Questionada até que ponto os direitos das mulheres estão ameaçados pela emergência da extrema direita mundo afora, Angela Davis suspira por longos segundos. Não é de tédio ou desalento. O suspiro funciona como uma pausa, como se ela pedisse silêncio para buscar dentro de si uma resposta precisa, que vem com uma força inversamente proporcional à suavidade da voz da filósofa e ativista americana. “A direção que a História irá tomar ainda não está determinada”, afirma, com uma autoridade que soa profética.
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“A ascensão do fascismo nos Estados Unidos e em vários lugares pode dar a impressão de que o curso da História foi interrompido, mas é importante adotar uma perspectiva de longo prazo. Estamos assistindo a reações ao movimento feminista e à defesa dos direitos reprodutivos, mas a nossa luta não foi esquecida, ela continua viva no coração da maioria das pessoas. Não podemos deixar que ciclos eleitorais determinem nosso sentido de futuro”, alerta a autora de “Mulher, raça e classe” (Boitempo), com uma jaqueta branca nos ombros e sandálias douradas nos pés.
A intelectual americana, que desde os anos 1960 está na linha de frente das lutas por emancipação (do feminismo ao antirracismo, do anticapitalismo à solidariedade à Palestina), veio ao Brasil a convite do Sesc Rio para protagonizar o evento mais prestigiado da programação paralela da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho passado. Em meio à intensa programação, conversou com a ELA por 20 minutos cronometrados no Hotel Sesc Paraty.
A filósofa americana Angela Davis e sua esposa, Gina Dent, professora da Universidade da Califórnia
Alfredo ESTRELLA/AFP
Há quase duas décadas, visita o Brasil com alguma regularidade. Não esconde a preferência pela Bahia nem a satisfação com as mudanças observadas no país. “Tenho consciência de que ainda há problemas estruturais sérios, mas houve transformações inspiradoras. Quando comecei a vir para cá, a política de cotas estava começando e vi como as universidades mudaram ao longo dos anos.”
A razão por se aproximar ainda mais do Brasil está sentada ao lado dela, toda vestida de fúcsia: sua companheira Gina Dent, de 60 anos, professora de estudos feministas na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz (Davis é professora emérita da mesma instituição). Gina tem formação em estudos afro-brasileiros, conheceu Abdias do Nascimento (1914-2011), criador do Teatro Experimental do Negro, e chegou a aprender português. Modesta, diz que não fala mais.
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As duas vivem um casamento também intelectual. Em 2022, publicaram, junto com as acadêmicas Beth E. Richie e Erica R. Meiners, o livro “Abolicionismo. Feminismo. Já” (Companhia das Letras) — o abolicionismo penal é uma das principais bandeiras da ex-Pantera Negra, que passou 18 meses encarcerada no início dos anos 1970, acusada injustamente de conspiração e assassinato. Ela diz que a experiência de trabalhar com a companheira foi “iluminadora” e que seguiu os mesmos princípios que fazem um relacionamento dar certo: “Valorizar as ideias da outra tanto quanto valorizamos as nossas”. Gina complementa: “Compartilhar coisas importantes, como o ativismo e trabalho intelectual, é o que faz a vida ser bonita”.
Aliás, construir novas formas de vida é o objetivo das duas. É por isso, explica Gina, que elas evitam falar em “direitos”, termo associado às culturas capitalistas do Ocidente, e preferem usar “responsabilidades” e “vínculos comunitários”, que remetem às tradições filosóficas africanas. Angela comemora que movimentos libertários contemporâneos, como o Black Lives Matter (“que começou por iniciativa de mulheres negras e LGBT”, ressalta) “questionam a noção de liderança individualista e masculina” que caracterizava as lutas do passado.
Quando estava na prisão, seu rosto, emoldurado pelo black power, estampou o que exigiam: “Libertem Angela Davis”. É difícil acreditar que aquela jovem ativista completou 82 anos. “Para mim também é estranho pensar”, ela ri. “Uma das vantagens de viver tanto tempo é ver as consequências do trabalho. Quando começamos a falar em defesa da Palestina, era muito jovem, pronunciar a palavra Palestina era quase impossível. Agora, pessoas em todo o mundo estão denunciando o genocídio em Gaza”, afirma a filósofa, que está “feliz por ter sobrevivido”. “Perdemos muitos pelo caminho. Carrego a responsabilidade de dar testemunho por todos que não estão mais aqui.”
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