Por algum tempo, George Moura acreditou que seguiria a profissão do pai, um vendedor de peças automotivas. Primogênito da família, na juventude o pernambucano do Recife costumava acompanhar a figura paterna em viagens de trabalho por cidades do interior do Nordeste. Nas andanças em meio à paisagem árida, o rapaz se perdia a imaginar a vida dos cangaceiros que por ali passaram. O bando colorido que tanto ouvira falar — quase um “bloco de carnaval”, ele pensava — provocava fascínio e embaralhava, na mente do garoto, as fronteiras entre fantasia e realidade. Assim desabrochou, como rememora, a “flor da curiosidade” pelo assunto.
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Nome por trás de sucessos no cinema e na TV, entre os quais os filmes “Linha de passe” (2008) e séries como “Amores roubados” (2014) e “Onde nascem os fortes” (2018), o roteirista define a novela “Guerreiros do sol” — escrita com Sergio Goldenberg — como a realização de um sonho “cultivado há uma vida”. A seguir, ele dá detalhes sobre a história livremente inspirada nas figuras de Lampião e Maria Bonita e fala sobre o alcance mundial de histórias brasileiras “que só existem aqui”. Em 2019, você já falava da vontade de fazer uma obra sobre Lampião e Maria Bonita.
Vem de muito tempo esse desejo?
A sensação que tenho é que estou sonhando há uma vida em fazer esse projeto. Acho que nordestinos são muito tocados por essa história peculiar, que remete ao território do sertão, mas que trata de temas universais, como amor, morte, vingança e amizade.
O que explica a onda recente de produções sobre o cangaço?
As contradições do Brasil de hoje foram gestadas na época do cangaço. Entre os anos 1920 e 1930, quando a Coluna Prestes avançava pelo país pregando o comunismo sem que o governo conseguisse contê-la, um deputado do Ceará teve a ideia de intimar a ajuda do bando de Lampião. Algum político ponderou: “Como o Estado convocará bandidos para combater comunistas?” Usaram, então, a mediação da Igreja, chamando Padre Cícero, que tinha influência sobre Lampião. Parece coisa que aconteceu há um ano, né? Assemelha-se ao nosso presente assustador.
Ainda conhecemos pouco, porém, sobre esta parte de nosso passado, não acha?
Exatamente. O cangaço é, para nós, como o faroeste para os americanos — ou como os samurais, para os japoneses; e os bandidos e bandoleiros medievais, para os europeus. São figuras que expressaram muito do espírito de um local, com uma estética própria. No caso dos cangaceiros, com chapéus, moedas de ouro, botinas, roupas de couro artesanais… Tudo isso forma quase uma alegoria. Parece até uma fantasia, não é?
Você acha que, se explorasse essas temáticas, o Brasil poderia ser uma potência audiovisual a nível mundial?
Não tenho a menor dúvida. Mesmo com a barreira da língua, podemos ser uma potência internacional, porque temos um manancial de histórias incríveis, e que só existem aqui, sobretudo falando de questões do Brasil profundo.
Precisamos de uma política mais ampla de investimento no desenvolvimento da indústria, e isso passa também por uma regulamentação para que o brasileiro tenha acesso a esse conteúdo, se orgulhe disso e abandone o complexo de vira-lata.
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Historicamente, estamos acostumados a consumir e valorizar o que vem de fora. É possível, então, mudar isso?
Dá para virar o jogo, e isso envolve um processo pedagógico de desenvolvimento do gosto. Em “Guerreiros do sol”, temos várias cenas de batalha. Ao escrever e realizar essas cenas, tivemos a preocupação rigorosa de fazer a narrativa brasileira de uma guerra. Não é uma guerra como o cinema americano faz, sabe? No nosso caso, é um conflito com pouca munição, em que os tiros precisam ser economizados, com trocas de insultos e gritos… Há ali uma gramática narrativa visual brasileira para contar uma história brasileira.
Essa é uma preocupação constante seu ofício?
Além de fazer histórias com temas brasileiros, precisamos fazer histórias com uma maneira de contar brasileira, latina. Se não for assim, fica igual às outras tramas. Hoje, com a assustadora oferta de produtos audiovisuais nas mais diferentes plataformas de streaming, as coisas estão ficando todas iguais… É como acontece com o vinho: a bebida da França, da Itália, da Argentina e de Marte parece ter o mesmo sabor.
Entre séries e filmes, o que mais te marcou recentemente?
Assisti a uma sessão especial de “O agente secreto”, filme inédito de Kleber Mendonça Filho, e gostei muito. A série “Adolescência” me pegou, como aconteceu com todo mundo. E atualmente tenho gostado muito de “Yellowstone”.
Ao falar sobre o futuro das novelas no streaming e na TV aberta, você reforça que o autor hoje deve se atentar mais à importância de compor histórias relevantes sem se apegar à ideia de propor uma revolução formal na linguagem do gênero. Sua obra na TV, porém, traz uma estética diferente, próxima do cinema. Como enxerga isso?
Como roteirista, o que me move é o anseio de ampliar o olhar da narrativa, seja pelo conteúdo ou pela forma. É sempre bom tentar dar ao espectador o que ele não espera. E, muitas vezes, o que ele nem sabe o que quer. Isso envolve risco. E risco é uma palavra cada vez mais aguda nos dias de hoje. Como a concorrência é grande e os orçamentos estão diminutos, a tendência geral é não correr risco. Mas a arte precisa arriscar. Arte sem risco é o caminho da morte.

