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O inverno das baleias: temporada começou mais cedo, se estendeu além do esperado e teve até nascimentos

Quem olhou para o mar neste inverno teve boas chances de encontrar uma surpresa. Em vez de apenas horizonte, ondas e embarcações, podia dar de cara com o dorso de uma baleia, o jato de água de uma respiração ou, com um pouco mais de sorte, assistir a um salto. Em 2026, elas chegaram tão […]

O inverno das baleias: temporada começou mais cedo, se estendeu além do esperado e teve até nascimentos


Quem olhou para o mar neste inverno teve boas chances de encontrar uma surpresa. Em vez de apenas horizonte, ondas e embarcações, podia dar de cara com o dorso de uma baleia, o jato de água de uma respiração ou, com um pouco mais de sorte, assistir a um salto. Em 2026, elas chegaram tão perto da cidade que puderam ser observadas das praias de Copacabana, Ipanema, Leblon e São Conrado. Algumas entraram na Baía de Guanabara e circularam pelas enseadas de Botafogo e do Flamengo. Houve registros de filhotes muito jovens, inclusive de animais que podem ter nascido nas águas do Rio. E as baleias-francas-austrais, espécie mais associada ao litoral Sul, também apareceram por aqui.
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A temporada migratória das jubartes costuma se concentrar entre junho e meados de agosto. Em 2026, porém, os primeiros registros apareceram ainda no fim de abril, e os animais continuaram sendo avistados mesmo depois do auge da temporada, com ocorrências em setembro. Para quem acompanha a espécie, o ano chamou a atenção não só pelo número de baleias, mas também pela proximidade com a costa.
— Realmente este ano tivemos um número maior de baleias e uma temporada mais extensa — diz o biólogo Pedro Fróes, um dos coordenadores do Projeto Baleia Jubarte, que desde 2022 atua no monitoramento dos animais.
Biólogo Ricardo Gomes comenta sobre um avistamento de baleias
Uma comparação direta com o ano passado precisa levar em conta as condições de navegação. Em 2025, uma sequência de frentes frias dificultou as saídas para o mar. Neste inverno, os períodos de tempo firme permitiram um esforço maior de observação. Ainda assim, segundo Fróes, mesmo que o número de embarques tivesse sido igual ao do ano passado, a percepção dos pesquisadores é de que haveria mais baleias.
No fim de maio, antes do auge da temporada, os animais jovens já apareciam em grande quantidade e muito próximos das praias de Copacabana, Ipanema e Leblon. A partir da segunda quinzena de junho, os adultos ganharam espaço nos registros, em grupos maiores, em busca de parceiros para reprodução.
— No início da temporada, no final de maio, era um show de baleias-jubarte coladas nas praias. Eram indivíduos jovens. Os juvenis estão chegando antes, e é um bom indício. Se eles gostarem dessa área, pode ser que a utilizem mais quando forem adultos e, daqui a um tempo, a gente poderá ter animais passando mais tempo aqui — explica Fróes.
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O fenômeno ainda precisa ser acompanhado nos próximos anos antes que se possa falar em uma mudança consolidada no comportamento da espécie. Mas ocorre em um momento de forte recuperação populacional. Na década de 1980, a população de jubartes no país era estimada em menos de dois mil animais. O último censo, realizado em 2025, chegou a cerca de 35 mil.
Mãe e filho. A temporada de 2026 ficou marcada por nascimentos em águas cariocas
Divulgação/Rafael Carvalho
Para o pesquisador Rafael Carvalho, do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a maior presença das baleias próximo à costa é compatível com esse processo de recuperação, resultado de décadas de esforços de conservação depois da proibição da caça comercial.
— As baleias das décadas anteriores foram muito caçadas, e isso teve um impacto. Algumas espécies não se recuperaram até hoje. As jubartes têm demonstrado um aumento expressivo, certamente por conta dos esforços de conservação. Isso é resultado de um trabalho de longo prazo — diz Carvalho.
Mais animais, mais avistamentos
Com mais animais, também aumenta a possibilidade de expansão das áreas utilizadas durante a migração e a reprodução. Historicamente, o principal berçário das jubartes na costa brasileira está no Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Mas, para Pedro Fróes, o crescimento da população pode estar levando a espécie a explorar outros trechos do litoral:
— Agora, com 35 mil baleias, não existe mais essa concentração só em Abrolhos. Com a extensão da área reprodutiva dos animais, talvez elas parem antes porque precisam encontrar novos lugares. E quem sabe o Rio não pode se tornar esse lugar?
Regras. Embarcações devem ficar paradas caso as baleias se aproximem
Divulgação/Felippe Demarch
É uma hipótese que só o tempo e o monitoramento poderão confirmar. Mas os registros de filhotes tornam a possibilidade especialmente interessante. Fróes conta que houve três registros de filhotes nascendo na região nesta temporada. Em um dos casos, o animal parecia ter apenas um ou dois dias de vida. Rafael Carvalho lembra que dava para ver que ele tinha nascido naquele dia ou um ou dois dias antes:
— Nasceu nas águas do Rio, é carioca. Registrar o nascimento de um desses animais é prazeroso. Cada nascimento é uma vitória.
Foi dentro da Baía de Guanabara, porém, que aconteceu a principal novidade do ano. Em julho, durante cerca de três semanas, houve registros de jubartes na Enseada do Flamengo e na Enseada de Botafogo. Em alguns dias, até três animais foram observados. Uma baleia ganhou o apelido de Guanabara entre os pesquisadores e de Glorinha entre os moradores da região. Ela permaneceu por vários dias dentro da baía.
Para o biólogo Ricardo Gomes, do Instituto Mar Urbano, a presença diária no Flamengo foi mesmo o grande diferencial de 2026. Foi ele quem fotografou um dos primeiros episódios de avistamento da temporada. Em maio, enquanto sua equipe trabalhava no projeto Raias da Guanabara e acompanhava pescadores da colônia Z-13, em Copacabana, uma baleia foi avistada em Ipanema. Ele pegou a bicicleta e seu drone e passou a se comunicar pelo celular com o barco da equipe. Depois, levantou o drone e acompanhou o animal até a região das Cagarras.
— Foi uma corrida maluca. A gente respeitou os limites de observação. Conseguimos filmar. É difícil afirmar que foi o primeiro registro, mas foi o que marcou o início da temporada — acredita.
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A presença na baía teve um efeito inesperado: colocou a observação de baleias ao alcance de quem estava na praia.
— O passeio para ver baleias é um passeio caro, que não é tão democrático. Mas uma baleia na Praia do Flamengo qualquer um conseguia ver com binóculo. Não precisava nem ter barco. O pessoal das canoas havaianas ficava procurando as baleias — conta Gomes.
Novidade. Baleias-jubartes foram vistas na Baía de Guanabara este ano
Divulgação/Marcelo Samuel
A cena também despertou nele uma lembrança de um passado em que a relação da cidade com as baleias era bem diferente.
— Eu saía da Marina da Glória e via o pessoal procurando baleia. Isso me remeteu aos tempos áureos da Baía de Guanabara, quando os portugueses tinham medo de navegar ali por causa da quantidade de baleias — diz.
O retorno dos animais coincidiu com mudanças recentes na qualidade das águas da Enseada do Flamengo, mas Gomes evita estabelecer uma relação direta:
— É tudo suposição. É um animal tão complexo que temos que estudar durante anos para começar a entender. O que podemos afirmar é que a Enseada do Flamengo teve uma mudança abrupta com relação à qualidade das águas, com a limpeza do interceptor oceânico. A água está mais atrativa, mas não posso afirmar que elas vieram por isso.
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Mais importante para os pesquisadores é o fato de que as baleias não apenas passaram pela baía: algumas permaneceram. Fróes acompanhou uma delas em dias consecutivos e diz que o animal parecia saudável, explorando o território.
— A gente tem um sonho de que, se a quantidade de baleias continuar aumentando, elas possam voltar a passear pela baía e usar esse lugar como um ponto de descanso. A permanência desse animal mostra que existe essa possibilidade futura — diz.
E as jubartes não foram as únicas visitantes do inverno carioca. Carvalho chama a atenção para a quantidade de golfinhos-nariz-de-garrafa registrados na cidade e para o aumento dos avistamentos de baleias-francas-austrais. A espécie tem uma rota migratória diferente da das jubartes. Sua principal área de reprodução no Brasil fica no Sul.
— A quantidade delas vindo ao Sudeste mostra que pode estar havendo uma recuperação populacional. Há cem anos, a baía era recheada dessas baleias. Elas foram muito caçadas e começaram a se concentrar na região Sul. Temos mais registros lá, mas elas também aparecem no Rio — diz Carvalho.
Observação no mar ou da areia
Recentemente, uma baleia-franca foi registrada no Leblon e outra no Arpoador. A espécie costuma chegar ainda mais perto da costa do que as jubartes, permanecendo próxima à zona de arrebentação.
— A baleia-franca se aproxima muito da costa. Ela pode ficar muito próxima da arrebentação, parada, ou ficar rodando com a nadadeira para o alto. Isso confunde as pessoas na praia, pois acham que elas podem estar presas em redes — explica Rafael Carvalho.
Para quem transformou esses encontros em atividade profissional, a temporada também foi excepcional. Guilherme Braga, dono da Rio Boat Experience, conta que a empresa começou os passeios de observação em abril e teve, este ano, a maior procura desde que passou a oferecer a atividade.
O passeio custa R$ 385 por pessoa, dura cerca de três horas e sai da Urca ou do Canal da Barra. A embarcação mantém uma distância mínima de aproximadamente cem metros dos animais. Quando uma baleia se aproxima voluntariamente, o barco permanece parado até que ela se afaste. Se o cliente não avistar nenhuma baleia, recebe de volta metade do valor pago.
— Nessa temporada eu achei as baleias mais próximas voluntariamente, mais curiosas. Tivemos muita procura, muita gente do Rio e turistas. É um passeio fascinante. Só de ver a baleia respirando ao seu lado é extraordinário. É um ser gigantesco. Quando salta, é um safári no mar. Tem a tensão, a ansiedade, e quando você vê os movimentos… é algo indescritível. Eu vou quase sempre e fico encantado — diz Braga.
Rio Boat Experience. Registro feito durante passeio de avistamento, que tem duração de três horas
Divulgação/Marcelo Samuel
O crescimento do turismo, porém, traz uma responsabilidade adicional. Pedro Fróes afirma que a maioria das empresas acompanhadas pelos pesquisadores respeitou as normas de observação e não colocou turistas em risco, mas houve casos de embarcações fazendo aproximações inadequadas. Para Ricardo Gomes, o mesmo cuidado deve valer para os drones, que podem produzir imagens impressionantes, mas também perturbar os animais se usados de maneira incorreta.
Durante a temporada, Gomes teve um encontro ainda mais impressionante: viu mais de 30 baleias nas proximidades das Cagarras. Eram vários grupos de machos cortejando uma única fêmea.
— A sensação era de estar no meio de um filme. A oito quilômetros da Praia de Ipanema, foi surpreendente — recorda.
Mas nem sempre é preciso entrar em um barco para encontrar uma baleia. Gomes fez um teste no ano passado: durante quatro dias alternados, subiu em uma pedra no Arpoador com um binóculo para tentar localizar os animais. Conseguiu. Ele aponta o Arpoador como um ponto estratégico para observação e cita também o Bondinho e a região das Cagarras. O canal de navegação entre as ilhas Rasa e Redonda é outro trecho conhecido pelos pesquisadores.
A empresária Michelle Pereira não precisou sequer levar binóculo. Moradora do Arpoador, ela chegou à praia e foi surpreendida por baleias saltando.
— Elas estavam saltando ali no cantinho. Eu moro ali desde que nasci. Chegar à praia e ser recebida, no lugar onde nasci, por baleias saltando foi um presente — lembra, fascinada.
Foram três saltos. Michelle conta que parecia haver uma baleia maior e outra menor. Ela tentou filmar, mas acabou dividida entre registrar a cena e simplesmente olhar.
— Fiquei nervosa porque queria filmar, mas, ao mesmo tempo, queria ver. Foi incrível, emocionante. Ela deu três pulos altos. A gente a via nadando o tempo todo e jogando água para cima. Fiquei extasiada, me sentindo presenteada pelo universo. Fiquei muito feliz o dia inteiro. A galera faz passeio para ver as baleias, mas elas pulam quando querem. E elas quiseram pular para mim — brinca.
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A frase traduz bem a natureza desses encontros. Não há garantia de espetáculo. A baleia pode aparecer, respirar e desaparecer. Pode passar distante da praia, entrar na baía, permanecer horas no mesmo lugar ou simplesmente seguir viagem. É justamente por isso que os pesquisadores insistem que a observação precisa respeitar o espaço do animal.
— Tem baleias que estão com filhotes, outras que estão dando à luz, outras que estão no processo de reprodução. Dar à luz e cuidar de um filhote demandam energia da fêmea. É importante respeitar — diz Carvalho.
Outro desafio é a atividade pesqueira. Nesta temporada, houve registros de baleias presas em redes de pesca. Em um dos casos, foi necessário acionar órgãos ambientais. Na maioria das ocorrências, porém, os próprios animais conseguiram se desvencilhar. O monitoramento dessas áreas é uma das preocupações do Projeto Baleia Jubarte.
— O animal não consegue ver que tem uma rede e pode se enroscar, ficar preso e se machucar. É algo que precisa ser monitorado para que a gente consiga conciliar a pesca com a presença desses animais — afirma Fróes.
A temporada de maior concentração chegou ao fim. Os grandes grupos que transformaram o litoral carioca em cenário de saltos, respirações e nadadeiras devem agora seguir viagem. Os encontros ficarão mais escassos, embora algumas baleias ainda possam passar pela costa, como as cinco que foram avistadas em Saquarema na última quarta-feira.
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O inverno das baleias: temporada começou mais cedo, se estendeu além do esperado e teve até nascimentos

Autor

BRCOM