A Igreja da Inglaterra pediu desculpas nesta quinta-feira por seu papel na prática de adoções forçadas de bebês, que durou décadas. Entre as décadas de 1950 e 1980, dezenas de milhares de mulheres e meninas solteiras grávidas na Inglaterra e no País de Gales foram enviadas para instituições onde seus bebês foram retirados delas. A arcebispa de Canterbury, Sarah Mullally, afirmou no pedido de desculpas que a igreja ouviu relatos em primeira mão de algumas das pessoas afetadas, que, segundo ela, descreveram “a dor, a vergonha e a indignidade vivenciadas tanto naquela época quanto agora”.
— Hoje, dizemos a cada um de vocês: a vergonha que vocês foram obrigados a sentir foi errada. Vocês não têm nada do que se envergonhar – declarou a arcebispa. — Pelo contrário, estamos profundamente envergonhados por isso ter acontecido com pessoas sob os cuidados de comunidades cristãs.
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O pedido de desculpas veio após anos de luta de sobreviventes das instituições, administradas pela igreja e conhecidas como “casas para mães e bebês”, para onde mães solteiras eram frequentemente enviadas para dar à luz em segredo. As mulheres e meninas enviadas para esses lares enfrentavam estigma e estereótipos sobre seu caráter moral, carregando o fardo da vergonha de gravidezes não planejadas, enquanto os homens envolvidos geralmente eram isentos desse escrutínio.
Muitas mulheres descreveram terem sido forçadas ou pressionadas a entregar seus bebês para adoção em um sistema que explorava sua vergonha. A Igreja da Inglaterra, que também publicou os resultados de dois anos de pesquisa sobre as instituições, afirmou ter estado envolvida em potencialmente mais de 200 lares para mães e bebês na Inglaterra e no País de Gales entre 1949 e 1976. A instituição observou que nem todos funcionavam simultaneamente e o nível de supervisão central da igreja variava.
Durante esse período, estima-se que 185 mil bebês foram retirados de mães solteiras e colocados para adoção na Inglaterra e no País de Gales em meio a uma cultura de ignomínia e hostilidade em torno da gravidez fora do casamento, afirmou a Igreja em seu relatório.
Em sua declaração, a Arcebispa Mullally afirmou que as adoções forçadas ocorreram “em uma sociedade que muitas vezes valorizava o sigilo e a respeitabilidade em detrimento da compaixão e do cuidado”.
— A Igreja da Inglaterra fazia parte dessa sociedade e ajudou a perpetuar essas atitudes — afirmou ela. — Para muitas mães, crianças, pais e famílias afetadas por essas práticas, o impacto foi para a vida toda. Essas práticas pertencem ao passado e jamais devem se repetir.
Diana Defries, do Movimento por um Pedido de Desculpas em Adoção, um grupo de defesa que trabalha há anos pela responsabilização, falou ao programa BBC Breakfast na manhã de quinta-feira e disse que o pedido de desculpas já deveria ter acontecido há muito tempo. Ela disse que sua filha lhe foi tirada logo após o parto, em 1974, e que a fizeram sentir-se responsável pela adoção forçada. Mas, com o tempo, sua perspectiva mudou.
— Comecei a entender que não fui eu. Eu não fiz isso. Isso foi feito comigo, isso foi feito com a minha filha — disse ela, observando quantas outras pessoas passaram por “essa terrível separação”. — Esperamos há muito tempo por um reconhecimento público de que isso foi uma injustiça.
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Um relatório de 2022 de um painel parlamentar britânico, o Comitê Conjunto de Direitos Humanos, sobre as adoções forçadas em lares de acolhimento, concluiu que o Estado “tinha a responsabilidade final pela dor e sofrimento causados por instituições públicas e funcionários estatais que forçaram mães a adoções indesejadas”. O comitê também pediu que mais fosse feito para apoiar as famílias que convivem com as consequências dessas adoções para toda a vida.
O governo britânico já havia declarado que planeja apresentar um pedido de desculpas pelas adoções, visto que muitas das instituições da época contavam com supervisão e regulamentação oficiais. Bridget Phillipson, secretária de Educação, declarou a uma comissão parlamentar na quarta-feira que o pedido de desculpas seria feito “muito em breve”.
— Mas, aqui e agora, quero dizer a todos os afetados: vocês receberão o pedido de desculpas que merecem profundamente — salientou.
Os lares não eram exclusivos da Inglaterra e do País de Gales, nem da Igreja Anglicana. Eles foram inspirados nos Hospitais Madalena de meados do século XIX, criados por igrejas protestantes no Reino Unido, Irlanda, Austrália e Canadá. Os lares para mães e bebês continuaram a funcionar durante grande parte do século XX.
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Na Irlanda, houve um recente debate sobre o tratamento dado às mulheres solteiras enviadas para lares para mães e bebês, a maioria dos quais foi posteriormente administrada pela Igreja Católica Romana. As instituições eram marcadas por abusos e negligência, e as adoções forçadas também eram comuns.
A descoberta dos restos mortais de centenas de bebês e crianças enterrados em uma vala comum sem identificação em um lar administrado por freiras na cidade de Tuam, em Galway, motivou uma investigação do governo irlandês e da Igreja Católica em 2021. A Irlanda também criou um programa para fornecer auxílio financeiro às pessoas afetadas pelo período em que estiveram nesses lares.

