O bairro de Botafogo vive um cenário de agravamento da insegurança. É o que mostram dados extraídos da ferramenta interativa Mapa do Crime, desenvolvida pelo GLOBO. Os índices escancaram o crescimento expressivo dos principais tipos de roubo na região. Com 653 casos de assaltos a transeuntes, 423 roubos de celulares e 128 registros de veículos levados por criminosos, Botafogo não só lidera a estatística na Zona Sul em todas essas modalidades como também se tornou um dos epicentros da criminalidade na cidade.
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O aumento é expressivo em todas as frentes. Os roubos a transeuntes subiram 67,4% em relação a 2023, quando foram registrados 390 casos. Os crimes envolvendo celulares mais que dobraram: foram 207 ocorrências no ano anterior, contra 423 agora — uma alta de 104,3%. Já os roubos de veículos saltaram de 57 em 2023 para 128 em 2024, um crescimento alarmante de 124,6%. Ao todo, a Zona Sul da cidade registrou 452 casos de roubos de veículos no último ano. Botafogo sozinho respondeu por mais de um quarto desses crimes. Embora esteja na 47ª colocação no ranking geral da cidade, dominado por bairros das zonas Norte e Oeste, Botafogo lidera com folga na Zona Sul.
Na localidade, o único tipo de roubo que apresentou queda foi o praticado dentro de transportes coletivos, com 36 registros, uma diminuição de 39% em relação aos 59 casos do ano anterior. Ainda assim, Botafogo vive uma rotina de medo. Felipe Fernandes, morador da Rua Voluntários da Pátria há sete anos, relata situações que testemunhou de sua janela.
— Vi uma tentativa de furto a uma menina, quando um menor tentou puxar a corrente dela, e ela quase caiu no chão. Ele saiu correndo. Teve um outro que chamou a atenção. Ouvi uma confusão e quando fui ver era uma tentativa de assalto na porta do meu prédio, por volta das 2h. Pela janela vi dois rapazes, um deles armado e com mochila. Eles estavam a pé, não de moto. Roubaram uma pessoa e depois seguiram pela Rua Dona Mariana — relata.
Fernandes percebe que a sensação de insegurança aumentou principalmente após a pandemia. Ele conta que mudou sua rotina para evitar passar por situações de risco:
— Cresceu o número de moradores de rua e usuários de drogas, principalmente em ruas mais desertas. Um detalhe que me chama a atenção é que o policiamento se concentra nas vias principais, que são justamente as mais movimentadas e com menor chance de ocorrências. As vias escuras e mais desertas não têm policiamento. Evito andar na rua depois das 23h. Gosto de Botafogo, mas não me sinto 100% seguro. Já deixei de caminhar à noite mesmo em trechos curtos e peguei Uber.
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A Dona Mariana, por onde fugiram os criminosos que Fernandes viu de sua janela, aparece em diversas ocorrências registradas. Vanessa Fraga Ribeiro, moradora da rua há 15 anos, relata a rotina de medo:
— No ano passado, meu marido e eu estávamos com nossa filha pequena na Rua Visconde de Caravelas. Ao entrar em um restaurante, um homem de moto apontou a arma e levou o cordão do meu marido. À noite, evito a minha própria rua. Costumo fazer um caminho maior para chegar ao meu prédio, dou a volta pelo outro lado para ir à academia e, para voltar, porque não quero atravessar a Dona Mariana. Já fui roubada ali também. A insegurança infelizmente virou rotina.
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Apesar de ser moradora de Copacabana, foi em Botafogo que a empresária Bianca Clark viveu um episódio traumático em setembro do ano passado.
— Íamos para um restaurante na Rua Paulino Fernandes e conseguimos encontrar uma vaga na rua para estacionar. Quando descemos do carro, minha nora disse: “Vamos ser assaltados”. Ela viu dois motoqueiros com mochilas de entrega que estavam indo e voltando pela rua. Eles se aproximaram, apontaram uma arma, mandaram a gente deitar no chão e levaram tudo, bolsas, alianças, cinco iPhones e um anel de ouro — conta.
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O que mais impressiona Bianca é que, quando os criminosos foram embora, uma família que mora em frente ao local da ocorrência se aproximou e disse que era o terceiro assalto que acontecia ali naquele dia.
— Não entendo como podem saber disso e nada ser feito. Depois daquele dia, nunca mais voltei a Botafogo, fiquei traumatizada. Aproveito para questionar o fato de a imagem do assalto ter circulado nas redes sociais. Foi humilhante rever aquela cena da gente deitada no chão. De que adiantam essas filmagens se não servem para coibir o crime, apenas expõem as pessoas? — questiona.
Para Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, o problema da criminalidade em Botafogo é estrutural. O especialista afirma que a localização do bairro e a ausência de estratégias de inteligência favorecem os crimes.
— Botafogo tem muito trânsito, o que facilita a abordagem a veículos, e conta com acesso rápido a várias regiões da cidade, inclusive a comunidades. As ruas escuras e a falta de policiamento efetivo agravam a situação. É necessário combater isso com inteligência. Os dados são apenas o começo de uma análise mais profunda. A cadeia do roubo de celulares, por exemplo, envolve quem rouba, quem desbloqueia e quem revende. A polícia precisa estar preparada para investigar essas redes — explica.
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O especialista reforça que apenas o policiamento ostensivo não é suficiente para reduzir a criminalidade no bairro.
— É preciso qualificar a polícia, criar equipes especializadas e melhorar as investigações contra as quadrilhas — acrescenta.
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Sobre as denúncias de moradores e imagens de câmeras de segurança que mostram homens em motocicletas usando mochilas de entregadores para cometer crimes, ele avalia:
— As entregas por aplicativo também criaram brechas de segurança, servindo como disfarce para ações criminosas. Muitos utilizam mochilas falsas para se misturar. Não adianta apenas proibir a venda desses itens na internet. É necessário regulamentar a compra de aparelhos roubados, impedir o comércio informal e investir em câmeras integradas, tecnologia e inteligência policial.
Regina Chiaradia, presidente da Associação de Moradores e do Conselho Comunitário de Segurança de Botafogo, critica o baixo efetivo policial no bairro.
— O Batalhão da Polícia Militar de Botafogo tem o menor efetivo da Zona Sul. São apenas 340 policiais para cobrir oito bairros (Glória, Catete, Laranjeiras, Cosme Velho, Humaitá, Flamengo, Botafogo e Urca). Em escala, são cerca de 80 por dia. Isso precisa mudar — alerta.
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Ela afirma que os roubos de celular estão entre as maiores queixas da população. Os moradores relatam medo de manusear o aparelho, mesmo em situações de necessidade.
— Temos grupos de WhatsApp com moradores e com o batalhão para que todos fiquem informados sobre o que acontece no bairro. Mas o medo é constante. Muita gente já evita sair à noite. Após as 22h, o policiamento diminui bastante — afirma.
De acordo com Regina, moradores solicitaram que a PM aumentasse a presença de agentes em motocicletas pelas ruas.
— Se os criminosos agem de moto, os agentes também precisam agir. Acreditamos que o patrulhamento sobre duas rodas seria mais rápido e eficaz. A PM disse que vai providenciar, mas ressaltou que os policiais ainda precisam ser treinados para isso — completa ela.
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Uma lista de pontos críticos
Moradores de Botafogo indicam pontos específicos de tensão no bairro, como as passagens subterrâneas na orla.
— Essas passagens são extremamente necessárias para os pedestres, mas todos sabem que são muito perigosas. Eu ando muito de bicicleta elétrica para me locomover e usava bastante essas passagens, mas, quando começaram a roubar também bicicletas elétricas na cidade, passei a me arriscar mais pelo trânsito — conta a estudante Nicole Macêdo.
Trechos como o da Praia de Botafogo até a Rua Fernando Ferrari, o entorno do Colégio Imaculada Conceição, as redondezas das universidades Santa Úrsula e Facha e a Rua Muniz Barreto são conhecidos por serem áreas perigosas. O estudante Pedro Gomes relata que, após ser assaltado em uma dessas localidades, mudou o trajeto diário da escola para casa.
— Eu tinha saído da minha escola em Botafogo e estava indo para Laranjeiras. Quando cheguei próximo à Santa Úrsula, dois menores arrancaram meu cordão. Fui atrás deles, mas apareceram mais três, e acabei sendo agredido. Eles tinham saído de um ônibus que seguia em direção a Botafogo e, depois de me roubar, voltaram para dentro do coletivo — recorda Gomes.
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Há dez anos, um caso que chocou o bairro e toda a cidade foi o assassinato do estudante Alex Schomaker Bastos, morto em um ponto de ônibus na Rua General Severiano. A vítima foi surpreendida por dois criminosos em uma motocicleta. Ele tentou reagir ao roubo da mochila e do celular e acabou atingido por sete disparos.
— Esse caso foi muito marcante na época, mas o que mais me chama a atenção é que, há dez anos, os roubos cometidos por criminosos em motos já ocorriam. Agora, são mais comuns. As autoridades já poderiam ter encontrado uma forma de coibir esse tipo de ação, mas só piorou — opina a administradora Tânia Ramos.
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Com o agravamento da criminalidade em Botafogo, a atenção se volta também para a Urca, bairro vizinho conhecido por sua tranquilidade. Apesar da fama de área segura, os relatos mais recentes apontam aumento dos índices de roubo em 2024.
De acordo com o Mapa do Crime, os números de crimes registrados na Urca ainda são baixos, mas os casos de roubo de celular vêm crescendo nos últimos anos (com exceção de 2021). Foram sete registros em 2020, apenas um em 2021, 12 em 2022, 14 em 2023 e 21 em 2024 — um aumento de 50% nos últimos dois anos.
— O 2º BPM tem feito um ótimo trabalho, mas falta efetivo. Já pedimos reforços. Eles mantêm uma viatura na Avenida Pasteur, entrada e saída do bairro, mas não dá para fazer milagre. O comandante atual é excelente, mas é urgente aumentar o contingente — afirma Cileneia Paradela Ferreira, presidente da Associação de Moradores da Urca.
A equipe de reportagem do GLOBO-Zona Sul pediu uma entrevista com o comandante do 2º BPM e informações à Polícia Civil, mas não foi atendida.