O dia começa com um cortejo de congado pelas ruas da cidade, segue para a apresentação de um coral de crianças (e criancinhas) tocando violinos (e violininhos) numa construção histórica e encerra num concerto com flauta, piano, contrabaixo e percussão num palco montado ao lado de um museu. Ou inicia com um recital dentro de uma igreja histórica, entremeado por leituras de textos, passa por um bate-papo entre um pianista renomado e um jornalista/crítico num café literário e termina com a leitura cênica da peça de um dramaturgo haitiano sobre uma heroína esquecida pela História, num jardim com projeções numa parede centenária. Com um mosaico de atividades culturais distintas e que se complementam, sem paralelo com outros eventos no Brasil, assim é o dia a dia do Festival Artes Vertentes, realizado anualmente em Tiradentes, cidade-pérola de Minas Gerais, desde 2012.
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A edição atual está em curso, aberta na quinta-feira passada e com programação que vai até o próximo domingo. Hoje é dia de encontro da escritora Nina Rizzi, do livro “A melhor mãe do mundo” (Companhia das Letrinhas), com pequenos leitores; de conversa da escritora cameronesa Léonora Miano com a autora brasileira Cidinha da Silva sobre “lacunas históricas e afetivas deixadas pelo tráfico atlântico de pessoas escravizadas”; de performance do poeta André Capilé tendo como pano de fundo a música negra popular do Brasil, incluindo cantos e preces litúrgicas do candomblé Congo-Angola; do concerto “Ecos de terreiros e salões” na Igreja São João Evangelista, com violino, viola e piano; e da exibição do filme “Yaaba” no Museu Casa Padre Toledo.
E aqui cabe uma explicação. Todos os anos, o festival abraça um tema e mergulha fundo nele, com toda a programação (nas artes visuais, no cinema, na literatura, nas artes cênicas e na música) se desdobrando sobre assuntos correlatos. Desta vez, o norte é “Entre as margens do Atlântico”, com reflexões sobre temas como diáspora africana, decolonização, pontes que unem Brasil, África e Europa, ressignificação cultural, limites entre erudito e popular, entre outros tantos.
Para levar adiante tamanha programação, a produção convoca nomes que vêm do país inteiro e do mundo todo. Desta vez, o sotaque francês domina muitas das atividades, não somente pelo tema escolhido, mas porque o festival integra oficialmente a Temporada Cultural França-Brasil 2025. Desde que foi criado, o Artes Vertentes já recebeu 550 artistas, de 40 países diferentes. Durante 11 dias de festival, Tiradentes vira uma Torre de Babel, em que a arte do encontro ajuda a impulsionar e a dar liga à festa.
Os encontros estão voltados para o público, na forma de apresentações conjuntas, seja na música, seja numa exposição coletiva ou num painel de conversas. E também nos bastidores, quando produção e convidados se reúnem numa casa transformada em QG do evento, onde são servidas as refeições, logo transformadas em animadas rodas de conversa.
Como a programação é extensa, chegadas e partidas são frequentes. No domingo passado, enquanto a cantora Juçara Marçal, atração de espetáculo na noite anterior, deixava Paraty, quem desembarcava era Fabiana Cozza. E assim surgiam novos encontros.
Encontro, aliás, está na gênese do festival, criado pelo casal Luiz Gustavo Carvalho e Maria Vragova. Ele, pianista, mineiro de Belo Horizonte e cidadão do mundo, estava em Moscou quando a conheceu. Ela, russa, produtora, tradutora, curadora e formada em língua portuguesa pela Universidade Estatal de São Petersburgo, acabou deixando seu país e se radicando no Brasil. Juntos, eles, que moram hoje com a filha na capital mineira e viveram por anos no Rio (ela adora Copacabana e nadar no mar), criaram a Ars et Vita, editora e produtora de eventos.
— Sem modéstia, não vejo hoje um festival de cultura de alto nível como este em outras partes do país. E buscamos torná-lo mais conhecido, além dos limites da cidade de Tiradentes e de Minas como um todo — diz Maria.
Gustavo, o curador do festival, diz que os olhos agora já estão voltados para 2027. Isso porque o tema de 2026 está definido e em curso:
— A 15ª edição, entre 17 e 27 de setembro do ano que vem, escolheu “silêncios”, assim, no plural, como mote curatorial da programação, em suas diversas linguagens. Isso vai atravessar as relações entre o homem e a natureza, e vamos falar também sobre minorias étnicas silenciadas, população carcerária, silêncio como fenômeno físico, pensando em, por exemplo, a última fase da vida de Beethoven — conta o pianista, presença constante em muitos dos concertos do festival.
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Nos demais meses do ano, o festival se desdobra em uma ação social, que oferece para crianças, adolescentes e adultos de Tiradentes cursos de música, de artes visuais, de cerâmica e de fotografia. Alguns desses participantes do projeto estavam no palco no dia da abertura oficial, como as crianças e seus violinos, num show à parte de fofura.
Não raro, atrações do Artes Vertentes ganham vida independente, como uma exposição que cresce e aparece, ressurgindo depois numa instituição pelo país. Ou no lançamento de um livro, que logo na sequência chega às livrarias, como no caso de “Panapaná”, nova obra do poeta-tradutor-professor Guilherme Gontijo Flores, cuja produção é editada pela Ars et Vita e é figurinha carimbada no festival. Desta vez, a expectativa é que a leitura cênica de “Ópera poeira” (texto do poeta haitiano Jean D’Amérique, que veio para o evento), encenada especialmente para o festival, ganhe uma montagem para os palcos. Em Tiradentes, ela foi dirigida por Jé Oliveira e encenada por Juçara Marçal (a cantora deu voz à heroína Sanité Belair), Daniel Farias, Raphael Garcia, Mawusi Tulani e Tenca Silva.
E era só o começo. Os encontros continuam intensos por lá.
Marcelo Balbio viajou a convite do Festival Artes Vertentes