A trajetória da tailandesa Paetongtarn Shinawatra no poder durou pouco. Aos 39 anos, a primeira-ministra foi destituída nesta sexta-feira pelo Tribunal Constitucional da Tailândia, apenas um ano após assumir a função. Ela se tornou a terceira integrante do clã Shinawatra a ser afastada do cargo de premier, em um ciclo que há quase duas décadas marca a política do país.
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A decisão da Corte, por seis votos a três, considerou que Paetongtarn violou padrões éticos em uma conversa com o ex-primeiro-ministro cambojano Hun Sen, divulgada nas redes sociais. No áudio, ela o chama de “tio” e critica os militares tailandeses, gesto interpretado como submissão e deslealdade. O afastamento tem efeito imediato e dissolveu também seu gabinete.
Paetongtarn é filha de Thaksin Shinawatra, o magnata das telecomunicações que chegou ao poder com amplo apoio popular e foi deposto por um golpe em 2006, pouco depois de reeleito. O carisma e a rede política de Thaksin fizeram dele a figura central da vida pública tailandesa, mesmo durante seus anos de autoexílio. Sua irmã, Yingluck Shinawatra, também virou premier, em 2011, mas foi destituída em 2014 por decisão judicial, semanas antes de mais uma intervenção militar.
Com Paetongtarn, a história da família se repetiu. A diferença é que, agora, o clã está enfraquecido. Analistas afirmam que não há clima para protestos em massa, como no passado.
— Eles ainda têm muito poder e muita influência, mas, claramente, agora estão em uma posição muito mais fraca do que estiveram por algum tempo — afirma Duncan McCargo, especialista em Tailândia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.
A carreira política de Paetongtarn ganhou fôlego após as eleições de 2023, quando o progressista Move Forward Party venceu nas urnas, mas foi impedido de formar governo pelo establishment militar-monarquista. O partido acabou dissolvido pelo mesmo Tribunal Constitucional, abrindo espaço para que a herdeira política de Thaksin assumisse o cargo de premier.
Agora, o Parlamento tailandês terá de escolher o próximo chefe de governo entre os candidatos que disputaram as últimas eleições. O mais cotado é Chaikasem Nitisiri, de 77 anos, ex-procurador-geral e dirigente do governista Pheu Thai, sigla que mantém laços com os Shinawatra.
Paetongtarn foi a primeira-ministra mais jovem da história do reino, e assumiu o cargo prestes a completar 38 anos. Ela foi, também, a segunda mulher a comandar o governo do país asiático, depois de sua tia Yingluck (2011-2014), e chamou atenção ao declarar um patrimônio pessoal estimado em aproximadamente R$ 2,4 bilhões.
Ela bateu um recorde de precocidade na Tailândia onde, desde a instauração da monarquia constitucional em 1932, a política era dominada por figuras masculinas de mais idade.
Paetongtarn se elegeu com o apoio da coalizão majoritária que apoiava Thavisin, dominada pelo Pheu Thai sob a influência de seu pai, Thaksin Shinawatra.
Thaksin transformou a política tailandesa no início dos anos 2000 com medidas populistas que garantiram o apoio da população rural e possibilitaram sua vitória em duas eleições, mas que também renderam a inimizade das influentes elites conservadoras, que tacharam seu governo de corrupto e autoritário.
Derrubado por um golpe militar em 2006, o bilionário de 75 anos retornou à Tailândia em 2023, depois de passar 15 anos em um exílio voluntário.
A queda de Paetongtarn é mais um capítulo da longa batalha judicial que envolve a família. Na semana passada, seu pai escapou de uma acusação de difamação à monarquia. Em setembro, a Justiça vai decidir se ele evitou de forma legal o cumprimento de penas por corrupção e abuso de poder ao retornar do exílio.