Quem viveu, viveu. E pegou carona na cauda do cometa para ver a Via Láctea. Vá lá, um bondinho. Criado por Nelson Motta em 1980, o Noites Cariocas, no Morro da Urca, marcou aquela geração com shows lendários e histórias fabulosas. Virou ícone de um período de viradas — não só a virada da redemocratização, mas a virada de uma nova era na música brasileira, que experimentava o surgimento de novas bandas e artistas que moldaram uma inédita cena do rock e do pop brasileiro.
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Revivendo a experiência, o Tim Music Noites Cariocas chega a mais uma edição, neste e no próximo fim de semana. O festival começou na sexta (6), com shows de Mart’nália e Samuel Rosa. Segue neste sábado (7), com Barão Vermelho, Lobão e Supla. Na semana que vem, Monobloco e Durval Lelys se apresentam na sexta (13), e, no sábado (14), é a vez de Manda, Adriana Calcanhoto e Daniela Mercury.
Vai ser meio inevitável não lembrar dos velhos tempos quando Guto Goffi, baterista do Barão Vermelho, subir de bondinho até o local do evento. Guto se considera um “sócio de carteirinha” do Noites Cariocas.
— Tocamos várias vezes e, em algum momento, a organização deu pra gente uma carteirinha linda com um desenho do Morro da Urca, e atrás tinha um poema do Quintana que dizia: “Dancemos todos até não mais saber-se o motivo.” Era um passe livre para ir quando quiser — lembra o baterista. — Era sempre uma curtição, uma época de muita vibração boa. Lembro que quando o Don Pepe (DJ famoso da época) tocava “Lindo balão azul”, do Guilherme Arantes, entre outros hits da época, a galera ia à loucura.
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O Barão Vermelho tocou pela primeira vez no Noites Cariocas em 1982, abrindo um show de Sandra de Sá, “de quem Cazuza era muito amigo”, lembra Guto. Com a explosão da banda a partir de 1983, não demorou para que o Barão voltasse a subir o morro, mas desta vez como atração principal.
— Em 1983, entre o disco que trazia “Pro dia nascer feliz” e o outro, de 1984, com “Maior abandonado”, a gente gravou “Beth Balanço”. Tocou tanto, mas tanto, que era uma loucura. A gente foi convidado para fazer um mês inteiro de shows no Morro da Urca. Chegávamos lá e tinha uma fila de dois quilômetros na porta, o bondinho já subia tocando “Beth Balanço”. Ficou muito na nossa memória — lembra o baterista do Barão.
Foi o Noites Cariocas, aliás, que inspirou parte do line-up do primeiro Rock in Rio, aquele de 1985, lembra Luiz Calainho, um dos empresários à frente desta nova fase da experiência. Calainho diz que foi “em literalmente todas” as edições do “da época do Nelsinho”.
— É um evento que está arraigado no peito de qualquer carioca que seja carioca de verdade. Uma marca muito poderosa e emblemática — diz o empresário. — E estamos com essa gigante efeméride, o festival está completando 45 anos. É o mais longevo do país, e que deu cara ao pop rock nacional. Neste ano, o nosso conceito filosófico, de curadoria, foi celebrar artistas das duas primeiras décadas da história do pop rock, 1980 e 1990.
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Calainho também tem suas memórias irretocáveis das tantas vezes que subiu o Morro da Urca pra ser feliz.
— Uma vez, já nos anos 2000, Rita Lee regeu o anfiteatro lotado, numa cena que, guardadas as proporções, lembrava o Freddie Mercury no Rock in Rio de 1985. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, eu chorava. Aquele lugar tem um poder espiritual, aquela formação rochosa muito poderosa. Dali você vê o Cristo, as Ilhas Cagarras, o oceano, Niterói, Leblon, Ipanema, os Dois Irmãos, Pedra da Gávea, Outeiro da Glória… E aquele anfiteatro é sempre uma catarse, o público abraça o artista numa comunhão.
Atração do último dia do evento, no fim de semana que vem, Adriana Calcanhotto vai experimentar esse abraço fazendo seu show solo, voz e violão.
— Me lembro de ouvir falar muito do Noites Cariocas antes de vir de Porto Alegre para o Rio. Uma oportunidade incrível subir uma pedra para cantar — diz Adriana.
O GLOBO pergunta se a cantora tem medo de altura: — Não tenho, imagina. Subo amarradona.

