A Defesa Civil de Gaza anunciou que 72 pessoas, entre elas 21 que buscavam ajuda humanitária, morreram em ataques do Exército israelense nesta quinta-feira no território palestino — devastado pela guerra há mais de 20 meses e sob risco de fome segundo as Nações Unidas.
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Seis pessoas foram mortas enquanto esperavam por ajuda perto de Jan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, e outras 15 no corredor de Netzarim, no centro de Gaza, onde milhares de pessoas vão diariamente na esperança de receber comida, disse à AFP o porta-voz da Defesa Civil palestina, Mahmud Basal.
Segundo a mesma fonte, outras 51 pessoas morreram também nesta quinta-feira durante nove ataques israelenses diferentes na cidade de Gaza e no norte do território palestino. Em resposta, o Exército israelense disse à agência de notícias que está “examinando” essas acusações.
Basam Abu Shaar, um palestino deslocado, afirmou à AFP que milhares de pessoas se reuniram à noite na esperança de receber alimentos antes da abertura, pela manhã, do centro de distribuição de ajuda humanitária administrado pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês) — uma controversa organização, apoiada pelos Estados Unidos e Israel, cujos métodos de distribuição foram alvos de escrutínio por parte da ONU e de grandes instituições humanitárias.
— Por volta da 1h da madrugada, começaram a atirar em nós. Os tiros vindos de tanques, aviões e bombas lançadas por drones se intensificaram — disse ele à AFP por telefone.
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Ele afirmou ter visto mortos e feridos caídos no chão a poucos passos do centro da GHF.
— Não pudemos ajudá-los, nem mesmo fugir — acrescentou, afirmando que ficou preso no meio da multidão.
As vítimas foram levadas para os hospitais al-Awda e al-Aqsa, no norte e no centro do território, afirmou Mohamad al Mughayyir, funcionário da Defesa Civil.
Além disso, três pessoas morreram nesta quinta-feira em bombardeios israelenses contra um prédio na cidade de Gaza, no norte, e outras sete em um ataque ao campo de refugiados de al-Shati, um pouco mais a oeste, de acordo com a Defesa Civil.
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Devido às restrições impostas por Israel à mídia em Gaza e às dificuldades de acesso ao terreno em guerra, a AFP não pode verificar de forma independente os balanços da Defesa Civil.
Esta não é a primeira vez que a GHF esteve envolvida em massacres durante a entrega de ajuda humanitária. Nas últimas semanas, dezenas de palestinos morreram ao tentar chegar aos pontos de distribuição de ajuda em Gaza.
No início de março, Israel impôs um bloqueio humanitário no território, o que provocou graves carências de alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade.
A GHF — uma organização com financiamento opaco fundada em fevereiro e com sede no estado americano de Delaware — começou a entregar ajuda no final de maio, mas suas distribuições têm sido marcadas por cenas caóticas e ataques mortais nos arredores do centro.
Antes liderada pelo diretor executivo Jake Wood, ex-fuzileiro naval dos EUA, ele renunciou em maio, afirmando ter ficado desconfortável pelos métodos empregados pela entidade, questionando a sua neutralidade. John Acree, ex-gerente da USAID, a agência do governo dos EUA responsável pela administração da ajuda internacional, foi nomeado diretor executivo interino em seu lugar.
A ONU e outras agências de ajuda humanitária se negam a cooperar com o esquema da organização, afirmando que ele não respeita os princípios humanitários fundamentais. Segundo elas, o sistema da GHF exclui pessoas com problemas de mobilidade, incluindo aquelas com ferimentos, deficiências e idosos. As organizações afirmam, ainda, que o método provoca mais desalojamento, expõe milhares de pessoas a riscos, condiciona a ajuda a objetivos políticos e militares, e estabelece um precedente perigoso para a prestação de ajuda humanitária no mundo.
Em entrevista à rede britânica BBC, Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês para Refugiados e ex-chefe humanitário da ONU, descreveu a GHF como “militarizada, privatizada e politizada”.
— As pessoas por trás dela são militares, ex-agentes da CIA, ex-agentes de segurança. Há uma empresa de segurança que vai trabalhar em estreita colaboração com uma das partes do conflito armado, as Forças de Defesa de Israel — disse em maio, quando as operações de distribuição iniciaram. — Eles vão ter alguns centros onde as pessoas serão selecionadas de acordo com as necessidades de um dos lados do conflito: Israel. Não podemos permitir que uma parte do conflito decida onde, como e quem vai receber a ajuda.
O Hamas alertou os palestinos a não cooperarem com o sistema da GHF, afirmando que ele “substituiria a ordem pelo caos, imporia uma política de fome planejada aos civis palestinos, e usaria os alimentos como arma em tempos de guerra”.
Na última semana, a fundação acusou o Hamas de atacar um de seus ônibus com trabalhadores humanitários, numa ação que teria deixado ao menos cinco mortos. A organização afirma que o grupo terrorista palestino tem feito ameaças à sua equipe.
Até 10 de junho, mais de 130 palestinos foram mortos por forças israelenses enquanto se dirigiam aos pontos da GHF ou durante a entrega de ajuda humanitária. Sobreviventes dos sucessivos massacres nesses locais passaram a se referir à operação, apoiada por Israel, como armadilhas, e não como ações humanitárias.
