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as famílias de circos tradicionais, que passaram a ser patrimônio cultural do Brasil

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março 14, 2026
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Artistas que se apresentam no Circo Teatro Saltimbanco, liderado pelo palhaço Pão de Ló — Foto: CIRCO TEATRO SALTIMBANCO/DIVULGAÇÃO

Ravi, de 3 anos, já domina o picadeiro. É no espaço que ele dá vida ao palhaço Ravisco, uma das atrações do circo Master Show Circus, de Brasília. O artista é membro de uma família circense, filho da artista Michelli Mocellin Portugal, de 44 anos, a Mika, especialista em malabarismos e equilibrismo que, depois de muito anos de espetáculos, hoje apresenta os shows da companhia e acumula a administração. Ravi é irmão de Maria Valentina, de 6 anos, outra artista da família que participa das sessões. O grupo integra a lista de Circos de Tradição Familiar, reconhecidos nesta semana pelo Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil e contidos no Livro de Registro das Formas de Expressão.

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O título de Patrimônio Cultural chega após 21 anos da abertura do processo. Hoje no país, segundo levantamento da Fundação Nacional de Artes (Funarte), existem cerca de 550 Circos de Tradição Familiar — até o período da pandemia eram aproximadamente 770 —, que seguem saberes trazidos pelas primeiras companhias estrangeiras que chegaram ao Brasil, em 1818. Mas, de acordo com o processo apresentado ao Iphan, bem antes, no ano 1727, já havia no Brasil registros de artistas que desempenhavam números de conotações circenses.

A família circense de Mika está na quinta geração. Ela conta que, assim como em um dos muitos contos infantis em que casais se formam com a mocinha fugindo com o circo após se apaixonar pelo malabarista, seus antepassados têm históricos muito parecidos. Neta de Antenor Almeida, montador de estruturas de circo de grandes companhias, Mika é filha de Wilson Almeida, detentor de conhecimentos sobre lonas de circo e números artísticos. Sua mãe, Loiri Mocellin, se apaixonou por Wilson em um dos espetáculos e decidiu pegar a estrada com o circo.

Artistas que se apresentam no Circo Teatro Saltimbanco, liderado pelo palhaço Pão de Ló — Foto: CIRCO TEATRO SALTIMBANCO/DIVULGAÇÃO

Para Mika, a aprovação do título de Patrimônio Cultural é mais um instrumento importante para a preservação da cultura circense familiar, ameaçada por grandes espetáculos e dificuldades que vão desde a falta de aprovação de alvarás para apresentações por parte dos municípios a preconceitos com a arte de picadeiro.

— É o reconhecimento do valor social do circo de lona. É um gesto de respeito às famílias circenses que, apesar das dificuldades, preservam um saber singular e profundamente enraizado nas realidades locais. São conhecimentos que passaram do bisavô para avô, do pai para os filhos — afirma a artista, que desempenha atividades culturais e sociais com o circo em Brasília e cidades vizinhas.

Mika, ao centro, com novos artistas — Foto: MASTER SHOW CIRCUS/DIVULGAÇÃO
Mika, ao centro, com novos artistas — Foto: MASTER SHOW CIRCUS/DIVULGAÇÃO

Com o nome artístico herdado do bisavô Leonardo Romeo Cericola, palhaço na década de 1930, Jonathan Cericola, quinta geração circense, atua no picadeiro como o palhaço Pão de Ló. Com nariz e maquiagem de palhaço, roupas em tons de rosa e grená e chapéu, ele conta que desde criança abraçou a arte circense e que se reconhece primeiro como Pão de Ló e só depois, como Jonathan. Aos 8 anos, na ausência do palhaço principal, assumiu a função nos espetáculos e colocou em prática o que aprendeu com o bisavô.

— Meus pais falaram: é isso que você quer? Será o primeiro a se arrumar e o último a deixar o picadeiro. Lembre-se que no fim dos espetáculos é com o palhaço que o público quer tirar fotos — lembra o artista, que antes de atuar como palhaço principal vendia chocolates durante a apresentação. — Na verdade, eu comia mais do que vendia, coisa de criança. Difícil era explicar onde tinham ido parar os chocolates — explica Jonathan, que usou o produto que vendia, Chokito, como seu primeiro nome na comédia, posteriormente substituído por Pão de Ló, em homenagem ao bisavô.

Morador de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, Pão de Ló faz espetáculos nos fins de semana em Itaguaí, na Baixada Fluminense, onde está montada a lona do Circo Teatro Saltimbanco, de sua família. Nos demais dias, o artista e seus companheiros seguem itinerantes por outras cidades do país e em outros picadeiros.

Ravisco se apresenta em um circo de Brasília — Foto: MASTER SHOW CIRCUS/DIVULGAÇÃO
Ravisco se apresenta em um circo de Brasília — Foto: MASTER SHOW CIRCUS/DIVULGAÇÃO

Para Cericola, o reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural Brasileiro vai reforçar a luta pela preservação das companhias e da cultura aprendida e difundida nos picadeiros. De acordo com ele, os artistas circenses têm travado uma longa briga contra o apagamento da memória e os riscos de imposições do mercado da arte ao circo.

— Chegam a querer impor termos usados no teatro e em outras artes que fogem ao vocabulário circense. Palhaço é palhaço, não é “clown”; trabalhamos em picadeiros, mas querem que chamem de palcos; a atuação do palhaço é na comicidade, não é palhaçaria — alerta Cericola, ao chamar a atenção para editais de contratação de Circos de Tradição Famíliar, em que grande parte dos inscritos não “vivem sob lonas” e não fazem parte de grupos familiares circenses:

— Esse reconhecimento é uma coisa pela qual meu bisavô lutava, minha mãe, que foi sindicalista, trapezista, lutou para caramba também. Na prática, é justamente esse campo protetor, que nossa memória não é só uma história contada. Nossa memória são nossas vidas,— acrescentou Cericola sobre o título aprovado pelo Iphan.

A família do Palhaço Pão de Ló veio da Itália para o Brasil em 1893, onde desembarcou no Porto de Santos. O destino, em seguida, foi o Rio de Janeiro. Cericola conta que já são 133 anos de atividades circenses:

— Meu trisavô era músico e minha trisavó integrava um corpo de baile em Palermo. Ambos leram um edital de vagas convocando artistas e interessados em participar de um circo, que viajaria para o Brasil. Eles se inscreveram, se conheceram, seguiram com o circo, construíram uma família e uma carreira circense.

Os circos de Tradição Familiar têm atividade nômade. São grupos pequenos, que podem reunir de cinco a 40 pessoas, entre artistas e pessoal de apoio. Mas a maioria tem de dez a 15 integrantes.

De acordo com o Iphan, há grupos de estrutura familiar em atividade no país que alcançaram a oitava geração. Os circos, em geral, criam uma identidade em torno do sobrenome familiar, que vira uma marca. De acordo com o processo aprovado pelo Iphan, há circos familiares voltados para o teatro, em que os artistas encenam peças, e os tradicionais, em que os espetáculos reúnem vários números apresentados por mestres de cerimônia.

O reconhecimento dos Circos de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural ocorreu durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Iphan, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio. A aprovação veio no mês em que se comemora o Dia Nacional do Circo, 27.

De acordo com o parecer da relatora do processo, Desirèe Tozi, do Ministério da Cultura, “o circo familiar não se resume ao espetáculo, ele é, ao mesmo tempo, trabalho, casa, sustento e modo de vida. Nesse universo, a família ocupa papel central, sustentando a continuidade dos conhecimentos e das práticas que estruturam a vida sob a lona.”

O pedido inicial de Patrimônio Cultural para as companhias de Tradição Familiar foi protocolado em 2005 pela direção do Circo Zanchettini, do Paraná, liderado por Wanda Cabral Zanchettini. De acordo com o Iphan, a família buscava desde 1993 o reconhecimento dos circos como patrimônio imaterial nacional. Desde então, o processo mobilizou famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas, até a consolidação da pesquisa por meio do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC).

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