O Brasil conseguiu o que parecia impensável: fez Carlo Ancelotti experimentar, por alguns dias, a sensação de ser um daqueles técnicos “bombeiros” que o Campeonato Brasileiro fabrica. O italiano foi nomeado, viajou e reuniu-se com um elenco de cuja montagem ele até participou, mas não o fez sozinho, antes de dirigir três sessões de treino e colocar a equipe em campo. Após o insosso 0 a 0 de Guayaquil, ainda precisou explicar por que a exibição não tinha sido tão boa. Ou por que, em dados momentos, a proposta do time parecera conservadora. Ainda se acredita em milagres por aqui.
Há motivos de sobra para que a segunda convocação de Ancelotti, daqui a distantes três meses, pareça mais autoral do que a lista feita a várias mãos para os jogos contra Equador e Paraguai. E até lá, aconteça o que acontecer amanhã, em Itaquera, os 90 minutos de Guayaquil terão fornecido material suficiente para Ancelotti obter um raio-x do futebol brasileiro atual. Como era natural esperar, o jogo remeteu a carências que se arrastam por todo o ciclo iniciado após o Mundial do Catar. Problemas que, diga-se, são reflexo da escola brasileira atual.
O mais evidente está no meio-campo. A volta de Casemiro acrescentou experiência e uma dose de segurança defensiva, mas a seleção tem dificuldade de encontrar homens que estabeleçam controle, ditem o ritmo, organizem o time de uma intermediária a outra. Bruno Guimarães é ótimo jogador, mas não tem tanta pausa, talvez por jogar num Newcastle que vive tentando atravessar o campo o mais rapidamente possível. E Gerson se destaca mais pela condução, pela força, e menos por ser um passador.
Nos últimos anos, a produção brasileira deste tipo de jogador tem sido escassa. Some-se a isso a fartura de atacantes velozes e habilidosos, torna-se tentador recorrer a um jogo de mais segurança defensiva e contragolpes rápidos. Pode contrariar a imagem idealizada de que o Brasil deve ter a iniciativa sempre, mas pode ser um “atalho” quando se tem um processo tão atrasado como este. Ancelotti é alguém adaptável aos jogadores que dirige, então, é impossível dizer que rumo irá tomar um projeto recém-iniciado. Mas não seria surpresa se, especialmente em jogos contra grandes potências, apostasse em solidez atrás para liberar espaço para os talentos da frente.
Aí restaria outra questão: o camisa 9. Richarlison teve atuação abaixo do desejável no Equador. O coletivo não o ajudou, mas tecnicamente ele parece distante de seu melhor nível. Sua temporada pelo clube já não fora boa o bastante para que iniciasse como titular em Guayaquil. Matheus Cunha pode ser uma opção de um atacante mais móvel, ativo na construção de jogadas. Já Rodrygo, quando se recuperar, pode emprestar seu enorme talento como um falso 9. Não que a falta do centroavante vá decretar o futuro do Brasil. Olhando para a elite das seleções, é possível enxergar uma Espanha que não tem um grande centroavante. Aliás, ao contrário dos grandes clubes do mundo, que tudo podem comprar, as seleções convivem com posições mais carentes. O que parece mais difícil é encontrar uma grande seleção sem meias especiais, como mostrou Pedri na final da Liga das Nações, ontem.
O Brasil tem alguns dos maiores talentos do mundo no gol, na zaga e à frente da defesa. No ataque, tem craques cujo drible, velocidade e criatividade também os colocam na elite internacional. Há talento suficiente para competir com os melhores, mas ver o Brasil ganhar a Copa pareceria bem mais palpável se não tivéssemos perdido dois anos e meio.
Enquanto estiver em atividade e Portugal conquistar algo, Cristiano Ronaldo será a imagem do triunfo. Pode ter se tornado menos rápido, ágil, participativo. Mas é influente, e se destaca pelo amor ao jogo, pela ambição inesgotável. A Liga das Nações encerrada ontem juntou grandes talentos em jogo abertos, com exibições defensivas não tão boas. O resultado foram muitos gols e jogos atraentes.
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O acerto com Arthur Cabral deve ser celebrado pelos alvinegros. Vai à Copa do Mundo de Clubes um elenco reforçado. No entanto, quando se olha o longo prazo, o cenário muda. Há jogadores chegando, e nomes como Igor Jesus, Jair e Cuiabano perto da saída. O elenco pode continuar forte, mas parece claro que o projeto do Botafogo ainda precisa de mais estabilidade. A permanente reconstrução não é saudável.
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É justo argumentar que o Flamengo se fragilizou quando a renovação do contrato de Gerson resultou numa multa rescisória baixa para os padrões atuais. No entanto, sua iminente saída para a Rússia parece uma decisão do jogador, seduzido por um salário muitíssimo alto. E seu momento de carreira dificilmente atrairia uma proposta de compra mais lucrativa para o Flamengo. A vontade do jogador tem enorme peso.

