Baleias de todas as idades estão sendo encontradas mortas nas praias da Península Vldés e do Golfo Nuevo, na província da Patagônia Argentina. A temporada das baleias-francas-austrais deste ano está se desenrolando de uma forma sem precedentes nos últimos anos. Um dos fatores que pode ter contribuído é o fenômeno El Niño, embora os especialistas trabalhem também com outras duas hipóteses.
Comida mais ‘atraente’: Dona de creche na China é condenada à prisão perpétua por intoxicar mais de 200 crianças com tinta não-comestível em refeições
Grand Condé: Diamante rosa roubado e reencontrado após camareira morder maçã que escondia a joia em 1926 é exibido pela 1ª vez após 100 anos
De acordo com o Instituto de Conservação de Baleias (ICB), citado pelo jornal argentino Clarín, a escla de mortandade desses mamíferos pode bater o recorde histórico de 2012, quando foram registradas as mortes de 113 filhotes.
O censo áreo realizado em 6 de setembro pela equipe contabilizou 1.375 baleias-francas-austrais, incluindo 409 filhotes. Porém, a contagem final ainda não está fechada. Como a temporada se estende até novembro, e novas mortes podem surgir, a equipe prefere não divulgar o número de baleias que morreram até o momento.
Para além da contribuição do El Niño, o pesquisador Mariano Coscarella, do Laboratório de Mamíferos Marinhos do Centro de Estudos de Sistemas Marinhos (Cesimar-Cenpat), aponta dois fenômenos diferentes que acabaram por coincidir, impactado negativamente a sobrevivência da espécie.
Perigo microscópico
Diversas equipes de cientistas estão trabalhando em conjunto para determinar o que pode estar acontecendo nessas águas. Um deles é o Programa de Monitoramento Sanitário de baleia-franca-austral, dirigido pela doutora Marcela Uhart, da Universidade da Califórnia. É a especialista quem encabeça e coordena as análiss das amostras obtidas desses animais, explica o Clarín.
Especialista: Com ‘intensidade excepcional’, El Niño é ameaça ‘aterradora’ para corais
Os resultados preliminares forneceram algumas informações sobre as mortes das baleias mais jovens, embora a causa ainda não esteja confirmada.
Um deles é a presença da Erysipelothrix rhusiopathiae, uma bactéria responsável pela erisipela, uma infecção na pele, nos filhotes. Nesses animais, a infecção pode causar uma grave doença sistêmica, com septicemia (resposta do organismo a uma infecção que chega à corrente sanguínea) e falência múltipla de órgãos. O quadro pode levar à morte do animal.
Essa doença nem sempre deixa sinais externos óbvios, pontuam os especialistas. Por isso, seria necessário que fosse feita análise em diferentes tecidos, além da avaliação dos achados juntamente com o estado geral do animal.
— No caso dos filhotes de baleia, os estudos realizados até o momento indicam que as mortes foram causadas pela bactéria — explica Víctor Fratto, especialista em Gestão da Vida Selvagem e Biodiversidade, ao jornal argentino.
Período de ‘vacas magras’: El Niño impacta mercados de gado de El Salvador
Fratto, que participou da coleta de amostras de tecido, alertou porém que a doença apresenta sintomas diferentes em adultos da espécie. Nos jovens e adultos não são observadas, por exemplo, lesões cutâneas compatíveis com erisipela.
Maré vermelha
A ausência não descarta por completo uma infecção bacteriana. E, somada à rapidez com que os achados ocorreram e a época do ano, aponta para outra hipótese: toxinas associadas à maré vermelha — quando há proliferação de microalgas.
Fratto, explica que, a princípio, “são dois eventos diferentes”. Não há evidências até o momento que estabeleçam uma relação causal entre a morte dos filhotes e a dos jovens e adultos. Mas o fato de os dois fenômenos ocorrerem na mesma estação, de acordo com o consenso atual, levanta questões sobre as condições ambientais em que aparecem.
— Uma possível influência do El Niño é uma hipótese que não podemos descartar, mas também não podemos confirmá-la sem evidências científicas que a sustentem — pontua.
Na maré vermelha, apenas algumas espécies produzem toxinas capazes de prejudicar a vida marinha. Esses episódios podem ocorrer periodicamente no litoral da Patagônia, mas sua intensidade e consequências variam de um evento para o outro. A proliferação dessas bactérias, por exemplo, pode ser favorecida por variações ambientais, como temperatura da água, condições atmosféricas e chuvas intensas.
Durante a primavera, as baleias-francas-austras começam a se alimentar nos golfos, antes de migrarem para suas tradicionais áreas de alimentação no Atlântico Sul. Por isso, podem ter ingerido esses organismos microscópicos e, se presentes em altas concentrações, suas toxinas.
Há precedentes para isso, de acordo com Coscarella: em 2022, 30 baleias morreram no Golfo Nuevo, sendo 26 adultas e quatro jovens. Naquela época, as análises confirmaram a presença de toxinas causadoras de intoxicação paralítica por marisco (PSP).
Em 2024, outro episódio terminou com 71 baleias mortas, sendo 18 adultas e 53 filhotes.
Coscarella, porém, destaca que “ainda não temos informações sobre quais são os níveis de biotoxinas no golfo hoje”.
Baleias são encontradas mortas na Patagônia Argentina. Para cientistas, El Niño pode ter contribuído, mas há outras duas hipóteses
