Alvo de uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo, o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União), se entregou à polícia nesta sexta-feira (18). Ele é mencionado em áudios da investigação em que um homem apontado como membro e operador do Primeiro Comando da Capital (PCC) articula mudanças no transporte público da capital paulista e cita o ex-vereador (ouça abaixo).
Além disso, a decisão sobre a prisão aponta que policiais militares afirmaram, em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, que Leite seria o dono de fato da Transwolff, empresa de ônibus de São Paulo alvo de operações contra o PCC. O despacho, porém, não traz a íntegra desses depoimentos. A operação aponta que o PCC teria controle, em tese, de 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo da capital paulista.
A referência a Milton Leite aparece nas relações entre os 13 investigados. O despacho afirma que o ex-vereador é citado nominalmente diversas vezes como responsável direto pela operação de algumas empresas controladas pela facção. O documento não detalha quais seriam as empresas atribuídas a Leite, nem apresenta, nesse trecho, elementos sobre sua eventual participação na sociedade da Transwolff.
Os investigadores analisaram mensagens extraídas de celulares, documentos e informações financeiras e encontraram indícios de vínculos entre os investigados e integrantes ou colaboradores do PCC. O tribunal autorizou 16 prisões, além de buscas e apreensões e acesso aos dados dos equipamentos apreendidos. Cinco alvos seguem foragidos.
Áudios mencionam Milton Leite
Em um dos trechos do documento que embasa os pedidos de prisão, a Polícia Civil cita um diálogo entre José Daniel Satilite, apontado como membro do PCC e operador da facção no setor de transporte público, e um advogado, em que Milton Leite é mencionado. As mensagens são de julho de 2024. Ouça a seguir:
Operador do PCC cita Milton Leite em áudios ao articular mudanças no transporte de SP
Os diálogos ocorrem três meses depois de uma operação que revelou as acusações contra a UPBus, que operava linhas de ônibus na capital paulista. A empresa foi apontada como um braço do PCC para lavagem de dinheiro.
A UPBus acabou sendo retirada da operação das linhas de ônibus na Zona Leste da cidade de São Paulo. Nas mensagens, José Daniel fala de articulações que estaria realizando para tentar emplacar a empresa Translíder como substituta da UPBus. A Translíder é uma empresa que atuou no setor de transporte coletivo da cidade de Cubatão, na Baixada Santista e tem José Daniel como parte do quadro societário.
Nos áudios, José Daniel afirma que essa operação teria que “envolver” Milton Leite e Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, a empresa municipal responsável pelo transporte público da capital paulista.
Leite é citado em dois áudios, o primeiro de 11 de julho de 2024 e o segundo de 15 de julho de 2024, às 15h. José Daniel cita que uma reunião seria marcada para tratar do assunto, mas não menciona data, hora ou local do encontro.
Novamente no dia 15, mas às 21h, em novas mensagens José Daniel relata já ter dialogado com Levi dos Santos e afirma que o ex-presidente da SPTrans questionou se ele tinha tratado do tema da troca da UPBus pela Translíder com Bira, apelido de Ubiratan Antonio da Cunha, então presidente da UPBus.
José Daniel afirma então que respondeu a Levi que não precisava dialogar com Ubiratan e sim com o “patrão dele”, o Cebola, apelido de Silvio Luiz Ferreira. Cebola foi apontado em diversas investigações como membro do PCC e o controlador da UPBus. Ele também foi acusado de atuar em outras frentes da facção, como o tráfico de drogas, e segundo a polícia, usava a UPBus para lavar o dinheiro vindo dos pontos de vendas de entorpecentes.
A troca da Translíder pela UPBus na operação das linhas de ônibus, no entanto, não aconteceu. A empresa que acabou assumindo as linhas foi a Alfa Rodobus. As investigações da terceira fase da Operação Vectura Corrupta, no entanto, também apontaram que a Alfa seria ligada ao PCC.
Mensagens de José Daniel obtidas pela Polícia Civil mostram o rol de empresas de ônibus que seriam da facção. 12 das 22 empresas que operam o transporte público municipal estariam sob o comando do PCC.
A Alfa assumiu os contratos da UPBus em fevereiro deste ano. “Chama a atenção ainda que após a Operação Fim da Linha e a consequente rescisão da concessão em face da Qualibus/UPBus, a empresa que a sucedeu na exploração das linhas antes operadas pela UPBus foi justamente a empresa Alfa Rodobus, de tal sorte que é extremamente preocupante o vínculo de tais empresas — alguns já confirmados — com o crime organizado”, afirma a Polícia Civil em documentos da investigação, obtidos pelo GLOBO.
Leite nega as acusações
Antes de se entregar, Leite afirmou ao GLOBO que negava o envolvimento nos crimes.
— Nego veementemente qualquer acusação, não sou dono da empresa, só tinha relação porque era próximo lá. Não tenho nada a ver com PCC, nunca encontrei esse pessoal na vida. Não havia sido intimado a depor, e fui surpreendido com o mandado de prisão — falou.
Áudios, depoimentos de PMs, controle sobre a Transwolff: os indícios que justificaram a prisão de Milton Leite, segundo a polícia
Alvo de uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo, o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União), se entregou à polícia nesta sexta-feira (18). Ele é mencionado em áudios da investigação em que um homem apontado como membro e operador do Primeiro Comando da Capital (PCC) articula […]