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outubro 16, 2026
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Vídeo mostra conversa entre capitão da PM e traficantes sobre suposto acordo entre Canella e facção

Por · outubro 16, 2026
Mesmo preso, Márcio Canella poderá ser diplomado como deputado pela Alerj; entenda


Um vídeo cuja divulgação é atribuída a integrantes do Comando Vermelho (CV) está sendo investigado por promotores do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). A gravação registra uma suposta videochamada entre o capitão da PM Alessander Ribeiro Estrella Rosa, o chefe do CV Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, do Complexo da Penha, e seu braço direito, José Severino da Silva Júnior, o Soró, apontado como liderança em favelas de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Na conversa, os três indicam a existência de um pacto no qual o nome do deputado estadual e ex-prefeito da cidade, Márcio Canella (União), é mencionado como se estivesse ciente do acordo.
PF afirma que Márcio Canella é ‘patrono político’ e ‘articulador’ de organização criminosa ligada ao Comando Vermelho
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Na última quinta-feira, Canella, segundo deputado estadual mais votado este ano, com 197 mil votos, foi preso pela Polícia Federal em uma nova fase da Operação Unha e Carne. A PF classificou o parlamentar como “patrono político” e “articulador de alto escalão” de uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho.
A conversa, que tem como pano de fundo o contexto político estadual, já resultou na prisão do capitão, no início deste ano. O Gaeco obteve na 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa o mandado de prisão contra o oficial, no âmbito de investigação que apura suspeitas de colaboração indevida entre agentes públicos e o crime organizado. O caso, porém, não se encerra com a prisão do militar.
No diálogo, de pouco mais de quatro minutos e obtido pelo GLOBO, cheios de gírias e palavras de baixo calão, os traficantes reclamam com o capitão Alessander das ações da polícia no Morro da Palmeira, no Centro de Belford Roxo. A conversa sugere que o oficial do 39º BPM (Belford Roxo) teria firmado um acordo com a cúpula do CV, com o suposto aval do prefeito, para a retirada de barricadas e de traficantes armados da Palmeira, a fim de que a prefeitura pudesse produzir vídeos e divulgar que havia eliminado o tráfico na área.
Videochamada revela conversa entre capitão da PM e chefes do CV sobre retirada barricadas
Imagens publicadas no site oficial da prefeitura, como a postagem de 19 de setembro do ano passado, mostram Canella no Morro da Palmeira — favela considerada pequena — segurando um celular como se estivesse gravando um vídeo. O texto informa que o prefeito acompanhava a pintura, na cor azul, que cobriu pichações do tráfico e referências à facção que anteriormente dominava a favela, o Terceiro Comando Puro (TCP). Há também menção à retirada de quebra-molas instalados por criminosos. Em uma das publicações, Canella afirma: “Não aceitaremos homenagens a bandidos em Belford Roxo. Onde encontrarmos, a Prefeitura removerá”.
No entanto, com base na conversa entre Alessander e Soró, as imagens e notícias divulgadas sobre a favela não condizem integralmente com o que é narrado no diálogo. Oficial da Polícia Militar e traficante discutem uma suposta quebra no pacto que visaria apresentar o município como livre do tráfico. Enquanto Soró reclama que a polícia voltou a subir o Morro da Palmeira, o capitão argumenta que não era para o tráfico estar na localidade.
Segundo o militar, as comunidades do Castelar e Rola Bosta, dominadas pelo CV, estariam à disposição do grupo. Alessander acrescenta que, por meio de imagens de drone, teria constatado que a venda de drogas nessas duas favelas estaria tão intensa que mais parecia uma “cracolândia”. Em outro momento, o capitão tenta explicar a Soró que a liberação da Palmeira ao tráfico seria provisória.
Preso pela segunda vez. Alvo da 8ª fase da Operação Unha e Carne, Márcio Canella é levado à sede da Polícia Federal
Fabiano Rocha
Em um dos trechos da gravação, Soró reclama com o capitão — preso na última sexta-feira, dia 6, pelo Gaeco do MPRJ: “Onde que a Palmeira entra nesse bagulho, mano? (…) É bagulho no Canella. Tá vindo a governador. Faz essa parada. Tá ligado, mano?”.
O oficial responde que teria conseguido negociar com o “chefe”, dando a entender que se referia ao prefeito: “Mas não veio um papo, mano! Te falei que consegui negociar lá com o cara. Falei: ‘Olha só, chefe. Os caras vão deixar a Palmeira, o senhor fazer vídeo, fazer as obras do senhor. Quando acabar a obra do senhor, beleza, os caras vão voltar no sapatinho’”.
Mais adiante, Soró afirma ter cumprido o acordo: “Vocês pediram pra nós tirar o crack, nós tiramos. Pediram pra recuar barricada. Nós tiramos barricada. Tiramos fuzil. Tiramos tudo, mano! (…) Desde ontem, vocês lá dentro do morro… Pancada em nós. Qual é, mano?”.
O capitão tenta contemporizar: “Não vou pedir mais nada pra vocês. Confia no que eu tô te falando”.
Doca surge ao fim da videochamada. Com voz impositiva, ameaça o capitão, que se apresenta como interlocutor tanto no batalhão quanto junto à prefeitura: “Capitão, eu vou botar o bicho pra pegar. Eu não dependo do Castelar. Eu não dependo do Rola (Bosta). Eu não dependo de nada. Eu tenho várias bocas”.
Pacto do crime
A gravação acabou por lançar luz não apenas sobre a possível existência de um pacto entre um policial e integrantes da maior facção do Rio com repercussão política em Belford Roxo, mas também sobre contratos estratégicos na área de vigilância. Documentos oficiais, incluindo boletins reservados da Polícia Militar, mostram que o capitão Alessander foi nomeado integrante da comissão de fiscalização de um contrato de câmeras firmado com o Consórcio RJ Vigilância Inteligente.
A gravação acabou por lançar luz não apenas sobre a possível existência de um pacto entre um policial e integrantes da maior facção do Rio com repercussão política em Belford Roxo, mas também sobre contratos estratégicos na área de vigilância. Documentos oficiais, incluindo boletins reservados da Polícia Militar, mostram que o capitão Alessander foi nomeado integrante da comissão de fiscalização de um contrato de câmeras firmado com o Consórcio RJ Vigilância Inteligente.
O capitão Alessander Ribeiro Estrella Rosa
Reprodução
O oficial foi designado para a função após ter sido afastado da atividade operacional no 39º BPM, onde atuava nas ruas, por estar sob investigação por suposta participação no chamado “Novo Escritório do Crime”, grupo apontado pelo Gaeco como sucessor da organização criminosa de mesmo nome. Denunciado em 2025, Alessander só passou dois meses preso, beneficiado por um habeas corpus concedido pela 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, em dezembro.
Até ser preso pela segunda vez, o capitão era responsável por acompanhar a execução do contrato do sistema de monitoramento, considerado estratégico para o município.
A relevância desse tipo de serviço se amplia no momento em que o governo estadual discute a expansão da tecnologia na segurança pública. No fim do mês passado, o governador Cláudio Castro anunciou a abertura de um pregão para a compra de até R$ 2 bilhões em câmeras de vigilância, um dos maiores contratos do gênero já lançados no estado. Segundo o governador, Belford Roxo e o bairro de Copacabana, na capital, estariam entre os primeiros locais a receber o sistema, apesar de suas discrepantes características. Castro deverá deixar o governo em 3 de abril para concorrer ao Senado.
A divulgação do vídeo ocorre em meio a uma recente escalada de operações policiais em Belford Roxo, que resultaram em mortes de moradores e suspeitos. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que as ações teriam como um dos objetivos localizar Soró, apontado como responsável pela gravação e circulação das imagens.
O vídeo, segundo as mesmas fontes, teria sido produzido pouco antes da megaoperação no Complexo da Penha e do Alemão, onde 122 pessoas morreram, inclusive cinco policiais. Após a ação, Canella divulgou em suas redes sociais que Doca era um “câncer” para o Rio e afirmou que a paz viria quando o chefe do CV fosse capturado e enviado para um presídio federal. Com o vazamento do vídeo, o prefeito passou a anunciar que disputaria uma vaga como senador, o mesmo cargo de Castro.
Além do episódio envolvendo o vídeo, o entorno político do prefeito também tem sido alvo de questionamentos. Canella montou um secretariado que inclui nomes que já responderam a processos criminais, alguns por suposto envolvimento com grupos paramilitares. Entre eles está o capitão da PM Luiz Leonardo Brito da Silva, que foi investigado por integrar um grupo de extermínio na Baixada Fluminense.
Ele foi denunciado pelo MPRJ pelo homicídio de Marlon Santos de Souza, em 2014, em São João de Meriti. Posteriormente, a família da vítima, que havia reconhecido o agente, afirmou ter cometido um engano. O policial não foi submetido a júri popular.
Em 2023, Luiz Leonardo voltou a ser citado em investigação relacionada a outro homicídio. À época, atuava no serviço reservado (P2) do 39º BPM e, então tenente, é acusado de ter atingido Milene Izabely Christovam, de 14 anos, ao disparar contra um suspeito no bairro Nova Aurora, em Belford Roxo. Ambos morreram. Leonardo foi secretário de Ordem Pública na gestão de Canella.
Antes de assumir o cargo, Canella já havia sido mencionado em reportagens sobre encontros de campanha com figuras ligadas à milícia local. Em junho de 2024, imagens obtidas pelo GLOBO mostraram o então candidato cumprimentando Jefferson Damázio Luquetti, preso em 2019 sob acusação de liderar uma milícia no bairro do Babi, em Belford Roxo. O encontro ocorreu na quadra de uma escola de samba situada na área de atuação do grupo, durante atividade de campanha. À época, Canella afirmou desconhecer o histórico criminal de Luquetti.
Conexões perigosas
O vídeo que colocou um capitão da PM atrás das grades não é apenas o registro de uma conversa entre um policial e traficantes. Ele expõe a fragilidade das fronteiras entre o poder público e territórios dominados por facções em um município estratégico da Baixada Fluminense.
Na capital, a dinâmica não é diferente. No ano passado, investigações da Polícia Federal e do Ministério Público trouxeram à tona casos envolvendo três deputados estaduais suspeitos de ligação com o crime organizado. Agentes da PF chegaram a prender dois deles: Tiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias (sem partido), e o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar (União). Este último está atualmente em liberdade, mas faz uso de tornozeleira eletrônica e pediu licenciamento do cargo. O terceiro, Roosevelt Barreto Barcelos, conhecido como Val Ceasa (PRD), é investigado pelo Ministério Público do Rio.
A prisão de TH Joias foi um dos desdobramentos da Operação Zargun, deflagrada pela Polícia Federal em 3 de setembro do ano passado. As investigações apontaram que o deputado atuaria como elo político entre facções criminosas e o Poder Legislativo. Um vazamento de informações, contudo, frustrou o cumprimento de mandados judiciais, permitindo a fuga de alvos e a destruição de provas.
Durante o inquérito, a PF concluiu que a infiltração de facções criminosas — especialmente do Comando Vermelho — seria mais profunda no Poder Legislativo do que se imaginava, alcançando inclusive o Judiciário. Segundo a corporação, o então presidente da Alerj e o desembargador responsável por decretar a prisão dos acusados estavam juntos em uma churrascaria quando Bacellar, por telefone, teria orientado TH Joias a destruir provas, inclusive o próprio celular utilizado na comunicação.
Na decisão que determinou a prisão do desembargador, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, relator do caso, afirmou haver indícios de que o magistrado integrou um esquema de obstrução de investigações e vazamento de informações sigilosas em benefício do Comando Vermelho. Em relação a Bacellar, Moraes já havia destacado que organizações criminosas promoveram uma “infiltração política” no Rio de Janeiro, nas esferas municipal, estadual e federal. A expectativa agora recai sobre o conteúdo extraído dos seis celulares apreendidos com Bacellar e com Judice Neto — três de cada investigado.
Antes dos episódios envolvendo TH Joias e Bacellar, porém, Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins (União) teriam, segundo investigações do MPRJ, atuado para impedir que o 16º BPM (Olaria) demolisse o chamado “resort” de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como chefe do TCP e criador do Complexo de Israel. O episódio ocorreu em dezembro de 2023. Para atender a um dos traficantes mais procurados do país — que consta na lista de difusão vermelha da Interpol — os dois políticos, de acordo com fontes da investigação, teriam ido ao batalhão alegar que desenvolviam um projeto social na área de lazer do criminoso, localizada na favela de Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio. O espaço só foi destruído pela Polícia Civil em março do ano passado.

Vídeo mostra conversa entre capitão da PM e traficantes sobre suposto acordo entre Canella e facção