A maioria dos brasileiros não sente incômodo algum diante da possibilidade de se relacionar com pessoas de posições políticas opostas, revelam dados exclusivos da nova edição da pesquisa A Cara da Democracia, iniciativa que reúne pesquisadores de diferentes universidades brasileiras. O que se depreende dos números, observam os pesquisadores, é um país em que a divisão eleitoral permanece e forja rejeições a grupos, mas não se alastra tanto para a vida social.
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Dado que 45% dos entrevistados não gostam de bolsonaristas e 35% rejeitam petistas, a tolerância na esfera pessoal pode até parecer contraditória, mas foi constatada pelo levantamento.
— As pessoas têm opiniões ruins sobre o campo oposto, mas ao mesmo tempo são tolerantes nos casos concretos. A divisão está presente, mas não é uma identidade tão forte quanto nos Estados Unidos, por exemplo — aponta Oswaldo Amaral, professor da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos e Opinião Pública (Cesop).
É a primeira vez que a pesquisa inclui esse teste no questionário. Os entrevistados foram instados a dar uma nota de 1 a 10 para quão incomodados ficariam em três situações envolvendo quem nutre posições diferentes: namorar uma pessoa assim; manter amizade; ter um filho que se casasse com ela.
— Tenho estudado isso em pesquisas qualitativas, o dado não me surpreendeu. Sou bastante cético quanto à ideia de polarização afetiva. Quando olhamos esses números, vemos uma grande tolerância — afirma João Feres Júnior, do Iesp-Uerj. — Se pegarmos as respostas de 1 a 5 contra as de 6 a 10, meio a meio, apenas cerca de 20% são mais intolerantes. Há pouco incômodo.
Escalada de sentimentos
Editoria de Arte
Do casamento à amizade
Mesmo no relacionamento amoroso, ponto no qual reside a menor diferença entre a tolerância e o rechaço, a discrepância entre os extremos “nada incomodado” e “muito incomodado” é enorme: 55% a 18%. As demais notas, de 2 a 9, ficam no meio do caminho e não chegam a dois dígitos percentuais cada.
— Eu acho saudável que a gente tenha esse diálogo sobre política. No fundo, eu acabo até aprendendo um pouco com algumas coisas que ele fala, e ele comigo — conta a secretária executiva Fátima Dias, de 64 anos, que se opõe ao bolsonarismo desde 2018 a despeito de ser casada com um eleitor da família Bolsonaro. — É bastante saudável que a gente discuta, que a gente tenha nossas opiniões diversificadas, mas isso não nos abala.
O padrão se repete, e até é ampliado, na projeção de amizade ou de relação de um filho com alguém que esteja do outro lado do espectro. Ambos produzem 58% de respostas que indicam nenhum incômodo com a situação.
— Os dados desse incômodo social são baixos no Brasil, mas aumentam um pouco quando cruzamos com a orientação política: é maior entre os bolsonaristas ou petistas, apesar de a média ainda ser baixa — observa Lucio Rennó, professor da Universidade de Brasília.
A dupla João Vicente, de 24 anos, e Ericlys Andrade, de 25, é exemplar do convívio entre amigos divergentes. Mesmo com discordâncias, os diálogos são “leves e tranquilos”, relata Vicente, que se considera de direita e votou em Jair Bolsonaro.
— Consigo enxergar outro ponto de vista, tentar entender o outro lado. Às vezes, até mesmo mudar alguns pensamentos meus. Fico mais disposto a ouvir e conhecer. Acho que eu seria bem mais limitado se ficasse só na minha bolha — avalia o autônomo ao falar do amigo de esquerda.
Rejeições a grupos
Uma constatação interessante da pesquisa é quão conectados estão o petismo e a esquerda, enquanto bolsonarismo e direita são interpretados de forma mais dissociada pelos entrevistados. Basta ver o nível de rejeição a cada um dos grupos separados. Considerando a margem de erro de 2,2 pontos, os percentuais de antipatia por petistas e pessoas de esquerda é igual. Na direita, bolsonaristas são mais rejeitados que aqueles considerados de direita.
— O bolsonarismo virou muito problemático para pessoas que são conservadoras moralmente, mas não necessariamente bolsonaristas, seja pela tentativa de golpe ou outros casos. No campo da esquerda, existe muita convergência em torno da figura do presidente Lula — aponta o coordenador da pesquisa, Leonardo Avritzer, professor aposentado da UFMG e visitante do Iesp-Uerj.
Outra explicação, diz João Feres, é a consistência histórica do PT, que virou sinônimo de esquerda brasileira, na contramão das migrações partidárias de Bolsonaro:
— A rejeição à esquerda tem a ver também com o partido, a história do PT. No caso do Bolsonaro, é muito centrado na figura dele.
‘Decepção’
O estudo mediu ainda os sentimentos do brasileiro em relação a Lula e Bolsonaro. A “decepção” marca presença com força nos dois casos — 45% e 51%, respectivamente, dizem-se decepcionados com os líderes.
— É comum que aumente a ideia de decepção quando alguém já assumiu o governo — explica Lucio Rennó.
Existe, contudo, uma diferença nítida. Bolsonaro registra mais citações em todos os sentimentos negativos disponibilizados, e Lula consegue ao menos um percentual relevante na “esperança”, com 48%, acima dos 35% do adversário.
— A diferença está na “esperança”, e isso tem muito a ver com o histórico do Lula, com pessoas que se sentem beneficiadas por ele. Bolsonaro teve pouco tempo para isso e enfrentou, de forma caótica, uma pandemia — avalia Oswaldo Amaral.
Isso se reflete também na opinião dos entrevistados sobre os maiores nomes da esquerda e da direita brasileira: 47% não gostam “de jeito nenhum” de Bolsonaro, e 34% dizem o mesmo sobre Lula
A pesquisa A Cara da Democracia ouviu 2.000 pessoas em 26 estados do Brasil. A margem de erro estimada é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
*Estagiário sob supervisão de Marlen Couto

