A extraordinária sequência de ventos políticos favoráveis ao setor de criptomoedas em Washington chegou a um fim abrupto. Com os democratas prestes a assumir o controle do Congresso após sua expressiva vitória nas eleições de meio de mandato, o setor enfrenta a perspectiva de regras mais rigorosas e de um escrutínio mais intenso sobre seus vínculos com o presidente Donald Trump.
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Durante dois anos, o setor desfrutou de algo que poucas empresas conseguem obter na capital americana: um presidente que colocou os ativos digitais entre as prioridades nacionais, ao mesmo tempo que acumulava sua própria fortuna com criptomoedas; órgãos reguladores que abriram caminho para uma adoção mais ampla desses ativos; e um Congresso de maioria republicana simpático à sua agenda.
Agora, o setor de criptomoedas enfrenta o desafio mais difícil de se consolidar como uma força duradoura no sistema financeiro, justamente quando sua extraordinária vantagem política começa a desaparecer. A vitória expressiva dos democratas ameaça dificultar a aprovação de uma legislação abrangente nos termos desejados pelo setor e aumenta a possibilidade de investigações parlamentares sobre os negócios de Trump com criptomoedas.
— Muitas figuras importantes do setor cripto se alinharam à família Trump — afirmou Austin Campbell, especialista em criptomoedas e ex-banqueiro, atualmente professor adjunto da NYU Stern School of Business.—É provável que essas escolhas acabem cobrando seu preço.
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Trump ficou conhecido por lançar seus próprios criptoativos, receber executivos do setor na Casa Branca e incorporar as ambições da indústria à sua agenda política. Em contrapartida, as maiores conquistas do setor cripto passaram a ser fortemente associadas à sua presidência, embora seus interesses financeiros pessoais tenham complicado os esforços da indústria para conquistar um apoio político mais amplo.
Sinalização relacionada ao Bitcoin em Nova York
Michael Nagle/Bloomberg
Tudo isso chegou a um ponto crítico em setembro, quando o Senado não conseguiu aprovar o avanço do Clarity Act, projeto de lei que estabeleceria regras mais claras para corretoras e outras empresas que atuam com ativos digitais.
Os negócios de Trump com criptomoedas tornaram-se um dos principais pontos de tensão, embora divergências sobre recompensas oferecidas por stablecoins, proteção aos investidores e concorrência com o setor bancário também tenham contribuído para o impasse.
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A eleição agora deve mudar os termos desse debate. Os democratas já sinalizaram que pretendem exigir restrições éticas mais rigorosas, maior proteção aos consumidores e um papel mais amplo para a Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de valores mobiliários dos Estados Unidos, na supervisão dos ativos digitais.
Essas mudanças se afastariam do modelo defendido por muitas empresas do setor cripto durante o controle republicano do Congresso, mas também poderiam abrir um novo caminho para a aprovação de uma legislação, caso a indústria consiga construir apoio entre os dois partidos.
— Pelo menos inicialmente, o setor adotará uma postura defensiva enquanto se adapta à nova liderança — afirmou Adam Minehardt, diretor de políticas públicas do Hyperliquid Policy Center.
As grandes apostas políticas feitas pelo setor também podem trazer consequências. Sherrod Brown, derrotado em 2024, quando grupos de lobby ligados ao setor cripto desembolsaram milhões de dólares para financiar uma campanha contra ele, derrotou o senador republicano de Ohio, Jon Husted.
Segundo a consultoria de pesquisa Capstone, Brown poderá assumir um cargo de destaque no Comitê de Agricultura do Senado, responsável pela supervisão da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), uma das principais autoridades reguladoras do setor de criptomoedas nos Estados Unidos.
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O controle do Congresso pelos democratas também amplia o poder de investigar os interesses empresariais de Trump. Parlamentares já solicitaram informações sobre empreendimentos que envolvem o presidente e sua família. Trump tem negado sistematicamente que seus interesses comerciais entrem em conflito com suas atribuições presidenciais.
A deputada democrata da Califórnia, Maxine Waters, crítica ferrenha dos vínculos de Trump com o setor de criptomoedas, deverá exercer maior influência no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes. Já a senadora democrata por Massachusetts, Elizabeth Warren, deverá assumir a presidência do Comitê Bancário do Senado.
— Teremos uma agenda efetiva de fiscalização, conduzida por presidentes de comitês com poderes ampliados — afirmou Minehardt. —Já estamos percebendo sinais disso nos gabinetes de diferentes parlamentares. Eles vão acionar todos os mecanismos possíveis e investigar até onde isso pode levar.
Ainda assim, será difícil reverter muitos dos avanços conquistados pelo setor cripto. A legislação federal sobre stablecoins exigiria a aprovação de uma nova lei para ser revogada, enquanto a Securities and Exchange Commission (SEC) e a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) continuam elaborando regras que podem integrar ainda mais os ativos digitais aos mercados financeiros tradicionais.
Esse trabalho pode prosseguir durante o governo Trump, independentemente do resultado eleitoral, embora administrações futuras possam rever as decisões tomadas pelos órgãos reguladores.
O Congresso dispõe, contudo, de instrumentos para influenciar a atuação dos órgãos reguladores, como o controle orçamentário, afirmou Tyler Gellasch, diretor-executivo da Healthy Markets Association.
Segundo ele, o Congresso pode tentar impedir que essas agências utilizem recursos em questões de política regulatória das quais discorda. Gellasch lembrou que os republicanos recorreram a esse mecanismo durante anos para impedir que a SEC adotasse regras que exigissem a divulgação de gastos políticos. O Congresso também pode investigar decisões das agências reguladoras e suas relações com empresas favorecidas politicamente, acrescentou.
O mercado apresenta um desafio diferente. O histórico do Bitcoin, marcado por fortes ciclos de valorização e desvalorização durante governos de ambos os partidos, dificulta qualquer tentativa de atribuir suas perspectivas de preço às decisões tomadas em Washington.
O Bitcoin continua sendo negociado bem abaixo de suas máximas anteriores, apesar do alívio regulatório e do apoio político durante o governo Trump, que alimentaram as expectativas de uma era de ouro para os ativos digitais.
O recente ataque hacker à Binance evidenciou outro desafio: a segurança. A corretora sofreu perdas de US$ 6,3 bilhões, mas desde então conseguiu recompor, na prática, os valores em criptomoedas que haviam sido roubados, utilizando uma combinação de recursos de seu próprio caixa corporativo e de dois fundos de seguro.
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— O setor de criptomoedas precisa tirar esses ataques hackers das manchetes — afirmou Peter Atwater, professor adjunto de Economia da William & Mary. —A repetição desses episódios importa. Será interessante observar se isso levará os democratas a promover uma mudança na orientação regulatória, com maior ênfase na segurança e na solidez financeira.
Em última análise, as perspectivas do setor cripto vão muito além de sua aliança com Trump. Os ativos digitais abrangem hoje fundos de investimento, pagamentos com stablecoins e infraestruturas financeiras que envolvem instituições cujos interesses ultrapassam a duração de qualquer mandato presidencial.
Para um setor que busca conquistar clientes em todo o espectro político, uma identidade menos partidária poderá, em última análise, representar uma vantagem, e não um retrocesso.
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Os representantes da indústria já estão enfatizando suas ambições de construir pontes entre os dois partidos.
— Os ativos digitais sempre tiveram caráter bipartidário, e estamos prontos para trabalhar tanto com os novos parlamentares quanto com aqueles que retornam ao Congresso, de ambos os lados do espectro político — afirmou Ji Kim, diretor-executivo do Crypto Council for Innovation.
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