Nem tente ajustar o brilho e o contraste da sua tela, não vai adiantar. O primeiro episódio de “O eternauta” se desenrola todo quase no escuro — e isso irrita. Apesar desse início ambientado em um apagão noturno, no capítulo seguinte amanhece. Aí, garanto, a produção mostra a força do audiovisual argentino. Portanto, leitor, não desista logo de saída. A aventura dirigida por Bruno Stagnaro para a Netflix tem seus méritos e seu público-alvo.
Baseada nos quadrinhos de ficção científica de mesmo nome, a série adapta um clássico argentino criado na década de 1950 por Héctor Oesterheld e ilustrado por Francisco Solano López. Oesterheld, militante do grupo guerrilheiro Montoneros, foi sequestrado pela ditadura militar em 1977 e desapareceu. Essa é sua maior criação e, como toda a sua obra, traz um forte tom político. A história se passa em um mundo pós-apocalíptico, onde, como em outras tramas do gênero, o foco é a reconstrução da ordem social e a busca pela sobrevivência. Isso faz com que ela dialogue com títulos como “The walking dead” — também originada dos quadrinhos — e “The last of us”, adaptada de um videogame. É uma visão sociológica traduzida para a linguagem pop.
Quando o enredo começa, acompanhamos Juan Salvo (Ricardo Darín) e um grupo de amigos que se reúnem na casa de um deles para jogar truco. É um clássico ambiente masculino, em que a camaradagem se mistura a pequenas disputas de ego. O clima é de brincadeira regada a uísque e movida a testosterona. Até que a luz cai, os celulares ficam inoperantes e todos notam que algo está muito errado. É verão, mas, pela janela, eles avistam a neve caindo. Todas as máquinas pararam de funcionar, com exceção de alguns carros antigos e de um aparelho de rádio amador. Através dele, o grupo consegue se comunicar com alguém no Uruguai, que informa que o cataclismo atingiu todo o continente sul-americano, quiçá o mundo — ele sabe disso porque falou com alguém no Sul do Brasil. Começam as disputas pela liderança e a busca por suprimentos. Assim, os personagens deixam a casa e passam a circular num mundo extremamente perigoso. A aventura se precipita numa Buenos Aires coberta por flocos nefastos, que matam ao mínimo contato. Logo também surgem monstros — a causa da hecatombe.
O roteiro tem furos e várias das situações se resolvem de forma fácil, evidenciando a falta de ideia melhor de quem o escreveu. Além disso, os personagens usam máscaras grande parte do tempo, o que atrapalha sua identificação e traz um efeito cômico involuntário. Porém, a realização é de alto nível. Uma aura de fantasmagoria envolve tudo e a fotografia é linda. A presença de Ricardo Darín legitima a trama, que oscila entre eletrizar e perder o encanto. Ao lado dele está um ótimo elenco: Carla Peterson, Marcelo Subiotto, César Troncoso, Andrea Pietra, Ariel Staltari e outros.
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Entre altos e baixos, há muito o que apreciar em “O eternauta”.
