Depois da assinatura dos acordos de cooperação que serviriam de base para o Mercado Comum do Sul (Mercosul), os então presidentes do Brasil e da Argentina, José Sarney e Raul Alfonsín, tiveram uma reunião no gabinete presidencial, na Casa Rosada, em Buenos Aires, com embaixadores de diversos países da região. “Os senhores devem levar em consideração que este acordo está aberto a todos que compõem esse grande país chamado América Latina”, disse Alfonsín, na presença de dezenas de jornalistas, naquela quarta-feira, dia 30 de julho de 1986, há 40 anos.
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Na véspera, os dois chefes de Estado haviam assinado doze protocolos de cooperação que permitiam a formação de um espaço comum para o crescimento de ambos os países. O objetivo declarado era, com a união, superar os obstáculos do momento e os desafios do século XXI. O firmamento daqueles acordos foram o passo seguinte à Declaração de Iguaçu, na qual os dois governos puseram as antigas rivalidades de lado em prol do desenvolvimento econômico. A data daquele encontro, ocorrido em 30 de novembro de 1985, seria reconhecida mais tarde como o Dia da Amizade Brasil-Argentina.
A declaração enterrava rivalidades surgidas bem antes da rixa no futebol. Argentina e Brasil travaram conflitos territoriais no século XIX (guerras da Cisplatina e do Prata), uma preocupante corrida nuclear nos anos 1970 e uma disputa por recursos, quando os “hermanos” protestaram em fóruns globais contra as obras da Usina Hidrelétrica de Itaipu, temendo que afetassem o curso de rios que chegaram a seu território, em 1973. A atual crise diplomática criada pelo presidente argentino, Javier Milei, ao hostilizar o colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, é a mais grave desavença desde então.
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“Brasil e Argentina vivem hoje um momento amado e nada armado”, disse Sarney depois da assinatura dos tratados em 1986. “Chegamos à conclusão de que, isoladamente, nossos países pouco ou quase nada irão mudar na ordem mundial. Juntos, ao contrário, haveremos de saber influir gradativamente nas decisões internacionais que nos interessam”, afirmou o então presidente brasileiro, acrescentando que era necessário criar mecanismos de defesa conjunta do protecionismo dos países desenvolvidos. “A corrida começa no primeiro passo. Vamos caminhar. Vamos voar. Navegar. Crescer juntos.”
Presidentes de Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai na assinatura do Mercosul
Mino Pedrosa/Agência O GLOBO
Presente no encontro, o então presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, foi convidado a integrar o bloco e aceitou prontamente. “Aceitamos porque o Uruguai é um país que não tem complexos. Aliás, temos apenas o complexo de superioridade no futebol”, disse o bem-humorado mandatário.
Durante os três dias que passou em Buenos Aires naquele julho de 1986, José Sarney fez questão de falar sempre em espanhol, tanto nas declarações públicas quanto nas conversas informais. O sotaque nordestino do político maranhense não impediu que os argentinos elogiassem a atitude. Durante uma visita do presidente brasileiro à Câmara Municipal de Buenos Aires, a vereadora Adelina Viola chegou a sugerir a oficialização do “portunhol” como idioma a ser usado durante encontros diplomáticos entre os dois países. “Mas é esse idioma que eu estou falando aqui”, respondeu Sarney, aos risos.
Os acordos de 1986 em Buenos Aires serviram de base para o Tratado de Assunção, assinado pelos presidentes de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, em março de 1991, visando a construir uma zona de livre-comércio entre os quatro países, denominada Mercado Comum do Sul (Mercosul).

