Nos muros onde, anos atrás, integrantes de gangues de El Salvador marcavam seus territórios, artistas urbanos agora usam latas de tinta spray para criar grandes murais em um festival itinerante que enche de cor as ruas do país centro-americano.
As latas de tinta são consumidas aos montes para desenhar figuras de onças, rostos, flores, aves e outros elementos locais, desta vez no pitoresco povoado de Concepción de Ataco, em Ahuachapán, situado entre montanhas produtoras de café, a cerca de 65 quilômetros a oeste de San Salvador.
Antes, “era assustador” sair para pintar murais por causa do “assédio” das gangues, disse à AFP Isaac Sosa, de 31 anos, fundador e organizador do festival Pigmen Trip, realizado há oito anos em diferentes lugares de El Salvador.
Muros coloridos em El Salvador
Marvin Recinos / AFP
As gangues perderam poder no pequeno país após a “guerra” iniciada em 2022 pelo presidente Nayib Bukele, marcada por denúncias de abusos que, segundo organizações não governamentais, poderiam constituir crimes contra a humanidade.
“Com essa mudança, esse renascimento que estamos vivendo como país (…), o ambiente agora é outro, mais tranquilo, mais voltado para o desfrute e já com uma maior liberdade de expressão”, conta Sosa, ao comparar o período em que os integrantes das gangues controlavam os bairros.
“Anos depois, ganhamos os muros das gangues”, diz emocionado, entre lágrimas de “alegria”, o muralista, que considera a arte uma “ferramenta mágica” de “transformação social”.
Muros coloridos em El Salvador
Marvin Recinos / AFP
‘Não era tão fácil pintar’
Mais de 200 murais foram criados desde o início do festival, que, além de artistas salvadorenhos, já recebeu representantes da Colômbia, México, Brasil, Peru e Argentina.
O artista Darwin Flores, de 36 anos, lembra que, antes de as gangues serem neutralizadas, eles não podiam se dar ao “luxo” de pintar em “zonas quentes” sem tomar todas as precauções.
“Era preciso saber exatamente onde você estaria, com quem faria o mural, porque não podíamos nos dar ao luxo de ser ignorantes”, contou Flores neste povoado de ruas de paralelepípedos e telhados de barro.
Muros coloridos em El Salvador
Marvin Recinos / AFP
Agora, ele afirma que pode entrar em qualquer bairro, como fez recentemente em La Campanera, que durante anos esteve submetido ao terror das gangues.
“Não era tão fácil pintar, enquanto agora tudo é muito diferente”, diz, por sua vez, Cristian Juárez, um jovem de 29 anos que trabalha com o auxílio de uma prótese depois de perder a perna direita em um acidente, há 11 anos.
Diante de seu mural, que retrata o rosto de uma menina com um cocar de penas, ele lamenta que muitos artistas tenham sido vítimas das gangues e agora estejam “desaparecidos”.
Ao seu lado, Cristian Lara, comerciante de 50 anos, agradeceu aos organizadores do festival por “abençoarem” sua casa com um mural e afirmou que há “novos ventos de mudança” em El Salvador.

