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outubro 16, 2026
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Artigo: do salto alto nas campanhas ao fim da escala 6×1, como eleitores indecisos veem movimentos do 2º turno

Por · outubro 16, 2026
Empatados, Lula e Flávio apostam em atos no Sudeste, maior colégio eleitoral, nos últimos dias de campanha


“Estavam em um pedestal achando que o jogo estava ganho e não estava, assim como não está ganho agora para o outro lado”, diz uma eleitora indecisa na pesquisa qualitativa do Plaza Pública pós-primeiro turno. A frase exemplifica um trajeto para o segundo turno com gingas e fintas. O jogo, embora nos acréscimos do segundo tempo, parece ainda indefinido: quem sobe ao pedestal perde. As manifestações do fim de semana e o buzz gerado em redes sociais por parte da esquerda ascenderam um ar mobilizador, mesmo com eleitores indecisos com ressaca emocional.
“O cara nem ganhou o segundo turno e já está falando como presidente, se achando”, diz outra entrevistada. A corrida do campo progressista por eleitores indecisos e que se abstiveram, e a busca de consolidar os votos da direita pelo bolsonarismo tem seus percalços.
A revolução silenciosa do bolsonarismo de última hora no primeiro turno foi uma puja entre o dito e o não falado. O dito: eleitores querendo ventos de mudança, cansados do PT e do “sistema STF”. O não falado: mistura do empurrão final nas igrejas evangélicas somado a um antipetismo que estava camuflado, escondido sobre um verniz de calmaria e desencanto. Esses pilares ainda estão firmes no campo conservador.
A tensão que estrutura o segundo turno é conhecida: desejos de uma mudança por muitos enxergada como incerta no Flávio Bolsonaro versus um presente desafiador para Lula, de um governo com baixa aprovação. O ponto é encontrar elementos que sinalizem um rumo novo. Há uma ilusão em eleitores indecisos de que “se o Flávio se não fizer as mudanças que imaginamos, tiramos ele de novo”, certo empoderamento ingênuo sobre as forças que acredita ter o povo para corrigir eventuais descalabros de um novo governo bolsonarista.
Adeus, Lenin: as dinâmicas pulsantes das classes médias. Com o fim da escala 6×1 como pano de fundo, a medida tem apelo bastante significativo, resulta uma clara melhoria para as classes menos favorecidas. A proposta do Flávio Bolsonaro de discutir com patrão a escala desejada tinha bastante rejeição: “isso aí é historinha, conversa para boi dormir, já pensou pobre combinar com o patrão o salário, isso não vai dar certo”.
Eleitores de Flávio de classe baixa acreditam que foi um acerto ele ter recuado e apoiado agora a medida, ainda tendo sido contra em toda a campanha pré-eleitoral: “ele deu mole no início quando dizia que o trabalhador iria conversar com patrão, isso não existe aqui, podemos dizer futuramente, acho legal que ele abriu o olho e mudou”.
O fim da escala 6×1 tem potencial relevante de alavancar forças para a campanha de Lula, plantar dúvidas sobre as idas e vindas de Flávio. São três camadas de análise: a proposta de negociar com patrão, as idas e vindas sobre o apoio e rejeição à medida, as dúvidas que pairam sobre “ganhar por hora”. “Agora ele diz que é importante o trabalhador descansar, antes não era?”, questionou um entrevistado. “Fiquei na dúvida se ele foi eleito se iria receber por hora: acho que vou ter que trabalhar muito mais então”, disse outro.
Embora Flávio saia aranhado da discussão, sua ideia de flexibilizar no futuro a escala embaralha um tanto o assunto e ganha adeptos em uma classe média alta que deseja um mundo do trabalho menos regrado. No caso, quem sente que pela posição que ocupa na mesa das negociações poderiam usufruir essas vantagens. Essa percepção muda por idade e classe. Jovens de classe alta buscam flexibilidade. Adultos de classe média, algo mais regrado. “Países que os brasileiros vão buscar uma vida melhor não são assegurados”.
O paradoxo do “Flair”. Jair Bolsonaro é motor e obstáculo para Flávio. Desde o começo da campanha as pesquisas qualitativas do Plaza Pública mostravam que senador é visto como uma cópia do pai, um candidato com poucos pergaminhos para o cargo além do “naming rights”. A novidade é a chegada no segundo turno com uma imagem do candidato da extrema direita como uma mistura, um “centauro tropical”, uma mescla entre o velho-novo.
Para muitos, é pura continuidade do Jair: é o pai quem manda, mesma ideologia, sem experiência de gestão, ambos imprevisíveis, etc. Outros tantos enxergam algo novo, que deslocam o filho da imagem do pai: ser outra pessoa, jovem, mais moderado, articulador. De como se resolver essa tensão do “velho-novo”, dependerá possivelmente quanto consiga sustentar e aumentar os votos do primeiro turno.
Um signo claro das pesquisas qualitativas do Plaza Pública desta semana com moradores das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro é que o fervilhar nas redes puxa uma conversa que até agora não estava sendo dada. De artistas tomando posição a humoristas criando infinidades de memes, parece surgir uma nova retórica no segundo turno: os memes e vídeos como disparadores de novos assuntos. Qual país queremos para nossos filhos? Qual futuro nos oferece cada candidato? Como elencamos falas e promessas com a realidade tangível do dia a dia? Se assim for, todos sairemos ganhando.
* Eduardo Sincofsky é psicólogo, faz pesquisa qualitativa há mais de 30 anos. É diretor do Projeto Plaza Publica, barômetro qualitativo que acompanha a opinião pública no Brasil, e autor do livro “A polarização no Diva”
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Artigo: do salto alto nas campanhas ao fim da escala 6×1, como eleitores indecisos veem movimentos do 2º turno