Pouco mais de uma hora depois de virar réu por tentativa de golpe, Jair Bolsonaro convocou a imprensa para um pronunciamento. Falou por 49 minutos ininterruptos, com transmissão ao vivo na TV.
O ex-presidente começou em tom humilde. Agradeceu a presença dos jornalistas e disse estar “muito feliz” ao reencontrar os microfones. Em seguida, voltou a encenar o papel de vítima.
“Ontem eu fui ao Supremo. Hoje resolvi não ir. Obviamente eu sabia o que ia acontecer”, disse, antes de chamar o julgamento de “teatro processual”.
“Eu espero hoje botar um ponto final nisso aí. Parece ser algo pessoal contra mim. A acusação é muito grave. E são [sic] infundadas”, prosseguiu.
Com papeis na mão, Bolsonaro prometeu revelar “muitas novidades” sobre o caso. Mas repetiu versões conhecidas para a minuta do golpe, os atos antidemocráticos e o assédio aos comandantes militares.
“Estou sendo acusado de tentativa de golpe. Da forma incisiva como o ministro Alexandre de Moraes se conduz, tem algo esquisito por aí. O que ele quer esconder?”, insinuou.
Exaltado, o capitão voltou a atacar as urnas eletrônicas e o Tribunal Superior Eleitoral. Sem apresentar provas, insinuou que houve adulteração dos resultados das últimas três eleições presidenciais.
“O TSE influenciou, jogou pesado, contra eu (sic) e a favor do candidato Lula”, disse, sobre a disputa de 2022. “Eu que sou golpista? Eu que sou golpista?”, perguntou a si mesmo.
Em tom conspiratório, ele repetiu a versão de que o 8 de Janeiro, liderado por seus apoiadores, teria sido uma “artimanha” de esquerdistas infiltrados.
“O nosso pessoal não faz baderna”, justificou, na contramão das investigações que identificaram e levaram à punição de militantes bolsonaristas.
Na primeira fala pública após virar réu no Supremo, Bolsonaro exerceu o que juristas chamam de “jus sperniandi”. A brincadeira usa uma falsa expressão em latim para descrever o “direito de espernear”. É o que cabe aos acusados que não encontram mais álibis para se defender.
Sem fatos novos a oferecer, o ex-presidente se recusou a responder perguntas dos repórteres. Na parte final do monólogo, ele reviveu os tempos de cercadinho. Reeditou a retórica anticomunista e atacou o governo Lula, a Venezuela, a China e a imprensa.
O Lula quer botar o Brasil no colo da China”, esbravejou, antes de elogiar sua própria gestão e os ministros que nomeou.
Num momento de humor duvidoso, Bolsonaro citou a medalha de “imbrochável”, que oferece a aliados, e arriscou uma piada com o implante de testosterona que diz usar.
“Agora em todo lugar que eu vou, [gritam] ‘Chip! Chip! Chip!’ Qual é o problema?”, perguntou, enquanto o advogado Paulo Cunha Bueno sorria amarelo a seu lado.
Antes de encerrar, o ex-presidente retomou o apelo por uma anistia em benefício próprio. “Anistia é perdão, é passar a borracha. É fazer o Brasil voltar à normalidade”, argumentou.
O discurso não deve convencer os ministros da Primeira Turma do Supremo, que rejeitaram as teses da defesa e decidiram abrir a ação penal por 5 votos a 0. Mas abasteceu a militância de extrema direita com novos cortes para as redes sociais.
Ouça meu comentário na CBN:
