O presidente de Guiana, Irfaan Ali, anunciou à AFP na quarta-feira que está reeleito para um segundo mandato à frente do país latino rico em jazidas petrolíferas. Na campanha, o líder de centro-esquerda, de 45 anos, prometeu tirar o país de 850 mil habitantes da pobreza. Ele também terá que administrar a questão delicada de Essequibo, a região das reservas de ouro negro e minerais reivindicada pela vizinha Venezuela.
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— Os números são claros. O Partido Progressista do Povo/Cívico (PPP/C) obteve uma vitória esmagadora. Temos uma grande maioria e estamos prontos para fazer o país avançar — antecipou Ali em uma breve declaração por telefone.
A Comissão Eleitoral da Guiana (Gecom) ainda não publicou os resultados das eleições, e a apuração dos votos deve começar apenas na manhã desta quinta-feira.
Segundo o Centro Carter, agência de monitoramento eleitoral dos EUA, e a União Europeia (UE), as eleições gerais da Guiana foram plurais e sem “irregularidades significativas”. Apesar disso, eles destacaram um favorecimento ao partido do atual mandatário.
“O presidente e sua administração inauguraram um grande número de projetos públicos, como hospitais, rodovias, delegacias de polícia e serviços de transporte importantes”, afirma o relatório preliminar da missão da UE.
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Por lá, as eleições em turno único coroam como presidente o líder do partido mais votado. Já a composição exata do Parlamento, que poderia resultar em uma coalizão opositora, deverá aguardar o anúncio dos resultados da Gecom.
Conforme a imprensa local, Azruddin Mohamed, chamado de “Trump guianense”, teria ficado em segundo lugar. Objeto de sanções americanas, Mohamed criou há três meses seu próprio partido, Ganhar/Investimos na Nação (WIN), para disputar o pleito. Enquanto o opositor de esquerda Aubrey Norton, da Associação para uma Nova Unidade (APNU), teria sido o grande perdedor.
Nascido em Leonora, um vilarejo a 15 km da capital Georgetown, o presidente Irfaan Ali é filho de professores e estudou no Reino Unido e na Jamaica. De origem indiana e muçulmano, grupo tido como majoritário no país, ele fez deles sua principal base de eleitores. Há cindo anos, quando chegou ao poder, Ali derrotou há cinco anos o então presidente David Granger, que à época buscava um segundo mandato.
Antes, ele eleito deputado em 2006 e, em 2020, escolhido pelo ex-presidente Bharrat Jagdeo como candidato do Partido Progressista do Povo (PPP). Primeiro mandatário a governar sob a era do petróleo, defende que os recursos sejam administrados em benefício das futuras gerações.
A Guiana foi às urnas nesta segunda-feira em meio à crise diplomática com a Venezuela, que reivindica a região do Essequibo, rica em recursos naturais. O vencedor terá a missão de administrar a nova riqueza do país, ainda marcado por desigualdades, e enfrentar a pressão expansionista do governo de Nicolás Maduro.
Os venezuelanos reivindicam o Essequibo há mais de cem anos. Com extensão de160 mil km², correspondente a dois terços do território da Guiana, o lugar voltou ao centro das tensões após as descobertas de petróleo. Caracas sustenta que a fronteira válida é a de 1777, do período colonial espanhol. E Georgetown defende os limites fixados em 1899, quando o país era colônia britânica.
Em maio, a Venezuela chegou a eleger simbolicamente um governador e outros representantes para a área, totalmente administrada pela Guiana. Antes, no início do ano passado, Maduro promulgou a Lei Orgânica para a Defesa da Guiana Essequiba, que contempla a criação do estado da “Guiana Essequiba”. A decisão foi tachada pelos guianenses como uma “violação flagrante dos princípios mais fundamentais do direito internacional”.
Dos 850 mil habitantes, cerca de 750 mil estavam aptos a votar. Único país de língua inglesa da América do Sul, a Guiana foi colonizada por ingleses até 1966 e integra a Commonwealth. Antes, foi colonizada pelos Países Baixos e, após a abolição da escravidão, recebeu imigrantes da Índia para o trabalho nas plantações de cana. A sociedade segue dividida por origem étnica, com diferenças marcantes entre as comunidades de ascendência indiana, africana e indígena.
Com as maiores reservas de petróleo per capita do mundo, a Guiana quadruplicou seu orçamento estatal após a descoberta, em 2015, de grandes jazidas no Essequibo. O país iniciou a produção há seis anos e espera dobrar a extração de barris até 2030. Em 2024, teve o maior crescimento da América Latina, com avanço de 43,6% do PIB.
Apesar disso, a pobreza ainda é alta. Segundo o Banco Mundial, a parcela da população que vive com menos de US$ 5,50 (R$ 30, na cotação atual) por dia caiu de 60,9% em 2006 para 48,4% em 2019. Não há números recentes para medir o impacto dessa indústria em termos de redução da pobreza.
— É preciso distinguir entre crescimento e desenvolvimento, garantir que a riqueza se traduza em desenvolvimento, e não apenas em estradas e infraestrutura — afirma Neville Bissember, professor de Direito da Universidade da Guiana. — Existem modelos a seguir: Botsuana, Cingapura, Malásia.
