A onda de governos de direita que ocorre na América Latina chegou à Colômbia nesta sexta-feira, mas o novo presidente do país está prestes a descobrir que governar uma nação profundamente dividida é muito mais difícil do que vencer uma eleição.
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O advogado conservador Abelardo de la Espriella venceu pela margem mais estreita após fazer campanha com um programa inspirado na austeridade fiscal do argentino Javier Milei, nas políticas de segurança de mão dura do salvadorenho Nayib Bukele e em um alinhamento estreito com Donald Trump.
Agora, herdará uma das tarefas de governo mais complexas da região, com um déficit fiscal crescente, inflação em aceleração, taxas de juros elevadas e uma deterioração da segurança impulsionada por uma produção recorde de coca, que está fortalecendo os grupos armados.
De la Espriella junta-se a Milei, ao chileno José Antonio Kast e à peruana Keiko Fujimori como parte de uma guinada regional cuja solidez política já está sendo posta à prova pela magnitude dos desafios que enfrentam.
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Guadalupe Pardo/Pool/AFP
Apenas 35% dos peruanos têm uma opinião favorável sobre Fujimori, que assumiu o poder no mês passado após vencer por uma margem estreita em sua quarta tentativa de chegar à Presidência. Em contrapartida, 55% têm uma imagem desfavorável dela, segundo a LatAm Pulse, uma pesquisa realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News e publicada nesta semana.
Embora seja vista como a melhor oportunidade do Peru para recuperar a estabilidade após anos de caos político, Fujimori não conta com maioria no Congresso e se prepara para enfrentar muitos dos mesmos desafios que complicaram a gestão de seus antecessores, em um país que teve nove presidentes na última década.
Quando assumiu o cargo em março, Kast tinha uma diferença positiva de 12 pontos entre aqueles que aprovavam e os que desaprovavam sua gestão. Essa vantagem praticamente desapareceu apenas alguns meses após o início de sua Presidência, depois que a eliminação dos subsídios aos combustíveis e o fraco crescimento econômico puseram fim, de forma prematura, à sua lua de mel com os eleitores.
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Esse é um alerta para Espriella. Antes de sua posse, metade dos colombianos afirmava ter uma opinião desfavorável sobre ele, enquanto 45% tinham uma imagem positiva, segundo o LatAm Pulse.
No mês passado, recebeu um impulso importante quando o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) ofereceu US$ 9 bilhões em financiamento para aliviar as pressões fiscais. No entanto, também houve um revés quando sua coalizão perdeu a disputa pela presidência do Senado, demonstrando a falta de uma maioria legislativa sólida que facilite a aprovação de sua agenda.
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E, embora o déficit fiscal e o crescente endividamento da Colômbia tenham levado os investidores a exigir o tipo de austeridade que ele prometeu, essa estratégia também traz o risco de afastá-lo do eleitorado, especialmente quando seus opositores de esquerda já convocam mobilizações em massa contra ele.
— Esses governos de direita enfrentam um dilema que não é fácil de resolver — disse Sandra Borda, professora da Universidade de los Andes, em Bogotá.
Embora representem interesses empresariais que “exigem que sejam muito disciplinados com os gastos fiscais, eles entendem perfeitamente, ao mesmo tempo, que reverter qualquer forma de subsídio ou auxílio lhes trará problemas de governabilidade extremamente sérios”, afirmou.
Tempos turbulentos
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Maria Isabel Oliveira / O Globo
Milei, a principal referência da direita regional e que compareceu à cerimônia de posse de Espriella, conseguiu reduzir a inflação de níveis próximos a 300%, tirar a economia argentina — propensa a crises — de uma breve recessão e fazê-la voltar a crescer, além de eliminar os persistentes déficits orçamentários.
No entanto, quase três anos após o início de seu mandato, a inflação anual permanece estagnada em torno de 30%, os argentinos estão frustrados com o alto desemprego e a falta de oportunidades de trabalho, e as recentes acusações de corrupção contra um de seus colaboradores mais próximos estão prejudicando seriamente sua popularidade.
Em julho, 62% dos argentinos desaprovavam Milei, frente a 37% que ainda tinham uma opinião favorável sobre ele, segundo o LatAm Pulse.
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A principal preocupação de Espriella desde o primeiro dia será provavelmente a segurança, um tema que, ainda mais do que a economia, impulsionou o avanço da direita na América Latina. Ele prometeu construir megapresídios como parte de uma estratégia de mão dura contra a violência e os grupos guerrilheiros na Colômbia.
No entanto, ao longo de décadas, ficou demonstrado que desmantelar as redes de crime organizado que operam em todo o continente é muito mais difícil do que sugerem os discursos de campanha.
— Eles foram muito eficazes ao mostrar como os governos de centro-esquerda haviam fracassado no enfrentamento ao crime, ou simplesmente o ignoravam — disse Will Freeman, pesquisador sobre a América Latina do Council on Foreign Relations, sediado nos Estados Unidos, ao referir-se à nova geração de líderes conservadores da região. — Mas agora eles têm a responsabilidade de reduzir significativamente a violência.
Riscos com Trump
Trump e os Estados Unidos prometeram ajudar. Mas a proximidade com o presidente americano também pode acarretar riscos.
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Washington concedeu a Milei um apoio financeiro de US$ 20 bilhões antes das disputadas eleições legislativas do ano passado, está oferecendo apoio técnico a Espriella na área fiscal e formou uma nova coalizão de aliados regionais, ao mesmo tempo em que promete reforçar o combate ao narcotráfico.
Contudo, Trump continua sendo amplamente impopular, inclusive em países como a Colômbia, onde apoiou Espriella antes do segundo turno de junho. Mais da metade dos colombianos — 54% — tem uma imagem negativa do presidente americano, contra 34% que o veem de forma favorável, segundo o LatAm Pulse. A maioria no Chile e na Argentina também tem uma opinião desfavorável sobre Trump, de acordo com a pesquisa.
E, apesar dos esforços de Trump para ampliar sua influência na América Latina, líderes como Espriella talvez não possam contar com sua ajuda caso enfrentem dificuldades, afirmou Sergio Guzmán, fundador da consultoria Colombia Risk Analysis, sediada em Bogotá.
— Os Estados Unidos haviam tratado a região com certa generosidade anteriormente, mas agora estarão muito ocupados com seus próprios assuntos internos para lançar uma boia de salvação à região — disse Guzmán. — O que vimos com Milei foi realmente a exceção, e não a regra.

