Desde o são-bernardo de Stephen King em “Cujo”, passando pela sucuri de “Anaconda” até o tubarão que inspirou o filme de Spielberg, são muitas as histórias de terror com animais na ficção. Mas, no quadrinho “Sa-Wala: tudo por nada” (Pipoca & Nanquim), a criatura da vez é um… galo!
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Escrita e ilustrada pela filipina Renren Galeno, a HQ começa quando um pai de família encontra, por acaso, um galo no meio da estrada durante a madrugada, enquanto dirige seu táxi. Como, além de forte, o animal parecia bem cuidado, Anding acredita ter tirado a sorte grande: ele está cheio de dívidas, e a rinha de galo — conhecida localmente como sabong — é legalizada e regulamentada nas Filipinas desde 1974, por decreto presidencial.
Anding leva o galo de olhar vazio e penetrante para casa e logo o coloca para brigar com outros de sua espécie. De azarão, a ave rapidamente se torna uma campeã sanguinária, temida por adversários — e até pela própria família que a acolheu. Mas as vitórias rendem dinheiro suficiente para o pai, a mãe e os filhos saírem da miséria e viverem melhor.
“Sa-Wala: tudo por nada” é a primeira graphic novel da autora, que ganhou o National Book Awards local de Melhor Graphic Novel em Inglês com seu livro de terror em preto e branco. Por e-mail, ela explica que Renren é seu nome artístico, criado a partir da repetição da primeira sílaba do nome de batismo — um costume nas Filipinas, onde algumas pessoas costumam adotar profissionalmente apelidos de infância na vida adulta, como é o caso do presidente do país, conhecido como Bongbong Marcos.
Renren diz que a ideia de fazer a HQ surgiu depois que se formou em Belas Artes pela UPD (University of the Philippines Diliman), na metrópole de Quezon, e voltou para casa, em Davao City.
— Fiz faculdade numa cidade barulhenta, e quando voltei para a minha casa mais tranquila, um galo me acordava às 3h da manhã — lembra a quadrinista, de 28 anos. —Isso, somado à popularidade crescente do e-sabong (rinha de galos on-line), e aos acontecimentos ao meu redor na época, me inspiraram a criar esse trabalho.
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Mesmo que a briga de galo seja permitida por lei nas Filipinas e possa causar repulsa ao leitor, a autora em momento algum glorifica a prática. Muito pelo contrário. Não é algo explícito no quadrinho e há uma crítica nas entrelinhas, mesmo que seja algo enraizado na cultura do país. Renren explica, inclusive, que o título original da HQ, “Sa Wala”, é algo que geralmente se perde na tradução.
— Essa é, na verdade, a forma como chamamos um dos dois lados na rinha de galos: Sa Wala e Sa Meron — explica ela. — Sa Wala é “aquele que não tem chance de vencer” e Sa Meron é “aquele que tem chance de vencer”.
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E conclui, com bom humor:
— Então, o lado Sa Wala é geralmente reservado para o azarão da disputa, mas se você aposta nele, o prêmio é maior. Se você perguntar ao meu pai, ele vai dizer que só se refere a qual dos criadores de galos está usando chapéu no dia da luta.
Renren cresceu lendo mangás como “Fullmetal Alchemist” e ver “Akira” impresso pela primeira vez, na época da faculdade, foi o que a levou a querer também estar no papel. Ela explica que em seu país as HQs são chamadas de komiks, e que há uma cena vibrante, com uma diversidade enorme de histórias e estilos de arte.
— Estamos vivendo um certo boom de quadrinhos, e isso tem trazido muitas novas histórias e autores, mas os criadores de komiks sempre estiveram por aqui — conta Renren. — Sempre senti que crio como eu mesma. E por acaso sou uma mulher. Tive a sorte de entrar numa cena diversa, com muitas criadoras, editoras e leitoras fortes, embora eu saiba que isso não seja a realidade de todos.
Em 2024, Renren foi indicada ao Prêmio Pulitzer por uma reportagem em quadrinhos publicada no The Washington Post. Produzida em parceria com as jornalistas Claire Healy e Nicole Dungca, “Searching for Maura” (“Procurando por Maura”) conta a história de uma jovem filipina da etnia igorot levada para os EUA em 1904. Ela foi uma das centenas de indígenas exibidas como atração exótica na Feira Mundial de St. Louis, numa “vila filipina” que buscava mostrar a “inferioridade” dos colonizados.
Após a feira, Maura morreu jovem, e seu corpo foi entregue ao Smithsonian Institution, onde um cientista coletou parte de seu cérebro para pesquisa — um ato comum na época, feito sob justificativas racistas e pseudocientíficas:
— Foi um trabalho difícil, porque eu nunca havia mergulhado tão profundamente nessa parte da nossa história, foi humilhante perceber o quanto eu não sabia. Analisar o material, especialmente imagens e artigos com linguagem racista, foi cansativo, mas fazia parte do trabalho. Também havia muita pressão para contar essa história de forma correta e respeitosa, algo que toda a equipe sentia.
Autora: Renren Galeno. Tradução: Rodrigo Guerrino. Editora: Pipoca & Nanquim. Páginas: 228. Preço: R$ 79,90.

