“Meu filho foi alvejado saindo de uma padaria. Estava feliz, tinha emprego, amava dançar quadrilha. Tiraram isso dele. Ele foi comprar um lanche e não voltou”, disse, emocionado, Fernando Guimarães, pai de Herus, de 23 anos, morto durante uma operação do Bope na comunidade do Santo Amaro, no Catete, na madrugada de sábado. Herus Guimarães Mendes foi atingido por dois tiros durante uma incursão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) em meio a uma tradicional festa junina na favela.
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O jovem chegou a ser levado ao Hospital Glória D’Or, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo o pai, um dos disparos atingiu a veia femoral, e embora os médicos tenham conseguido reanimá-lo inicialmente, ele morreu pouco depois.
Durante participação no programa da apresentadora Patrícia Poeta, Fernando relatou que Herus não era vigia, como chegou a ser dito, mas estava na região com dezenas de parentes, abrigados na casa da avó, próxima ao local da festa.
Ainda de acordo com o relato dos pais, dois amigos de Herus conseguiram furar o bloqueio policial e levar o corpo do jovem até o hospital. Testemunhas afirmaram que viram policiais arrastando o jovem pela escadaria. A perícia foi acionada e moradores procuraram diretamente o delegado da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) para relatar abusos dos agentes.
— Arrastaram o corpo do meu filho escada abaixo. Eu vi o tiro de fuzil que atravessou o corpo dele — lamentou a mãe de Herus, ao segurar a mão do pai do jovem que revelou: — Quando tentei dormir, só vinha o rosto do meu filho todo arranhado.
Mônica Guimarães, mãe do jovem, também pede responsabilização: — Eu não quero uma nota, senhor governador Cláudio Castro. A sua nota não me ajuda. A sua nota não faz a minha dor passar. A sua nota não vai trazer o Herus para casa. Eu só quero justiça. O policial só debochava. Eles só debochavam — contou a mãe do jovem em prantos.
— Nós estávamos na casa da minha sogra, que é de quarto e sala, com mais de 40 pessoas. Houve troca de tiros quando os policiais entraram. Era uma festa junina, as pessoas estavam com roupas brilhosas. O Herus saiu da padaria e foi alvejado. Ele estava de casaco preto, comprando um lanche — contou Fernando.
Mônica relata o desespero ao tentar falar com o filho e não conseguir: — Eu subi na janela e chamava por ele. As mensagens chegavam no celular, mas ele não respondia. O Herus nunca deixou de me atender. Naquela hora, eu já sabia que tinha acontecido alguma coisa.
Segundo o pai, Herus participava de uma quadrilha junina desde a infância, tradição herdada do próprio Fernando, que relatou que o jovem deixou de dançar para se dedicar ao filho.
— A gente vai criar o Tel (filho de Herus) junto com a mãe dele. Como vai ser agora, quando meu neto chegar em casa e não encontrar o pai?, disse o pai do jovem em lágrimas.
O corpo de Herus foi sepultado neste domingo, sob forte comoção, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Ele foi velado com uma bandeira do Flamengo, seu time do coração. Amigos de infância lembraram que ele era um rapaz alegre, empolgado com o novo emprego na mesma empresa onde o pai trabalha, atuando com redes sociais.
— Ele gostava de agradecer por tudo. Estava feliz —disse Fernando.
Diante da repercussão, o governador Cláudio Castro determinou neste domingo (9) o afastamento imediato dos responsáveis pela ação do Bope. Foram afastados o coronel André Luiz de Souza Batista, comandante do Comando de Operações Especiais (COE), o coronel Aristheu Lopes, comandante do Bope, e 12 policiais que participaram da operação.
— Agora pela manhã, em uma reunião com os secretários de Estado de Segurança e da Polícia Militar, determinei o afastamento imediato dos responsáveis por autorizar a operação na madrugada de ontem, na comunidade do Santo Amaro, em meio a uma festa popular — disse o governador, em nota oficial.
A ação gerou pânico entre os moradores. Segundo testemunhas, os policiais chegaram atirando, mesmo com a visibilidade de que ocorria uma celebração junina na comunidade. Seis pessoas ficaram feridas, entre elas um adolescente de 16 anos, que permanece internado no Hospital Souza Aguiar.
A Polícia Civil investiga o caso. A Defensoria Pública do Rio também acompanha a apuração e cobrou transparência na condução das investigações.

