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setembro 29, 2026
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Artigo: proibição das bets, apoio popular e impacto familiar

Por · setembro 29, 2026
Decisão de Lula de vetar bets amplia disputa por eleitor endividado e rivais atacam medida 'eleitoreira'


Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira aponta que 62% dos brasileiros apoiam a proibição das bets (cassinos virtuais e apostas de quota fixa). O levantamento, realizado entre 24 e 27 de setembro com 2.004 eleitores e margem de erro de dois pontos percentuais, revela que 40% já conheciam a medida e a aprovavam, enquanto outros 22% não sabiam dela, mas passaram a apoiá-la após serem informados.
Do lado contrário, 21% já sabiam e desaprovavam, e 11% não conheciam e consideraram a ideia ruim. O apoio é ligeiramente maior entre mulheres (64%) do que entre homens (61%).
Acusada pela oposição de medida eleitoreira, a decisão do governo Lula de eliminar os cassinos virtuais tem, no entanto, um alcance que vai além do cálculo político imediato. Ainda que a medida tenha sido debatida nas mídias sociais com menções predominantemente positivas, não é possível afirmar, com dados, que ela já tenha se convertido em votos para o incumbente.
Podemos, contudo, levantar a hipótese, ainda sem evidências quantitativas, de que o governo acertou eleitoralmente. Para além de planilhas, custos e complexas discussões sobre impacto orçamentário, há algo mais profundo em jogo: o impacto familiar.
Ao associar as bets às famílias, Lula inseriu na agenda da campanha não apenas números frios. Ele vinculou o tema a um elemento central da cultura brasileira: a família e, com ela, a particular relação entre o público e o privado que marca o país.
No Brasil, as famílias funcionam como “vacas sagradas”. Em uma sociedade historicamente marcada pela desconfiança nas instituições e pela precariedade do Estado, o espaço privado da parentela costuma absorver funções que, em outras culturas, caberiam ao público.
Dívidas, desemprego, doença, crise. A solução esperada quase sempre passa primeiro pela solidariedade familiar: o empréstimo do tio, a casa da avó, o dinheiro juntado entre irmãos e, só depois, se sobrar, pelas instituições formais.
Essa lógica confunde deliberadamente as fronteiras. O privado não é apenas o íntimo; é também o lugar onde se resolve o que o público não consegue ou não quer resolver. O público, por sua vez, é frequentemente visto como distante, burocrático ou pouco confiável. O resultado é uma cultura em que a família não é apenas núcleo afetivo, mas verdadeira rede de proteção social informal.
As bets invadem exatamente esse território. Segundo especialistas, além de viciar, elas destroem famílias: roubam o dinheiro da comida das crianças, geram dívidas que se espalham pela parentela e interferem no cotidiano doméstico. O problema deixa de ser apenas individual ou econômico. Torna-se uma agressão à própria estrutura de solidariedade que sustenta grande parte da vida social brasileira.
Ao colocar essa dimensão no centro do debate, a medida parece ter reforçado a disposição de voto em Lula. Ela não fala apenas de regulação ou de orçamento. Fala da proteção de um espaço que, na cultura nacional, é sagrado: o da família como última trincheira entre o indivíduo e a precariedade.
Se a medida será suficiente para deslocar indecisos e desgastar a campanha de Flávio Bolsonaro ainda é uma pergunta em aberto. Mas, diante do apoio popular registrado pela Quaest e da força simbólica do tema familiar, a aposta mais razoável é que o governo tenha acertado o alvo.
* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e professora da UFMG
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