Há pouco mais de uma semana, milhares de pessoas atravessaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta. As imagens de migrantes nadando até a pequena cidade espanhola no Norte da África chocaram o mundo. A narrativa imediata apontou para mais uma crise migratória. Mas essa explicação é insuficiente. Ceuta foi, principalmente, uma crise geopolítica.
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As fronteiras não são apenas linhas traçadas nos mapas. São espaços onde as relações de poder tornam-se visíveis. Ceuta não é exceção. Embora tenha uma superfície semelhante à da Zona Sul carioca, ocupa uma posição privilegiada no Estreito de Gibraltar, um dos principais choke points do mundo. Todos os anos, cerca de 100 mil embarcações atravessam a passagem, por onde circulam aproximadamente 10% do comércio marítimo mundial. Petróleo, mercadorias, cabos submarinos, navios militares e cadeias logísticas convergem nos 14 km que separam a Europa da África, o Atlântico do Mediterrâneo e, em muitos sentidos, o Norte do Sul Global.
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Durante décadas, acreditou-se que a globalização, ao acelerar o tempo, relativizaria a importância do espaço. Agora parecemos caminhar na direção oposta. Quanto mais intensos se tornam os fluxos globais, mais estratégicos se tornam os lugares por onde esses fluxos necessariamente passam.
É por isso que Gibraltar, Suez, Ormuz, Bab el-Mandeb, Malaca, Panamá e, cada vez mais, o Ártico e o Estreito de Magalhães estão voltando ao centro da política internacional. No século XXI, as grandes potências não competem apenas por territórios. Competem pelo controle da circulação: de mercadorias, de energia, de dados, de pessoas e de capitais. Mais do que controlar grandes espaços, trata-se de controlar os pontos através dos quais o mundo se conecta.
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É nesse contexto que o Estreito de Gibraltar — e, consequentemente, Ceuta — recupera uma importância estratégica que vai muito além da relação entre a Espanha e o Marrocos. O interesse renovado das grandes potências pelos grandes corredores marítimos e terrestres faz parte de uma tendência e de um contexto.
Mas a geopolítica não se resume aos fluxos. Nas últimas décadas, o Marrocos passou a conduzir uma política externa convencional mais assertiva: aprofundou sua parceria com os EUA e Israel, ampliou sua presença na África Ocidental e transformou a migração em um instrumento assimétrico de pressão.
Não por acaso, muitos compararam os recentes acontecimentos à Marcha Verde de 1975, quando centenas de milhares de marroquinos atravessaram a fronteira do então Saara Espanhol com o objetivo de anexá-lo. Agora os contextos históricos são diferentes, mas o princípio estratégico é semelhante: instrumentalizar populações civis para produzir efeitos territoriais sem recorrer ao uso da força.
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Seria exagerado atribuir a crise de Ceuta, exclusivamente, às recentes divergências entre Madri e Washington. Mas também seria ingenuidade ignorá-las. Enquanto a Espanha acumulou, nos últimos anos, diferenças importantes com os EUA — em questões de segurança e de defesa — o Marrocos consolidou-se como um dos principais parceiros estratégicos dos EUA no Norte da África e continua contando com o respaldo do governo de Donald Trump à sua posição sobre o Saara Ocidental.
As fronteiras voltam a ocupar um lugar central na competição entre Estados e na organização da economia global; os pontos de estrangulamento recuperam seu valor estratégico, e a mobilidade humana reaparece como um instrumento de pressão na política internacional.
Ceuta, portanto, não é apenas uma crise migratória. É um lembrete distante de que, quando a História acelera, a geopolítica reemerge.
*Juan Agulló é professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana e membro do Comitê Diretivo do Conselho Latino-americano e Caribenho de Ciências Sociais
