Com a agenda sempre cheia, a Marrom sobe ao palco da Farmasi Arena no sábado (10) com a bateria da Mangueira e outras surpresas, fala sobre espiritualidade, a relação com o público jovem e enfatiza que novo trabalho não tem espaço para ‘nhenhenhem’: ‘sou uma mulher desassombrada’ Alcione não para. Ou pelo menos essa é a impressão que fica ao olhar a agenda de shows da maranhense de 77 anos. “O povo não me larga”, brinca, em conversa na sua casa, na Barra. No último sábado, enquanto a americana Lady Gaga se apresentava na Praia de Copacabana, a “Grande Dama do Samba” cantava numa casa de shows em Guarulhos (SP). No dia seguinte, foi uma das principais atrações do “Nômade Festival”, na capital paulista. Agora, Alcione se prepara para dar os próximos passos.
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Nesta sexta-feira (9), ela lança o álbum homônimo com composições inéditas de Zeca Pagodinho, Fred Camacho, Inácio Rios e Arlindinho — além de “Não penso em mais nada”, samba de Arlindo Cruz de 2014 que nunca havia cantado. Sábado (10), sobe ao palco da Farmasi Arena para celebrar esse lançamento, em show que terá participação da Bateria da Mangueira e da cantora Iza, com quem já se apresentou no Rock in Rio, em 2019. Na ocasião, elas cantaram juntas “Meu ébano” e “Gostoso veneno” (“Desde que a conheci, em 2018, digo que essa menina tem um potencial muito grande. Acho ela verdadeira”, comenta Marrom).
No repertório do show de sábado (todo “de verdade”, como deve ser tudo o que Alcione canta, segundo ela), clássicos atemporais da carreira como “A loba” e “Sufoco” se juntam a novidades, como a recém-lançada “Não mexe comigo” (Igor Leal e Thiago Servo). A cantora também vai receber alguns convidados surpresa.
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Para encarar a maratona musical e manter o célebre vozeirão, a Marrom — que passou a cantar sentada no palco depois de uma cirurgia na coluna em 2022 — toma alguns cuidados: não toma nada gelado, não dorme com o ar-condicionado ou ventilador em cima dela e faz questão de dormir bem.
— O sono é o alimento da voz, como me falava Elizeth Cardoso — sentencia. — Meu descanso é sagrado.
Esbanjando vitalidade e irreverência, a cantora fala sobre espiritualidade (“temos que pensar em Deus antes das coisas”), a relação com o público jovem, passagem do tempo e mais. Sobre o álbum novo, enfatiza que não pode cantar uma coisa “nhenhenhem”. “Sou uma mulher desassombrada”, diz. Abaixo, alguns trechos da conversa:
O GLOBO — Tem noção do poder da sua voz?
ALCIONE — Agradeço a Deus por ter me dado essa voz. Devo muito a ele porque, quando era menina, eu tinha asma e bronquite alérgica, então ficava rouca constantemente. Mas acredito muito na espiritualidade, e desde uma operação espiritual que fiz com o Dr. Fritz, eu nunca mais soube o que é ficar rouca.
Antes de entrar no palco tem algum ritual?
Só rezar. Rezo muito. Peço a Deus pelos meus músicos, por toda a minha produção e por quem vai me assistir, para que tudo ocorra na maior tranquilidade. Temos que pensar em Deus antes das coisas.
Como escolhe quais músicas gravar?
Tem que ser verdade. Eu não posso cantar uma música que não seja verdade. Se for verdade, vai tocar as pessoas. “Sou doce, dengosa, polida, fiel como um cão, sou capaz de te dar minha vida. Mas olha não pise na bola…” (canta, à capela). Isso sou eu, eu sou uma loba. Então as mulheres vão gostar de ouvir. As músicas têm que passar sentimento, amor.
E o seu próximo álbum de inéditas? Pode dar algum “spoiler”?
Eu vou cantar um pedacinho de uma (música nova, “Marra de feroz”, de Xande de Pilares, Gilson Bernini e Helinho do Salgueiro): “Chega devagar, se liga, que aqui tem regulamento. Para início de conversa, mude o seu comportamento” (canta, novamente). Nunca levei desaforo para casa, e essa música é parecida comigo, como tem que ser. Eu não posso cantar uma coisa “nhenhenhem” porque não sou assim. Sou uma mulher resolvida, desassombrada.
Iza: participação no show da Marrom, com a bateria da Mangueira
Divulgação
Sua agenda é muito cheia. Não fica cansada?
O povo não me larga (risos). Querem ver a cantora trabalhando. Cansar eu me canso, mas o meu descanso é sagrado. Aquele meu tempo de noitada, quando acabava de cantar e ia para uma boate, acabou. Agora tenho que me concentrar pois já sou uma senhora de setenta e “vréu”. Não posso ficar na folia. Tenho que acabar de cantar e procurar o meu descanso.
O que gosta de fazer no tempo livre?
Agora estou mais caseira, mas já saí muito para “curtir”. Gosto ainda de sair com Zeca (Pagodinho), com Bethânia. Ela não é uma pessoa de sair muito, mas, quando quer, me liga. Isso até hoje, mas com menos frequência. Entre uma viagem e outra, gosto muito de estar com a minha família. Sempre faço uma comidinha em casa.
Seus fãs estão sempre te chamando de “Rainha” e coisas do tipo. Como você recebe isso?
Deus sempre foi muito bom para mim e tenho muito mais a agradecer do que pedir. Ele reservou esse carinho das pessoas comigo , que é o que me empurra, o que me leva a seguir cantando.
Hoje, aos 77 anos, quando olha para trás, o que mais te orgulha na sua trajetória?
Lembro dos meus pais maravilhosos e da maneira rígida, mas proveitosa que fui criada. Meu pai dizia “sempre tenha sua casa, para não ser mandada embora”, e sempre fiz isso. As mulheres lá em casa já nasceram emancipadas.
E, olhando para frente, tem algum sonho que ainda quer realizar?
Para te dizer a verdade, não é que a gente não sonhe mais com nada, porque você precisa pensar que amanhã vai ser melhor, mas o que peço muito a Deus é saúde. A pessoa sem saúde não é ninguém. Me cuido para poder continuar trabalhando e cuidando da minha família. O mais importante, para mim, é cuidar deles.
Em 2022, você fez uma cirurgia na coluna. Quando começou a precisar fazer os shows sentada, viu algum problema nisso ou lidou com naturalidade?
Encarei com tranquilidade. Como é que o povo vai me dizer que não posso me sentar, meu filho? Olhe bem para mim se eu sou mulher disso. Não é assim que a banda toca. Tenho cara de tambor que amanhece. Sabe o que é isso? Lá no Maranhão, é o tambor de crioula, que “o couro é afinado a fogo, tocado a murro, dançado a coice e chão”. Ele vara a madrugada e vai até de manhã. Eu sou ele.
Como é a sua relação com o público mais jovem?
Eu tenho essa sorte que Deus me deu da juventude gostar das minhas músicas e ir aos meus shows. Fico pensando “gente, o que é que esse povo está fazendo aqui?” (risos). Mas é muito legal essa relação, porque sempre temos alguma coisa a aprender com eles.
Seu público é diverso porque você fala de temas que atravessam o tempo, né? O amor, a desilusão amorosa, a raiva…
São sentimentos que todo mundo sente e já sentiu. Eu não posso ocultar que já “roí beira de penico”. Claro que já roí. Todo mundo se apaixona e vai até o fundo do poço, mas depois volta. Quem nunca se apaixonou e sofreu? Eu não sou infalível.
Programe-se
Onde: Farmasi Arena, Barra
Quando: Sábado (10), a partir das 19h (show às 21h)
Quanto: R$ 65, com 1kg de alimento, últimos ingressos (assinante O GLOBO tem 50% de desconto)
Classificação: 18 anos.

