Tico, que concebeu a figura esquálida de chapéu e capa de chuva, posteriormente modernizada pelo ilustrador Marcelo Monteiro, nos anos 1970.
“Que tal o film?”, perguntava o título do texto na capa da edição do dia 21 de junho de 1938, que apresentava o Bonequinho aos leitores. “O ‘calunga’ simplifica de certa maneira a tarefa do público que, muitas vezes, deseja saber apenas que tal o film, dispensando todas as demais considerações de crítica”, explicava o jornal. Nos primeiros anos, só havia quatro reações possíveis: “péssimo” (com a figura levantando-se da cadeira e indo embora); “ruim” (com ele dormindo); “bom” (aplaudindo sentado); e “excelente” (aplaudindo de pé). Quatro meses depois a classificação ganharia uma quinta cotação, a de “regular”, com o boneco sentado olhando para a tela.
Desde então o personagem vem conquistando corações, mas também provocando constrangimentos. Como naquela vez em que o crítico Octavio Bonfim deu o Bonequinho dormindo para “Rio, 40 graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos, até hoje considerado um clássico do Cinema Novo.
— Imagino que seja uma figura polêmica, mas acho o Bonequinho sensacional, sem dúvida alguma. É muito melhor do que a classificação de filmes por estrelas, por exemplo. A ideia de alguém ali vendo e reagindo… que coisa boa, essa! — entusiasma-se a diretora Sandra Kogut, por trás de filmes como “Mutum” (2007) e “Três verões” (2018). — Eu sempre gosto de olhar a reação do Bonequinho. Às vezes discordo, às vezes concordo, mas não importa, sempre me dá a sensação de que tem alguém ali.
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Ao longo das décadas, a popularidade do Bonequinho cresceu tanto que transbordou das páginas do suplemento de cultura: em 1996, O GLOBO criou a Mostra O Bonequinho Viu, com sessões de cinema ao ar livre na Praia de Copacabana. Em seus dez anos de existência, o evento, realizado paralelamente ao Rio Cine Festival (hoje conhecido como Festival do Rio), reuniu mais de 300 mil pessoas diante dos telões montados nas areias. Em 2006, a versão do boneco indo embora na capa do Caderno de Esportes sobre a eliminação do Brasil na Copa da Alemanha, concebida pelo editor Toninho Nascimento, com os ilustradores Marcelo Monteiro e Alessandro Alvim e o designer Telio Navega, levou o Prêmio Esso de Criação Gráfica.
O diretor Karim Aïnouz fala da tensão “gigante” que é esperar pela crítica do Bonequinho (“ele vai estar sentado, dormindo, aplaudindo? A gente nunca sabe”, diz) e confessa alimentar sentimentos de amor e ódio pelo magrelinho.
— Amor porque é uma maneira bem-humorada de celebrar um filme, de dar vontade ao público de ver o filme mesmo sem ter lido a crítica. Ao mesmo tempo é ódio porque parece que tudo se resume àquela imagem, que, muitas vezes, pode comprometer a vida de um filme, ferir a existência de um trabalho que se faz por anos — diz o diretor de “A vida invisível” (2019) e “Motel Destino” (2024).
Aïnouz lembra, entretanto, que as figuras do Bonequinho são similares às estrelas que padronizam as cotações internacionais (e vão de uma a cinco). E confessa:
— No fundo no fundo preferia que ele não existisse, mas é quase impossível viver sem ele.
Ao longo das décadas, a popularidade do Bonequinho cresceu tanto que transbordou das páginas do suplemento de cultura: em 1996, O GLOBO criou a Mostra O Bonequinho Viu, com sessões de cinema ao ar livre na Praia de Copacabana. Em seus dez anos de existência, o evento, realizado paralelamente ao Rio Cine Festival (hoje conhecido como Festival do Rio), reuniu mais de 300 mil pessoas diante dos telões montados nas areias. Em 2006, a versão do boneco indo embora na capa do Caderno de Esportes sobre a eliminação do Brasil na Copa da Alemanha, concebida pelo editor Toninho Nascimento, com os ilustradores Marcelo Monteiro e Alessandro Alvim e o designer Télio Navega, levou o Prêmio Esso de Criação Gráfica.
A fama, boa ou má, sempre ficou com o Bonequinho, mas ele é um reflexo do pensamento e do espírito de um crítico por trás da marca. Edmundo Lys foi o único a incorporá-lo por quase 20 anos, antes que a figura assumisse a visão e a personalidade de dezenas de profissionais da crítica. Por trás de um grande Bonequinho — ou Bonequinha, como surpreendeu a edição do Rio Show de 29 de outubro de 2004, que apresentou a versão feminina da figura para a crítica do drama romântico “Antes do pôr do sol”, de Richard Linklater — existe um crítico empenhado.
Nomes como Ely Azeredo, José Carlos Monteiro, Fernando Ferreira, Miguel Pereira, Rogerio Durst e Eros Ramos de Almeida, por exemplo, foram Bonequinhos que deixaram suas marcas nas páginas do jornal e na memória afetiva de muitas gerações de cinéfilos.
— O Bonequinho é de cinema — sentencia o veterano diretor Sérgio Rezende, autor de filmes como “Guerra de Canudos” (1997) e “Zuzu Angel” (2006). — Ele é como os personagens de um filme, que não existem, mas em quem todos, ou quase todos, acreditam. Os atores mudam, o personagem fica. Em meus muitos anos de cinema, poucas vezes fui avaliado pelo mesmo “ator”. Os críticos mudam, o personagem é sempre o mesmo, impávido. Como se diz, “uma imagem vale mais que mil palavras”.
Carlos Helí de Almeida foi repórter do Segundo Caderno entre 1995 e 2000 e é crítico de cinema do GLOBO desde 1995