Era a estreia do Festival Fringe de Edimburgo, e Amanda Knox caminhava de um lado para o outro no palco de um teatro de aspecto precário. Vinha testando suas piadas em “Cartwheel”, show de estreia como comediante de stand-up no festival. Em sua apresentação, Knox, de 39 anos, contava histórias e, ocasionalmente, interagia com a voz gravada de sua filha, Eureka, de 5 anos.
Ela tentava encontrar o humor em sua própria trajetória: a de uma mãe americana que havia sido mantida injustamente presa na Itália durante anos, acusada do assassinato de sua colega de quarto em 2007, quando ambas estudavam no país. Mas a plateia — que lotava a sala de 150 lugares — a princípio apenas ria timidamente de suas piadas sobre a vida na prisão, a infâmia midiática e as peculiaridades da criação dos filhos. Aí ela contou uma piada sobre a brincadeira favorita de sua filha.
— Chama-se “Mamãe vai para a Itália” — disse Knox.
Amanda Knox: ‘Existe um lado desafiador em mim que pensa: ‘Quer saber? Não fiz mal a ninguém. Não tenho culpa pelo que aconteceu”
Jaime Molina / The New York Times
Na brincadeira, a filha segura as barras de um trepa-trepa no parquinho local e grita: “Me deixem sair!” Knox imitava uma detenta de olhar alucinado, agarrando-se desesperadamente às grades de uma cela. As risadinhas da plateia deram lugar à primeira gargalhada da noite.
Por mais surpreendente que seja ver Knox tentando a carreira no stand-up, é talvez ainda mais arriscado estrear um show desse tipo no Fringe, na Escócia, dada a sua reputação controversa na Grã-Bretanha — terra natal de Meredith Kercher, a colega de quarto assassinada.
Em uma entrevista em vídeo, Knox disse que estava experimentando a comédia porque se sentia “rotulada como uma figura de true crime ou uma figura trágica”, quando, na realidade, sempre fora uma “garota do teatro divertida e excêntrica”.
— Fazer este show é uma forma de tentar resgatar quem eu era antes de todas as coisas ruins acontecerem — disse Knox.
Luto de família e protesto
Desde que “Cartwheel” foi anunciado, em maio, a ideia de Knox se apresentar na Grã-Bretanha gerou controvérsia. Embora ela tenha sido absolvida da acusação de homicídio pela alta corte da Itália em 2015, muitas pessoas ainda acreditam que Knox teve algum envolvimento no crime. Na semana passada, Stephanie Kercher, irmã de Meredith, afirmou que Knox estava causando “profunda dor” à sua família, acrescentando que “um caso e uma vítima da vida real não deveriam ser transformados em comédia no Reino Unido”.
Uma petição on-line contra a apresentação reuniu mais de 40 mil assinaturas, e a imprensa tabloide britânica também se manifestou. Logo após sua estreia, o Daily Mail publicou um artigo: “Existe algo que ‘Foxy Knoxy’ não faria por atenção — ou dinheiro?”
Em entrevista, Knox afirmou que se recusava a deixar a imprensa britânica influenciá-la:
— Existe um lado desafiador em mim que pensa: “Quer saber? Não fiz mal a ninguém. Não tenho culpa pelo que aconteceu.”
Nos anos que se seguiram ao crime, Knox escreveu dois livros, hoje apresenta um podcast com o marido e é tema de uma série do Hulu.
A apresentação ganhou o nome de “Cartwheel” (a estrela feita com o corpo) porque os promotores italianos alegaram que ela havia feito estrelas em uma delegacia logo após a morte de Kercher, usando isso como prova de frivolidade inadequada diante do assassinato. (Knox disse que, na verdade, estava praticando ioga.)
Com a apresentação chegando ao fim, Knox disse que estava criando sua filha “para ser exatamente a garota pela qual fui punida por ser”.
— Mas as crianças não escutam você de verdade. Você tem que mostrar a elas — disse ela, antes de dar uma estrela no palco e cerca de metade da plateia levantar-se para aplaudi-la de pé.

