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Confira a história desta semana, no depoimento de Luiz Ricardo da Silva ao repórter Eduardo F. Filho:
“Desde criança sempre gostei do Batman. Não tem como falar de morcego e não falar desse personagem. Na literatura, também cresci lendo histórias de vampiro e filmes sobre Drácula. Na adolescência, comecei a me interessar por coisas mais científicas sobre o animal. Pesquisar sobre as espécies, o que eles comiam e o que faziam. Musicalmente, comecei a gostar de um estilo mais post-punk, gótico, darkwave, e sempre teve essa questão com o morcego também.
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Sou de Guarulhos, São Paulo, mas em 1997 me mudei para Goiás com meus pais. Deveria ter uns 19 anos, mais ou menos, e entrei em um grupo de escoteiros de lá. Foi quando tive meu primeiro contato com as cavernas e com os morcegos. Nós fazíamos um trabalho social e turístico nas cavernas. Era maravilhoso, ficava encantado observando-os voando ali.
O chefe dos escoteiros era chefe de um departamento do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), responsável pelas cavernas, então tínhamos fácil acesso. Passei anos nesse grupo. Virei chefe de escoteiro e fiz amizade com essas pessoas do Ibama e, principalmente, com as que trabalhavam no CEPAV (Centro de Pesquisa e Apoio à Fauna).
Em 2002, comecei a trabalhar no Ibama como colaborador eventual. Nesse período, meu amor pela fauna, pelos animais silvestres e pelos morcegos só aumentou. Participei de diversas atividades e pesquisas sobre educação ambiental, exploração de cavernas, tive acesso a dezenas de estudos. Quando vi os pesquisadores e cientistas fazendo aquilo, com paixão pelo trabalho, soube que era aquilo que queria fazer para a vida.
Em 2013, comecei a cursar Biologia na Universidade de Guarulhos (UNG). Decidi que meu TCC seria sobre morcegos. Quando terminei o meu curso, entrei na Veterinária. E, novamente, meu TCC foi sobre morcegos. Logo depois fiz especialização em Educação Ambiental e Clínica de animais selvagens.
Hoje meu trabalho acadêmico principal é o mestrado sobre morcegos frugívoros, aqueles que se alimentam de frutos. Vou fazer um paralelo entre eles e a distribuição de sementes para ver se eles estão ajudando no reflorestamento de florestas e matas.
Comecei a fazer as primeiras coletas esse ano — no final de semana coletei 70 morcegos. Eu os identifico, faço a pesagem para ver qual é a espécie, se é um frugívoro e se tem sementes, de qual planta eles estão se alimentando e se estão ajudando no reflorestamento.
Passo a noite em área de reserva para coletá-los, uso uma rede fina, estico-a em corredores no meio da mata. Eles comem o fruto e passam defecando e espalhando a semente. Ele ficam presos na rede, e eu passo de dez em dez minutos soltando-os. Pego os animais, coloco cada um em um saquinho de algodão, feito para não os machucar, enquanto tiro as medidas. Vejo também a cor da pelagem, a folha nasal, padrão da cauda, e aí consigo determinar a espécie com exatidão. Adoro essa parte do trabalho. Depois, solto-os no ambiente. De forma alguma os capturo.
Obviamente que há riscos, como quando eles tentam nos morder. A mordida deles dói muito. Se o morcego morde apenas com as pontinhas dos dentes, você sente uma pontada, como uma agulha, mas se ele pegar com os dentes molares, da parte de trás, aí ele aperta, pressiona e a dor aumenta. Ainda tem o risco de desenvolver raiva, doença mortal. Então tem que tomar muito cuidado, respeitar o animal e o ecossistema. Sempre estou com as minhas vacinas em dia e fazendo todos os exames para checar se minha imunidade está boa. Uso luvas fortes também.
Mas mesmo tomando todas as precauções e com anos de experiência, em 2021, quase morri. Nas fezes do morcego pode ter um fungo que, quando você aspira, pode causar histoplasmose, uma infecção respiratória parecida com uma pneumonia e que se não tratada pode matar. Fui chamado para um trabalho, na época da Covid, para capturar um morcego em uma casa no interior de São Paulo. Estava de luva e máscara porque sabia dos perigos, mas acabei adoecendo, sentia dificuldades de respirar. Procurei o hospital universitário e minha oxigenação estava com menos de 80% — o normal é acima de 93%. Quase fui entubado. Fiquei internado por oito dias. Também quase caí fazendo rapel dentro de uma caverna em queda livre, mas para mim, essa doença foi a pior. Acreditei que não passaria dessa.
Esses perigos do trabalho e essa forma de trabalhar são naturais para quem ama morcego. Isso acaba virando algo que dá alegria e adrenalina.
Mas mesmo estudando e gostando muito de morcegos, não acredito em vampiros. Temos mais de 1.300 espécies de morcegos no mundo, e aqueles que são hematófagos, os que se alimentam de sangue, são apenas três. A adaptação fisiológica que esses animais têm para se alimentar só de sangue é absurda. Então, é impossível para um humano ter essa capacidade.
E o mais interessante é que os morcegos hematófagos não existem na Europa, só nas Américas. Eles não são da Transilvânia, como o Drácula. Nem mesmo a mordida deles no cinema é parecido com a mordida de um morcego real. O único filme de vampiro em que o dente realmente lembra um pouco o de um morcego hematófago é o primeiro ‘Nosferatu’. Ainda não vi o novo, então não posso dar a minha mordida final.”

