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outubro 24, 2026
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Amigo de Flávio Bolsonaro tentou usar decreto de Cláudio Castro para ampliar mansão em ilha disputada com Richarlison

Por · outubro 24, 2026
Amigo de Flávio Bolsonaro tentou usar decreto de Cláudio Castro para ampliar mansão em ilha disputada com Richarlison


Uma empresa do advogado Willer Tomaz apresentou ao governo do Rio, neste ano, um projeto para ampliar a mansão localizada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), alvo de uma batalha jurídica com o jogador de futebol Richarlison. Documentos levantados pelo GLOBO apontam que o pedido de Willer se baseou em um decreto publicado no mesmo dia pelo então governador Cláudio Castro (PL), que flexibilizava restrições ambientais no local. A regra que embasava o requerimento, porém, acabou revogada pelo governador interino Ricardo Couto.
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A atuação de Willer é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF); ontem, o ministro Alexandre de Moraes bloqueou R$ 6 bilhões em bens do advogado. A ilha em Angra foi visitada em 2021 pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), amigo de Willer, antes da disputa nos tribunais com Richarlison pelos direitos da propriedade.
Publicado no dia 20 de março, o decreto afrouxava restrições na Área de Proteção Ambiental (APA) Tamoios, onde fica a Ilha Comprida. Foi uma das últimas medidas de Castro antes de renunciar ao governo do Rio, naquele mesmo mês. Ainda antes, no fim de 2025, o então governador havia viajado para assistir à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras, em Lima, a bordo de um avião de Willer.
Richarlison e Willer Tomaz disputam ilha em Angra dos Reis
Manan Vatsyayana / AFP e Divulgação
Poucas horas após o decreto de Castro entrar em vigor, na tarde do dia 20 de março, a WT Administração de Imóveis apresentou seu requerimento ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), pedindo para ampliar a chamada “taxa de ocupação” — isto é, o percentual do terreno que pode receber construções — na Ilha Comprida. O objetivo de Willer era elevar essa taxa de 15% para 30%, “com fulcro no art. 2º do Decreto Estadual nº 50.236/2026”, isto é, o texto publicado por Castro no mesmo dia.
O decreto derrubava o “plano de manejo” da APA Tamoios, com regras mais restritas de ocupação. Isso abriria espaço, na prática, para Willer ampliar a propriedade. Junto ao requerimento, a empresa do advogado anexou um projeto que previa a demolição da casa atual, com 410 metros quadrados, para dar lugar a uma mansão de 726 metros quadrados, com academia e cais.
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Poucas horas depois, às 0h21 do dia 21 de março, um sábado, o então presidente do Inea, Renato Jordão Bussiere, deu encaminhamento ao pedido da empresa de Willer. Atualmente, Bussiere é investigado pela Polícia Federal em outro caso, por suposto favorecimento à Refit na emissão de licenças ambientais.
No dia 14 de abril, porém, o governador interino Ricardo Couto revogou o decreto de Castro e restituiu as restrições ambientais. Desde então, o caso não andou mais. Procurado pelo GLOBO, Willer não se manifestou. Castro afirmou, em nota, que “não tratou com Willer Tomaz ou qualquer pessoa ligada à empresa o conteúdo do decreto”.
“O decreto teve caráter geral e técnico e não foi elaborado para atender a um imóvel, empresa ou requerimento específico”, diz a nota de Castro, que argumenta ainda que o decreto apenas “atualizou a forma administrativa de aprovação” das regras para ocupação das áreas de proteção ambiental, mas não “reduziu seus limites”, tampouco “retirou proteção ambiental”.
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Conversa com jogador
A propriedade na Ilha Comprida ficou embargada judicialmente em meio a uma disputa sobre quem era o verdadeiro dono. Uma empresa do jogador Richarlison, a Sport 70, apresentou um contrato de compra do terreno, datado de 2020 e registrado em cartório, no valor de R$ 2,6 milhões. As coordenadas da propriedade que estão no contrato são as mesmas que constam no requerimento feito pela empresa de Willer ao governo do Rio.
Ao pedir à Justiça que fosse reconhecida como dona do espaço, a Sport 70 anexou registros de uma visita de Flávio Bolsonaro, em 2021, na qual o senador elogiava o local. Em publicações recentes nas suas redes sociais, Richarlison acusa Flávio e Willer de terem se interessado pelo espaço após essas visitas, e alega que o advogado vinha tentando adquiri-lo desde o fim de 2021.
Flávio, por sua vez, alega que não teve qualquer relação com a compra do imóvel. Ontem, o blog da colunista do GLOBO Malu Gaspar revelou mensagens trocadas entre Flávio e Richarlison, neste ano, nas quais o senador mostrou ter acesso a documentos privados sobre a venda da casa que não constam em processos judiciais. No diálogo, Flávio pediu a Richarlison que divulgasse uma nota o isentando no caso, o que o jogador recusou.
A disputa remonta a maio de 2022, quando o juiz Ivan Pereira Mirancos Junior, da 2ª Vara Cível de Angra, acatou um pedido para tirar a propriedade da Sport 70 e repassá-la à M Locadora de Veículos, que havia adquirido o terreno na Ilha Comprida em 1986. Na ação, a M Locadora foi representada por Eugenio Aragão, advogado sócio de Willer. Ela apresentou uma matrícula do terreno na qual constava como a última proprietária registrada, inclusive com alvará da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), exigência da lei para propriedades costeiras.
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A M Locadora negou ter vendido o terreno até então e acusou de fraude os antigos ocupantes que haviam negociado o imóvel com Richarlison.
Após autorizar o despejo, o juiz chegou a voltar atrás, por entender que a M Locadora havia “deliberadamente omitido” seu interesse de vender o terreno para Willer, devido a divergências entre os representantes da empresa: uma das sócias disse à Justiça que teve sua assinatura falsificada no processo. Willer, porém, obteve decisões em outras instâncias e na SPU para prosseguir com a compra da casa. O juiz de Angra ainda manteve o embargo na transferência, mas este caiu em janeiro.
Além do conflito de versões, há discrepâncias entre documentos do imóvel. A matrícula usada por Willer para justificar ter feito a compra dos verdadeiros donos diz que o terreno tem 1,4 mil m². O contrato da empresa de Richarlison, por sua vez, fala em 4,4 mil m². Por fim, o pedido de Willer ao governo do Rio neste ano cita um terreno de 42,9 mil m².
PF investiga
A área do imóvel é considerada “terreno de Marinha”, o que exige o pagamento de uma taxa de ocupação anual à União. Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) relatada por Flávio em 2024, e que ficou conhecida como “PEC das Praias”, busca permitir que pessoas físicas e empresas possam comprar esses terrenos da União e se tornarem donas em definitivo. A proposta está parada no Senado.
A disputa sobre a propriedade do imóvel em Angra, por sua vez, já foi incorporada pela Polícia Federal ao inquérito que mira suspeitas de lavagem de dinheiro na relação entre Flávio e Willer. O caso envolve indícios de que o senador utilizasse uma conta bancária em nome da empresa offshore Alcar Holdings, de Willer. Ontem, Moraes determinou o bloqueio de R$ 6 bilhões de Willer e a quebra dos sigilos bancário e fiscal do advogado e da Alcazar. A decisão também determina o cancelamento de passaportes de Willer.

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