O Leblon chega aos 106 anos hoje, 26 de julho, com uma identidade forjada muito antes de se tornar um dos bairros mais sofisticados e desejados do Rio de Janeiro. Antes da fama, da especulação imobiliária e dos letreiros de luxo, o território já exibia resistência. No início do século XX, o bairro abrigava o Quilombo do Leblon, conhecido como Quilombo das Camélias, onde aconteceram as primeiras festas da região.
— O português José de Seixas Magalhães foi um ilustre abolicionista que abraçou esse quilombo e promovia festas que eram famosas. A batucada começava cedo, e o local recebeu a visita de nomes importantes, como a Princesa Isabel. A polícia sabia, mas deixava passar porque já estava próximo da abolição. Aquela área se configurou desde sempre como um espaço de resistência. O Leblon ficou nesse casulo, como espaço isolado, até os anos 1930 ou 1940. A partir daí, começou a dar os primeiros passos para se tornar o bairro rico e sofisticado que conhecemos hoje. Mas isso só se consolidou de verdade há uns 40, 50 anos — explica o historiador Thiago Gomide.
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Essa alegria ancestral, marcada pela batucada e pela confraternização, pode ser considerada o embrião do espírito boêmio que até hoje caracteriza o bairro. Ainda que isolado até meados dos anos 1930, o Leblon começou a se moldar, pouco a pouco, como território de encontros. Mas foi somente nas décadas de 1950 e 1960 que a boemia leblonense ganhou contornos mais sólidos, principalmente graças aos bares, alguns deles, inclusive, hoje reconhecidos como patrimônios culturais da cidade.
Três estabelecimentos do bairro receberam o reconhecimento do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), que os integrou aos circuitos do patrimônio cultural carioca por sua relevância histórica e afetiva — eles receberam uma placa azul com um pequeno histórico exaltando sua tradição.
O Jobi, inaugurado em 1956, mantém suas portas abertas madrugada adentro e exibe, com orgulho, um painel do artista plástico Nilton Bravo, figura que enfeitou diversos botequins cariocas nos anos 1960.
Já o Bracarense, fundado em 1961 e carinhosamente apelidado de Braca pelos frequentadores, é uma homenagem direta à cidade portuguesa de Braga e símbolo de chope bem tirado com petiscos na calçada.
O mais recente a entrar no circuito foi a Casa Clipper, reconhecida este mês como patrimônio cultural. Fundada em 1945 por imigrantes portugueses, a Clipper é um ponto tradicional do bairro, famosa pelo sanduíche de pernil e pelo chope gelado e por ser reduto da Charanga do Flamengo em dias de festa.
— O projeto Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca tem como objetivo divulgar e informar à população em geral sobre o rico acervo de bens culturais existentes na cidade do Rio de Janeiro. As plaquinhas azuis já se tornaram uma referência do patrimônio carioca. Entendemos que a divulgação e a conscientização da importância cultural e histórica desses locais é fundamental para a sua preservação, pois motiva a comunidade local e os tornam importantes roteiros turísticos dos bairros — destaca Laura Di Blasi, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.
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Foi a partir de 2010 que os Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca, do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), deixaram de focar somente em arquitetura e passaram a abranger temas livres, ligados à cultura e à identidade carioca. Nas placas azuis, os moradores da cidade e turistas podem conhecer um pouco mais sobre o lugar, sua história e sua importância para a cidade.
Com a placa desde 2011, reconhecido também como patrimônio do estado e citado em guias de viagem como um autêntico bar carioca, o Jobi nasceu em 1956. Localizado na Avenida Ataulfo de Paiva, tornou-se símbolo máximo da boemia carioca e do que o bairro representa para a cidade.
— Foi um dos primeiros bares a explodirem por ali. Na década de 1950, as pessoas se aglomeravam para tomar chope. Acredito que o Jobi representa o coração intelectual do Leblon. O Rio já tinha um casamento com a cerveja, mas não era algo tão intrínseco à praia como viria a ser. A praia impulsionou os bares; o pessoal saía da areia direto para tomar uma no bar — afirma o historiador Thiago Gomide.
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O bar virou ponto de encontro de gerações e famílias. Mas nem sempre teve esse perfil familiar.
— O Jobi foi fundado pelo meu avô, que era português. O meu pai começou a trabalhar lá com 11 anos. Naquela época, era um bar de trabalhadores da construção civil. O pessoal vinha comer. Não tinha ainda essa boemia — conta Eliana Rocha, sócia e neta do fundador. — Outra coisa que mudou é que antigamente as pessoas costumavam ir sozinhas para os bares. Hoje, vão em grupo; somos um ponto de encontro. Temos diferentes tipos de clientes, dependendo do horário. À noite tem a galera que vem com roupa do trabalho, e de madrugada aparecem pessoas com as roupas mais arrumadas.
O bar é um dos únicos da cidade que ainda mantêm um painel criado pelo artista plástico Nilton Bravo. Gomide acredita que Bravo é o Michelangelo dos bares.
— O Nilton pintou murais em diversos estabelecimentos na década de 1960, mas muitos desses bares desapareceram, foram vendidos ou demolidos. O Jobi preservou esse legado que mostra a relação entre boemia e arte — diz o historiador.
O espaço já passou por várias reformas, mas a ideia é parecer que nada mudou. Eliana acredita que o segredo do sucessso é que o Jobi soube se reinventar com o passar dos anos.
— Buscamos manter as mesmas estrutura e essência para que o cliente não perceba diferença. No ano que vem vamos completar 70 anos e estamos pensamos em fazer um documentário e um livro. Nossa ideia é chegar aos 100 anos e que ele continue sendo um negócio familiar — afirma a sócia.
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Eliana diz que ser patrimônio cultural é o reconhecimento por um trabalho que se mantém firme há muitos anos:
— A gente brinca que quem nunca veio ao Jobi não conhece o Rio. Meu pai sempre imprimiu esse espírito de família, e isso permanece. Tem clientes que se conheceram aqui, se casaram e construíram uma família que ainda frequenta o bar. Às vezes os clientes ligam para cá e pedem para a gente ficar de olho em seus filhos.
Bracarense e Clipper mantêm identidade
A duas quadras da praia, um dos templos da boemia que seguem firmes no Leblon é o Bracarense. Fundado em 1961 por dois portugueses que haviam morado em Braga — daí o nome —, o bar é conhecido pelo chope gelado e pelos petiscos que se tornaram indispensáveis no cardápio, como o pernil e o bolinho de camarão.
— Os clientes nos cobram qualidade. Claro que investimos em estrutura e tecnologia, porque não dá para ficar parado no tempo, mas sem perder nossa essência — diz Carla Tomé, neta do fundador Arlindo Tomé e atual sócia da casa.
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Com placa instalada em 2021, o Bracarense faz parte do Circuito do Patrimônio Cultural Carioca e enfrenta o desafio de preservar seu espírito sem perder o ritmo das mudanças.
— Hoje é um bar turístico também, mas continua muito bairrista. Tem gente que vem todos os dias. Antigamente, só homens frequentavam. Hoje, felizmente, as mulheres também vêm muito. O clima informal daqui se destaca, é a cara do carioca. Ser reconhecido como patrimônio cultural é gratificante. É o reconhecimento de um trabalho que começou com meu avô e continua hoje, na terceira geração da família. É fruto de dedicação e por conseguirmos nos manter em um alto patamar — afirma Carla.
Ela destaca que a tradição é a alma do negócio e uma das palavras mais faladas dentro da casa:
— Acredito que nosso sucesso vem de manter a tradição e priorizar a qualidade. O foco não pode ser apenas comercial. O bar é familiar. Eu cresci ali, assim como meu irmão. Meu avô comandava tudo. Por vivenciarmos a história do Bracarense diariamente, conseguimos dar continuidade ao trabalho. É a história da nossa família. Tem gente que acha que somos apenas herdeiros, mas tivemos que nos especializar e correr muito atrás para manter o negócio funcionando.
O historiador Thiago Gomide lembra que o Bracarense tem um perfil mais contemporâneo e destaca dois personagens que marcaram sua trajetória: Chico e Alaíde, que chegaram a abrir um bar no mesmo bairro com o nome da dupla.
— Chico era garçom do Bracarense, mestre na arte de tirar chope. Alaíde, a cozinheira responsável pelas delícias da casa. É quase impossível falar do Bracarense sem lembrar dos dois. Acho que o bar ganhou identidade muito também por causa do trabalho deles — comenta Gomide.
Outro símbolo da tradição no bairro é a Casa Clipper, fundada em 1945 e reconhecida este mês como patrimônio cultural.
— A Casa Clipper é mais antiga. Virou um ponto clássico para as torcidas de futebol, principalmente a do Flamengo — recorda o historiador.
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José Martin, sócio da Casa Clipper desde 1991, comemora os 80 anos do bar e o reconhecimento como patrimônio cultural. Ele também conta como o espaço virou a casa das torcidas de futebol:
— Havia uns clientes que eram do Flamengo e ele acabou virando o point da torcida. Depois, passamos a receber torcedores também de Botafogo, Vasco e Fluminense. Todos os times são bem-vindos. Ficava lotado aqui na Copa do Mundo. Infelizmente, em 1994 teve uma briga na rua e um jovem foi morto. A polícia proibiu a festa, e pararam de fechar a rua. O reconhecimento como patrimônio cultural vem bem no nosso aniversário de 80 anos. Estamos muito felizes.
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O futebol deixou outra marca na boemia leblonense: o Caneco 70. Inaugurado na década de 1970, na Avenida Vieira Souto, em frente ao Posto 12, o bar homenageava em seu nome o tricampeonato da seleção brasileira no México. Fechou em 2006, mas em 2016, perto dali, na Rua Rainha Guilhermina, foi inaugurado um quiosque com o mesmo nome.
— O Caneco 70 era o lugar ideal para ver o pôr do sol na varanda depois de um dia de praia. Era uma tradição no bairro. Muitos romances começaram ali. É uma pena que tenha fechado — lamenta Gomide.
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Das filas no Baixo Leblon ao chope em pé no meio da rua
Se os marcos permanecem, a cena boêmia também se transforma. O Baixo Leblon, reduto de artistas, intelectuais e da contracultura na década de 1970, ainda sobrevive na Pizzaria Guanabara. Mas hoje o movimento de frequentadores de bares se espalha pelo bairro e se concentra principalmente na Dias Ferreira, onde até mesmo a rua é ocupada.
Também da época do Baixo Leblon, o Luna Bar, na Rua Aristides Espínola, é hoje só lembrança. Era onde se reunia a esquerda mais tradicional, de intelectuais e artistas militantes. Ferreira Gullar e Tereza Aragão eram assíduos. Assim como a Pizzaria Guanabara, ficava aberto durante a madrugada e com fila para entrar.
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O Diagonal, vizinho de longa data, é um dos poucos remanescentes do Baixo Leblon original. Ativo desde 1955 na mesma Rua Aristides Espínola, foi reformado e segue oferecendo chope, caipirinhas e petiscos como pastéis e casquinha de siri. Perto dali, os bares da nova geração lotam mesas nas calçadas e disputam clientela em pé.
— O final do Leblon, a esquina da Pizzaria Guanabara com o Diagonal, era um ponto importante política e culturalmente. Era uma esquina emblemática. Frequentada por Cazuza e outros artistas, era um point marcante — recorda Virgínia Fernandes, moradora do bairro e diretora da associação de moradores do Leblon (AmaLeblon).
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Marco nos anos 1960 no bairro era o bar Antonio’s, que ocupava o número 297 da Bartolomeu Mitre. No bairro tinha ainda o Tio Sam, que ficou famoso por ser o “escritório” de João Ubaldo Ribeiro e fechou em 2017.
— O Antonio’s era o mais intelectual. Foi frequentado por Chico Buarque, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ziraldo. Era famoso pelos porres homéricos que lá aconteciam. Quando fechou, em 1996, foi considerado uma das maiores perdas etílico-boêmias do Rio. Já o Tio Sam teria fechado muito antes se não fosse o João Ubaldo. De sua mesa ele observava o mundo — afirma o historiador Thiago Gomide.
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Hoje, fazem sucesso bares como Belmonte, Boteco Rainha, Brewteco e Ferrerinha, representantes do presente e, talvez, do futuro de um bairro onde a boemia se reinventa sem perder a alma. No Leblon, o tempo parece generoso com quem sabe brindar. Se a tradição é servida gelada como o chope do Jobi, do Braca ou da Casa Clipper, a memória continua a borbulhar entre mesas, calçadas, painéis e histórias transmitidas de geração em geração, como uma boa receita de família. Para Virgínia, o comportamento do público do Leblon mudou nos últimos anos:
— A Dias Ferreira sempre foi e continua sendo muito ativa, mas hoje em um novo formato, com essa ocupação intensa das ruas. Antigamente, as pessoas preferiam ficar dentro dos bares; hoje, é o contrário. Os interiores ficam vazios. Acredito que, depois da pandemia, como não era possível permanecer em ambientes fechados, surgiu esse novo modismo de beber em pé na rua. E não são só os mais jovens; vemos muitos coroas também. É um hábito que pegou, beber em pé.
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