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'As Copas de Nelson Rodrigues': leia trechos das colunas do camisa 10 da crônica brasileira

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junho 7, 2026
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'As Copas de Nelson Rodrigues': leia trechos das colunas do camisa 10 da crônica brasileira


Nelson Rodrigues começou a escrever sobre futebol em “A vida como ela é”, sua coluna no jornal Última Hora dedicada ao drama humano, depois da traumática derrota do Brasil na Copa da Suíça em 1954 (nas quartas de final, a seleção perdeu de 4 x 2 para a Hungria, num jogo violentíssimo que ficou conhecido como “Batalha de Berna”). No ano seguinte, ele lançou, na Manchete Esportiva, a coluna “Meu personagem da semana”, que depois migrou para o Última Hora e, por fim, para o GLOBO.
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Com sua verve inigualável, o “anjo pornográfico” comentava jogos, exaltava o futebol-arte como expressão mais bem-acabada da nacionalidade e combatia ferozmente “o velho e sinistro derrotismo brasileiro” (outra manifestação do que ele chamou de “complexo de vira-lata”). O pesquisador Caco Coelho resgatou 150 desses textos em “As copas de Nelson Rodrigues”, obra em três volumes que reúne colunas esportivas escritas entre 1958 e 1970. Destas, 120 foram publicadas no GLOBO e agora saem em livro com as ilustrações originais de Marcelo Monteiro, funcionário mais antigo do jornal, que segue na prancheta, aos 91 anos.
Ilustração de Marcelo Monteiro para crônica de Nelson Rodrigues publicada em 4 de julho de 1970
Marcelo Monteiro
O lançamento de “As copas de Nelson Rodrigues” será dia 9, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Leia abaixo trechos das colunas do camisa 10 da crônica brasileira:
O novo brasileiro
“A derrota! Através de quase quinhentos anos, o brasileiro acordou derrotado e dormiu derrotado. Mesmo na vida pessoal, era um borra-botas que se torcia de frustrações como de cólicas. Vergava os ombros para a namorada, a esposa, a amante, numa lívida pusilanimidade. E, súbito, algo mudou. Justiça se lhe faça: — foi o esporte o profeta do novo Brasil e do novo brasileiro.” (“Maria Esther Bueno”, Última Hora, 6/7/1959)
Roedor de rapadura
“Amigos, o que o Brasil fez, na clara Suécia, foi pior que xingar a mãe. Papado o título, cada brasileiro lavou-se numa banheira de Cleópatra, em água de rosa, com pétalas boiando. Ninguém entendeu, lá fora, que um povo como o nosso, roedor de rapadura, fosse capaz de uma tal afirmação atlética. E, desde então, os títulos esportivos foram a nossa compensação de feios e de fracos.” (“O meu personagem do ano 1960: Eder Jofre”, Última Hora, 26/12/1960)
O gol pornográfico
“E, no fim de certo tempo, ocorreu um fenômeno óptico único: — só víamos Pelés em campo. Era o prodigioso craque multiplicado. Se o zagueiro santista apanhava a bola, todo o mundo gritava: — “Olha Pelé!” Ninguém mais existia. Atribuíamos tudo a Pelé. Mas o segundo gol, amigos, chegou a ser pornográfico! Pelé recebe a bola no meio do campo, no meio da rua. O que ele fez, em seguida, na sua deslumbrante penetração, parece piada. Passou por um, por dois, por três, passou por todo o mundo. E fez o gol. Amigos, foi uma obra-prima tão perfeita, irretocável, que o estádio veio abaixo.” (“Pelé”, Última Hora, 6/3/1961)
Vitória da burrice
“E oitenta milhões de sujeitos estão aí, pagando pela burrice alheia. Não apareceu ninguém para amarrar a Comissão num pé de mesa, dizendo-lhe: — “Bebe água numa cuia de queijo Palmira!” Amigos, na catástrofe de ontem comprovamos mais uma vez esta verdade inapelável e eterna: — na batalha entre o gênio e a burrice, ganha esta e o gênio fica rosnando de impotência e frustração. Venceu a burrice imortal da Comissão Técnica.” (“Derrota para Portugal”, O GLOBO, 20/7/1966)
Afrodisíaco
“Lenine, se visse a paixão flamenga, havia de anotar no seu caderninho: — ‘O Flamengo é o ópio do povo.’ Mas seria um equívoco. Ópio, não. Afrodisíaco, desses que fazem o sujeito subir pelas paredes e se pendurar no lustre, de cabeça para baixo.” (“Bangu”, O GLOBO, 19/12/1966)
Torcedor de ninguém
“Também no futebol, nada descreve e nada se compara ao amor infeliz. Que coisa doce e que coisa linda é insistir no clube que sofre cinco, seis, sete der- rotas consecutivas. A desgraça só favorece a verdadeira paixão. E o torcedor só da vitória não é torcedor de nada, não é torcedor de ninguém.” (“Marco Aurélio”, O GLOBO, 4/09/1967)
Onipotência
“Em 62, os Andes se prostraram diante do seu gênio. Pelé saiu no segundo jogo e não voltou mais. Garrincha ganhou sozinho o Bicam- peonato. E, súbito, aquele rapaz da Raiz da Serra compensou- nos de todas as nossas humi- lhações pessoais e coletivas. Vocês sabem que, do nosso lábio, sempre pendeu a baba elástica e bovina da humildade. Em 58, ou 62, o mais indigente dos brasileiros pôde tecer a sua fantasia de onipotência.” (“Mané”, O GLOBO, 2/12/1968)
Pelé
“Mil goals! Parece impossível que um só homem faça tanto! Ponham toda uma população a chutar em goal, inclusive as senhoras. E, talvez, não chegue ao milheiro. O que ninguém fez antes dele, o que ninguém fará depois dele, Pelé conseguiu no seu esforço solitário e formidável.” (“Pelé”, O GLOBO, 29/12/1969)
Vício
“O pessimismo, na maioria da crônica esportiva, mais que um sentimento é um hábito ou, mais do que isso, um vício. O subdesenvolvido se realiza na autoflagelação.” (“Execrável pessimismo”, O GLOBO, 12/1/1970)
Patriotas
“Amigos, glória eterna aos tricampeões mundiais. Graças a esse escrete, o brasileiro não tem mais vergonha de ser patriota. Somos noventa milhões de brasileiros, de esporas e penacho, como os Dragões de Pedro Américo.” (“Entendidos”, O GLOBO, 22/6/1970)
Serviço:
‘As Copas de Nelson Rodrigues’
Autor: Nelson Rodrigues. Organizador: Caco Coelho. Editora: Nova Fronteira. Páginas: 632. Preço: R$ 199.

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