— A todos vocês, irmãos e irmãs de Roma, da Itália, do mundo inteiro, queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que sempre busca a paz, que sempre busca a caridade, que sempre busca estar próxima, especialmente daqueles que sofrem — disse o novo Papa.
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Considerado um “cosmopolita” dentro da Cúria Romana, fluente em quatro idiomas e com uma longa trajetória missionária, Leão XIV sugere que irá seguir alguns dos passos de seu antecessor, Papa Francisco, embora sua trajetória mostre diferenças e até divergências entre os dois.
Nascido em Chicago, uma das cidades com mais católicos nos EUA, em 1955, Prevost entrou para a vida religiosa em 1977, no Seminário Menor de Padres Agostinianos — ordenado sacerdote em 1982, ele obteve uma graduação em Matemática, um mestrado em Teologia e um doutorado em Lei Canônica na Universidade Pontifícia Tomás de Aquino, em Roma. Ele também fala, além de seu nativo inglês, italiano, francês e espanhol.
Em 1985, foi enviado para o Peru, uma nação que marcaria sua trajetória na Igreja. Inicialmente, atuou em Chulucanas, como parte da missão agostiniana — na Ordem dos Agostinianos, fundada no século XIII, a vida em comunidade, a busca interior por Deus e a razão são pilares fundamentais.
O trabalho foi brevemente interrompido em 1987, e Prevost retornou ao Peru no ano seguinte para uma estada mais longa, na qual comandaria um um seminário em Trujillo, terceira cidade mais populosa do país, onde atuou como padre, diretor de formação, professor de Direito Canônico e vigário judicial.
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A excelência, reconhecida pelos fiéis e pelo Vaticano, o levou para Roma em 2001, quando foi escolhido o prior geral (chefe) da Ordem dos Agostinianos. Durante seus dois mandatos — ele foi reeleito em 2007 — também foi elogiado pelas suas capacidades de administração e liderança.
Ele voltaria à América Latina em 2014, novamente ao Peru, e no ano seguinte foi indicado bispo de Chiclayo. Na época, Prevost também adquiriu a cidadania peruana, o que, tecnicamente, o torna um Papa latino-americano, tal qual Francisco. Ao se dirigir aos mais de um bilhão de católicos ontem, pela primeira vez, Leão XIV fez uma saudação especial em espanhol ao povo peruano.
— E se também me permitem, uma palavra, uma saudação a todos aqueles, e em particular à minha querida Diocese de Chiclayo, no Peru, onde um povo fiel acompanhou seu bispo, compartilhou sua fé e deu muito, muito para continuar sendo Igreja fiel de Jesus Cristo — afirmou.
Apesar de sua extensa coleção de chapéus peruanos, alguns usados em eventos públicos e aulas, e dos eventuais passeios montado em jumentos em estradas empoeiradas, Prevost sempre manteve um perfil discreto. Em entrevista ao New York Times, o padre Michele Falcone, que considera o novo Pontífice seu mentor, disse que “até abençoava bebês em público, mas jamais os pegava nos braços”, como fazia seu antecessor, Francisco.
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Essa não era a única diferença entre os dois Papas.
Enquanto Francisco não se dizia apto a julgar a presença de sacerdotes homossexuais na Igreja, e autorizou que os padres abençoem casais de pessoas do mesmo sexo, Leão XIV, quando bispo em Chicayo, foi contra um plano do governo local para ensinar questões de gênero nas escolas, afirmando que “a promoção da ideologia de gênero é confusa, porque busca criar gêneros que não existem”.
Em 2012, quando estava em Roma, disse que a imprensa ocidental e a cultura fomentam “simpatias por crenças e práticas contrárias ao evangelho”. Ainda citou o “estilo de vida homossexual” e “famílias alternativas compostas por parceiros do mesmo sexo e suas crianças adotadas” como exemplos negativos.
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Em outro tema delicado na Igreja Católica, as acusações de abusos cometidos por sacerdotes, Prevost foi acusado de inação em ao menos dois casos, um nos EUA e outro no Peru.
No primeiro, em julho de 2000, ele autorizou que um padre acusado de abuso sexual de menores morasse em um prédio de apartamentos da Ordem dos Agostinianos próximo a uma escola primária, apesar de alertas vindos de dentro do clero. O caso foi revelado pelo jornal Chicago Sun Times apenas em 2021. Ele jamais fez comentários sobre o episódio.
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Anos depois, três irmãs o acusam de não investigar devidamente denúncias de abusos cometidos por dois sacerdotes em Chiclayo, entre 2007 e 2015, e alegam que ele tampouco impediu que um dos acusados celebrasse missas. Em 2022, Prevost prometeu abrir uma investigação canônica, mas nenhum resultado foi apresentado posteriormente. Segundo apoiadores do hoje Pontífice, as denúncias faziam parte de uma campanha promovida por um movimento ultraconservador peruano, dissolvido por ordem de Francisco.
Seus caminhos o levaram novamente a Roma em 2023, quando assumiu os postos de prefeito do Dicastério dos Bispos e de presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina.
— Minha vida mudou muito: tenho a oportunidade de servir o Santo Padre, de servir a Igreja hoje, aqui, na Cúria Romana. [É] uma missão muito diferente de antes, mas também uma nova oportunidade de viver uma dimensão da minha vida — afirmou em entrevista ao portal Vatican News, em 2023. — Com esse espírito, encerrei minha missão no Peru, depois de oito anos e meio como bispo e quase vinte anos como missionário, para iniciar uma nova em Roma.
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O novo Papa é próximo da atual direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e é amigo do atual presidente da organização, Dom Jaime Spengler, cardeal arcebispo de Porto Alegre. Antes de ser escolhido Papa, ele tinha uma visita prevista para Aparecida, em São Paulo, onde participaria da Assembleia dos Bispos, inicialmente programada para abril.
Seu perfil pragmático, que se equilibra entre um progressismo mais tímido do que o de Francisco, com acenos moderados aos conservadores, abriu caminho para conciliar campos conflitantes na Cúria.
Características que, à frente da Santa Sé, devem ser cruciais para amenizar disputas entre os que querem reformas mais ousadas na Igreja e os que olham para o passado com um quê de nostalgia.
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Logo após o anúncio, o presidente dos EUA, Donald Trump (que não é católico), afirmou que era “uma grande honra perceber que ele é o primeiro Papa americano”, e que aquela era uma “grande honra para o país”, antes de expressar o desejo de conhecer o novo Pontífice. Mas ao contrário do que o republicano sinaliza em público, Leão XIV pode não ser exatamente o que a Casa Branca esperava no atual conclave.
Apesar de ter o passaporte americano, Prevost viveu a maior parte de sua vida longe dos EUA, e tem uma visão missionária e conciliatória de mundo, contrastando com a postura agressiva e isolacionista de Trump.
Na primeira mensagem como Papa, pediu a todos que o “ajudem a construir pontes com o diálogo, com os encontros, para que possamos nos unir, para que sejamos um só povo”.
— Devemos tentar ser uma Igreja missionária, para construir pontes — disse Leão XIV.
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Em outro sinal negativo para a Casa Branca, a conta de Prevost na rede social X compartilhou dois artigos críticos ao vice-presidente americano, J.D. Vance (que é católico), e uma publicação atacando a política migratória de Trump, especialmente o envio de imigrantes para uma prisão de segurança máxima em El Salvador.
Ele não comentou, contudo, a foto de Trump, gerada por inteligência artificial, na qual o presidente aparece como Papa, o que irritou milhões de católicos, inclusive cardeais no conclave.
