A possibilidade de perder a visão antes mesmo de realizar seus sonhos fez a americana Michelle Cabrera mudar completamente os rumos da própria vida. Aos 19 anos, ela recebeu o diagnóstico de afinamento da retina, condição que aumenta significativamente o risco de descolamento da retina e cegueira, especialmente em pessoas com miopia severa, o que era o seu caso. Em vez de seguir o plano de concluir a faculdade, conseguir um emprego estável e viajar apenas na aposentadoria, decidiu fazer justamente o contrário: comprar uma passagem só de ida e começar a explorar o mundo.
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Hoje, aos 22 anos, Cabrera soma três anos de viagens solo por diferentes continentes e reúne mais de 500 mil seguidores nas redes sociais, onde compartilha experiências que vão desde viver em vilarejos remotos até sobreviver a situações extremas, como ficar presa durante três dias em uma caverna no Vietnã.
À CNN Travel, a jovem contou que passou dias chorando no porão da casa dos pais, em Illinois, sem conseguir imaginar o futuro após o diagnóstico. Os médicos informaram que não havia uma solução simples, como uma cirurgia a laser, e que sua visão poderia piorar rapidamente caso ocorresse um descolamento da retina.
A partir dali, deixou de pensar em carreira e estabilidade e passou a refletir sobre uma pergunta que mudaria sua trajetória. “Por que eu deveria viver com medo do que pode acontecer?”, recorda.
Sonho antigo ganhou urgência
O desejo de viajar já existia desde a infância. Michelle cresceu assistindo a documentários sobre o Monte Everest, Anthony Bourdain e Steve Irwin e sonhava em explorar lugares remotos. Ainda adolescente, porém, questionava se mulheres poderiam viver esse tipo de aventura sozinhas. Mesmo sem o apoio inicial dos pais, comprou uma passagem apenas de ida para o Nepal.
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Durante três meses, viveu como voluntária em uma aldeia isolada no Himalaia, onde ensinou inglês e foi a única moradora fluente no idioma da comunidade. A experiência, segundo ela, redefiniu sua maneira de enxergar a vida.
— Foi quando percebi que eu podia viver a vida dos meus sonhos agora, e não algum dia no futuro.
Para financiar as viagens, trabalhou em empregos temporários enquanto cursava Enfermagem. Mais tarde, após romper o tendão patelar durante uma aula de surfe na Austrália e precisar interromper os estudos, decidiu dedicar-se integralmente às viagens e à produção de conteúdo. Atualmente, afirma viajar com orçamento reduzido, hospedando-se em hostels baratos, consumindo comida de rua e contando com a ajuda de moradores locais.
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Em uma vinda ao Brasil, ela passou pelo Rio de Janeiro e compartilhou vídeos da experiência de passear de helicóptero, mudar o visual em um salão de beleza na Zona Sul e até de dançar com um motorista de aplicativo durante uma viagem em que vestia uma camisa do Fluminense.
Três dias presa em uma caverna no Vietnã
Uma das experiências mais marcantes aconteceu em 2024, durante uma viagem ao Vietnã. Após visitar diferentes regiões do país, Michelle procurou moradores próximos ao Parque Nacional Phong Nha-Kẻ Bàng para organizar uma expedição fora dos roteiros turísticos tradicionais.
Ela acreditava que passaria apenas algumas horas explorando uma caverna, mas descobriu, já no interior do complexo subterrâneo, que não seria possível retornar pela entrada, e seria necessário fazer uma travessia por outro caminho que duraria três dias.
Segundo Michelle, ela e outros dois turistas receberam apenas lanternas simples, sandálias de borracha e desceram por uma escada de corda improvisada antes de iniciarem o percurso com três guias locais. Durante a expedição, enfrentaram rios subterrâneos, escaladas em rochas escorregadias, passagens extremamente estreitas e acamparam duas noites dentro da caverna.
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O momento mais crítico ocorreu no terceiro dia, quando precisou saltar de uma saliência para um poço de água localizado cerca de oito metros abaixo. Inicialmente, acreditou que a água amorteceria a queda, mas percebeu que havia pedras logo abaixo da superfície.
— Achei que meu tempo tinha acabado. Só conseguia pensar nos meus pais — contou à CNN.
Ela conseguiu completar o salto sem atingir as pedras, embora tenha sido arrastada por uma forte corrente subterrânea e lançado contra rochas antes de conseguir sair da água. Michelle deixou a caverna com hematomas e uma intoxicação alimentar, mas afirma que a experiência apenas reforçou sua filosofia de vida.
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Mensagem viral
Durante anos, ela preferiu não contar publicamente sobre o diagnóstico para que a doença não definisse sua identidade. A história só veio à tona recentemente, após publicar um vídeo no TikTok explicando por que decidiu começar a viajar. A gravação viralizou e levou milhares de pessoas — inclusive amigos próximos — a descobrirem pela primeira vez o motivo que transformou sua vida.
Segundo Michelle, ela recebeu mensagens de pessoas com problemas semelhantes de visão e até relatos de seguidores que decidiram comprar passagens para realizar sonhos adiados.
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Recentemente, ela também recebeu a primeira notícia animadora desde o diagnóstico: após anos de acompanhamento, os médicos informaram que sua condição está estabilizada e que ela pode, futuramente, até se tornar elegível para uma cirurgia corretiva a laser. Mesmo assim, continua sendo considerada uma paciente de alto risco para descolamento de retina.
Para Michelle, porém, a maior consequência do diagnóstico foi outra.
— Isso me fez perceber que, se existe algo que você quer fazer, não deve continuar esperando pelo momento perfeito, porque ele pode nunca chegar. Acho que esse foi o maior presente que tirei de toda essa história.

