Este texto é da newsletter Bandeirada, enviada toda segunda-feira após os GPs de Fórmula 1, com análise da corrida e do campeonato por Felipe Siqueira. Quer ler a Bandeirada antes da publicação on-line, direto no seu e-mail? Clique aqui para se inscrever.
Com apenas 19 anos, Kimi Antonelli se tornou o piloto mais jovem da história a liderar o campeonato da F1 ao vencer o GP do Japão do último domingo. Superou a marca de Lewis Hamilton, que esteve na ponta na temporada de 2007 aos 22 anos. Mas o grande feito do jovem prodígio italiano da Mercedes acabou ofuscado pela repercussão do forte acidente de Oliver Bearman, a primeira “vítima” dos efeitos colaterais do novo regulamento para 2026.
Na 21ª volta, Bearman se aproximou da curva Spoon a mais de 300 km/h quando se deparou com a Alpine de Franco Colapinto mais de 50 km/h mais lenta. Ao desviar, o inglês da Haas tocou na grama, perdeu o controle, atravessou a pista em alta velocidade e atingiu em cheio a proteção de pneus. A imagem de Ollie saindo mancando do carro assustou (exames não detectaram fraturas, mas o ele machucou o joelho). As consequências, porém, poderiam ter sido piores. O impacto foi de 50G, ou seja, 50 vezes o peso da gravidade.
O pós-corrida foi inundado de “eu avisei” por parte dos pilotos. De fato, o risco de acidentes em decorrência da possibilidade de grandes diferenças de velocidade provocada pelo complexo gerenciamento de energia dos novos motores havia sido alertada. Um problema que põe em risco a segurança dos pilotos, e que F1 e FIA precisarão sentar para resolver o quanto antes.
— Um acidente como esse era questão de tempo. Nós alertamos a FIA e precisamos mudar algo logo. Espero que isso sirva de exemplo e que ouçam mais os pilotos e menos as equipes e pessoas que disseram que estava tudo bem, porque não está tudo bem — disse Carlos Sainz, presidente da Associação dos Pilotos junto com George Russell.
— É isso que acontece com esses carros. Um fica praticamente sem potência, enquanto o outro está usando o modo “cogumelo” (referência ao jogo Mario Kart). Aí, rapidamente, você tem uma diferença de 50 a 60 km/h. É muita coisa. Isso pode acabar em acidentes graves. Quando se trata de segurança, é mais fácil pedir mudanças. Então, talvez devêssemos usar essa palavra para finalmente implementar algumas mudanças — disparou Max Verstappen, um dos mais críticos ao novo regulamento.
- Bandeirada #2: Antonelli conseguirá fazer frente a Russell na briga por título em 2026?
- Bandeirada #1: o que o GP da Austrália revela sobre a nova Fórmula 1?
A explicação das diferenças de velocidade é tão complexa quanto o regulamento. Os novos motores da F1 têm potência dividida em praticamente 50/50 entre combustão e energia elétrica — uma das mudanças mais drásticas deste novo regulamento, com objetivo de tornar a categoria mais eficiente energeticamente e atraente para grandes montadoras de olho no desenvolvimento tecnológico.
Os pilotos e equipes configuram como distribuir essa energia elétrica acumulada nas baterias durante as voltas. A Alpine de Colapinto tinha menos energia para a parte elétrica do motor naquele trecho, e Bearman estava no modo “boost”, maior potência, ativado. Essa grande variação de potência provocou o cenário com a perigosa diferença de velocidade.
— É quase como se você estivesse na volta de aquecimento e outro piloto estivesse em volta rápida. Em alguns momentos, é realmente perigoso — explicou Colapinto após a batida.
— Ultrapassar hoje em dia é acidental. De repente, você se encontra com mais bateria que o carro à frente. E aí ou você bate, ou ultrapassa. É uma manobra de evasão, não uma ultrapassagem — já havia dito Alonso antes da corrida.
Esse complexo sistema de gestão de energia elétrica provoca o “superclipping”, quando os carros perdem velocidade no fim de trechos de alta, mesmo com o piloto com o pé cravado no acelerador. Isso acontece porque, após usar a energia da bateria, o motor entra em um modo de recuperação de energia, funcionando apenas com a combustão. Na 130R, por exemplo, os pilotos despencavam de 320 para 270 km/h. Ficava tão constrangedor que a F1 evitava mostrar onboards do trecho.
A F1 e a FIA já haviam admitido uma revisão das regras de gestão de energia após as primeiras observações na pré-temporada, mas a batida de Bearman mostrou que mudanças são mais urgentes. Nesse cenário, a não realização dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita em abril, em razão dos conflitos no Oriente Médio, vem a calhar para a categoria — a próxima corrida é apenas em 3 de maio, em Miami. Tanto que a FIA já anunciou que a Comissão da F1 se reunirá durante este mês para avaliar o regulamento e realizar possíveis ajustes.
“Uma série de reuniões está programada para abril para avaliar o funcionamento dos novos regulamentos e determinar se algum refinamento é necessário. Quaisquer ajustes potenciais, especialmente aqueles relacionados à gestão de energia, exigem simulações cuidadosas e análises detalhadas”, disse a categoria em comunicado.
Segundo o jornalista Thomas Maher, do PlanetF1, “há uma crescente conscientização dentro da FIA de que a divisão de 50/50 da potência do motor foi uma direção errada”. Segundo ele, a curto prazo, está sendo analisada a revisão dos limites de liberação de energia, enquanto, a longo prazo, é considerada até uma mudança na proporção entre motores de combustão e elétricos.
🏁 BANDEIRADAS FINAIS 🏁
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/1/T/4ObQisTR6aZqEiVja4ZA/114413410-topshot-mercedes-italian-driver-kimi-antonelli-celebrates-with-his-team-after-winni.jpg)
Quebra de expectativa 1. É verdade que Antonelli contou com a sorte para vencer sua segunda corrida seguida. Piastri e Russell, que estavam à sua frente, haviam acabado de parar nos boxes quando o acidente de Bearman provocou a entrada do safety car. Beneficiado pelo pit stop sob o SC, o italiano voltou na ponta. Mas, daí em diante, imprimiu um ritmo tão forte que seu engenheiro precisou pedir para segurar a onda no fim. Venceu com folga, mais de 13s sobre Piastri. Por mais que o garoto sempre tenha sido visto como uma joia, esse início forte e consistente no duelo interno com Russell não deixa de surpreender.
Quebra de expectativa 2. Desde que a Mercedes comprovou ser a equipe a ser batida neste ano, Russell foi apontado como franco favorito ao título, pelo talento já conhecido e pela experiência bem maior que a de Antonelli. Mas, no domingo, ao ver a chance de vitória escapar com o SC, o inglês começou a reclamar da falta de sorte pela segunda corrida seguida, fazendo até Toto Wolff entrar no rádio para pedir para se concentrar na prova. Foram apenas três corridas até aqui. Russell está nove pontos atrás, e ainda pode ser considerado o favorito. Imagino que ele não esperava essa concorrência tão forte de Kimi. Mas, se começar a acusar o impacto emocionalmente, poderemos ver um duelo bem mais equilibrado do que era imaginado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/i/D/6ZILySTrevPY1LYpGSeA/114397177-audis-brazilian-driver-gabriel-bortoleto-drives-during-the-qualifying-session-ahead-o.jpg)
Quebra de expectativa 3. O desempenho forte da Audi nos treinos de sexta-feira e sábado gerou uma expectativa de bom resultado para Gabriel Bortoleto e Nico Hulkenberg no GP do Japão. A equipe parecia brigar para ser a quarta força no grid em Suzuka, e Bortoleto avançou até o Q3 e se classificou em nono no grid. Mas tudo mudou na corrida. O carro não se mostrou tão competitivo, e o brasileiro terminou em um frustrante 13º lugar, enquanto Nico Hulkenberg foi 11º. Em entrevista à TV Globo após a prova, Gabriel reconheceu que a largada tem sido um problema para os carros da Audi e justificou as dificuldades na corrida pela falta de velocidade nas retas. Bortoleto ressaltou que ainda há muita coisa para a equipe evoluir, mas disse estar feliz com o desenvolvimento do carro.

