O futuro das praias do Brasil, Uruguai e Argentina está sob ameaça: até 50% delas podem desaparecer até o final deste século. A previsão foi apresentada durante o simpósio Dia da FAPESP Uruguai, realizado em Montevidéu nos dias 13 e 14 de novembro, e alerta para riscos diretos à biodiversidade, à pesca e ao turismo, segundo a Agência FAPESP.
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O fenômeno conhecido como compressão costeira, que reduz o espaço entre o mar e a infraestrutura urbana, foi um dos temas centrais do encontro. A elevação do nível do mar, impulsionada pelas mudanças climáticas, agrava a situação, tornando cidades litorâneas mais vulneráveis a ataques do oceano.
Omar Defeo, professor da Universidade da República (UdelaR) no Uruguai, destacou a gravidade do problema durante o evento: “Quase metade das praias desaparecerá até o final do século. Uruguai, Brasil e Argentina compartilham esses recursos. Por isso, devemos trabalhar em conjunto com cientistas brasileiros para gerir e conservar os ecossistemas costeiros.”
Pesquisas recentes reforçam o alerta. Um estudo liderado por Guilherme Corte, em colaboração com Defeo e financiado pela FAPESP, analisou 90 pontos em 30 praias da zona norte de São Paulo, incluindo Ubatuba, Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião. Publicados na revista Marine Pollution Bulletin, em 2023, os resultados apontaram que o número de visitantes é a variável urbana que mais reduz a riqueza de espécies e a biomassa, especialmente em áreas submersas próximas aos costões rochosos e recifes artificiais.
Além disso, atividades humanas como a construção de quiosques, calçadões e áreas de estacionamento sobre a areia, assim como a limpeza mecânica, tiveram efeitos negativos consistentes. Em Ilhabela, por exemplo, a presença de grandes volumes de turistas durante a alta temporada reduziu a diversidade de poliquetas e moluscos. Já em Caraguatatuba, a construção próxima à orla afetou significativamente a biomassa nas regiões submersas, enquanto Ubatuba registrou aumento de espécies oportunistas, como poliquetas que se beneficiam da matéria orgânica gerada pelos visitantes.
O estudo também reforça que a urbanização não afeta apenas a areia seca: tanto a construção quanto a chegada massiva de turistas prejudicam áreas submersas, agravando a perda de espécies e alterando o equilíbrio do ecossistema costeiro.
Em escala global, outro estudo de Defeo, em parceria com cientistas brasileiros, analisou 315 praias e concluiu que uma em cada cinco sofre erosão intensa ou severa. O impacto humano, especialmente em praias refletoras e intermediárias, foi identificado como um dos principais fatores de degradação, junto à subida do nível do mar e ação de vento e ondas.
O ecossistema costeiro depende do equilíbrio entre três zonas interligadas — duna, praia e zona de arrebentação — e da constante troca de sedimentos. “Se a urbanização remover a duna, o resultado pode ser a destruição de casas costeiras”, alerta Defeo, lembrando que alterações em qualquer dessas áreas afetam todo o sistema.
Diante do cenário, o professor enfatizou a necessidade de cooperação regional entre Brasil, Uruguai e Argentina para implementar medidas de conservação e proteger os ecossistemas costeiros. O simpósio reuniu especialistas e autoridades de três países, reforçando que a ação conjunta é essencial para enfrentar a ameaça da compressão costeira e preservar o patrimônio natural do Cone Sul.

