Mas, para surpresa de muitos, o Rio de Janeiro também tem solo e clima ideais para o cultivo do cacau. Por aqui, um movimento local vem ganhando força e mostrando que o estado tem potencial para entrar com destaque nesse mapa. De origem amazônica, o cacau encontrou na Mata Atlântica um ambiente ainda mais propício para se desenvolver. E é justamente aí que o Rio entra nessa história.
O cacau é a commodity agrícola que mais se valorizou em 2024. Segundo dados da Bolsa de Chicago, o preço da tonelada da amêndoa passou de US$ 4.200 em janeiro para US$ 12.260 em abril — alta de 191%. Em junho, o preço estava em US$ 8.600, ainda mais do que o dobro do início do ano.
A valorização se deve à baixa oferta global. A previsão é que a defasagem entre oferta e demanda se mantenha até 2029. No Brasil, cerca de 93% da produção de cacau é absorvida pelas grandes indústrias, que processam o produto em larga escala. Mas uma fatia pequena — cerca de 4% — dá origem ao chamado bean to bar, que vai da amêndoa à barra, com foco em qualidade, rastreabilidade e justiça social. E é nesse segundo movimento que o Rio quer se tornar mais forte. O estado não pretende competir com os grandes produtores em volume, como a Bahia, mas em qualidade.
De Paraty a Bom Jesus do Itabapoana, passando por Cachoeiras de Macacu e Rio Bonito, o estado tem cerca de 50 produtores: alguns têm 5 pés ou outros chegam a ter 30 mil. No final de abril, mais de 40 chocolateiros, produtores de cacau, representantes do governo estadual e federal se reuniram para estimular a produção de cacau orgânico no Rio de Janeiro. Na liderança da reunião está Patrícia Nicolau, pesquisadora de cacau e chocolate pelo CNPQ através da UFRJ, que desde 2016 luta para que esta iniciativa se fortaleça. Tanto que fundou o coletivo Movimento Cacau RJ, que reúne produtores de cacau e chocolate.
– O que eu quero é que essa cultura do cacau se estabeleça nesse estado, que as pessoas entendam o que é, que isso possa estar no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), na merenda escolar, no cacau em pó do pequeno agricultor.
A curiosidade da paulista pelo cacau e pela gastronomia vem da infância. Patrícia estudou, pesquisou, foi para a Amazônia, Bahia, e, quando chegou ao Rio, achou que não encontraria a fruta por aqui. Pelo contrário: viu um campo aberto, cheio de possibilidades, mas ainda pouco explorado.
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– E aí começou toda essa militância, esse ativismo pelo cacau, que me acompanha até hoje. E, assim, o ponto de partida, para mim, não é o chocolate. O ponto de partida de tudo é o solo, é a agricultura, é o cacau, é o consórcio que ele promove. Então, assim, o cacau é muito mais do que fazer chocolate. Ele é relação, ele é sustentabilidade, ele é igualdade na roça, ele é consórcio, porque o cacau não sobrevive se não tiver o cupuaçu, a banana, a pimenta-do-reino, o café, a seringa. Assim, quando temos uma roça de cacau, a gente tem outras culturas associadas que trazem muita coisa, que fazem um papel lindo e gigantesco. Para mim, o cacau é maravilhoso, é tudo.
O solo é fértil, mas faltava conhecimento e incentivo. Por diversas vezes, Patrícia treinou produtores para uma agricultura mais sustentável, para explicar como fazer o manejo.
A paixão pelo cacau também move o empreendedor Ronaldo Menezes. Na época em que era estudante de comunicação e morando no Complexo de Israel (Brás de Pina, na Zona Norte do Rio), ele começou a fazer brownies para complementar a renda. Ao investigar o rótulo do chocolate que usava, se surpreendeu: tinha de tudo, menos cacau. Eram diversos aditivos.
Foi então que começou a estudar a cadeia produtiva. De um lado, encontrou relatos de exploração e degradação ambiental, especialmente na produção massiva nos países de África. Do outro, descobriu o assentamento Dois Riachões, no sul da Bahia, onde quilombolas produziam um chocolate limpo e de forma justa.
– Ali eu começo a minha contradição: como o mesmo produto pode atravessar uma forma tão desigual e feia e, ao mesmo tempo, ser tão nobre? O commodity é industrial, é um cacau que você não tem essa preocupação: você colhe, maneja de qualquer maneira, porque a indústria vai lá e compra, porque quer preço. Depois ela joga uma torra muito alta, aromatizante, muito açúcar, e o gosto se disfarça todo.
Em 2022, Ronaldo fundou a Black Cacau, com foco em uma cadeia produtiva majoritariamente negra. Ele passou a comprar matéria-prima do coletivo Mulheres Pretas do Chocolate, criado por Patrícia Nicolau, que reúne agricultoras de vários estados, inclusive assentadas.
— Quando conheci as Mulheres Pretas do Chocolate, consegui estabelecer uma relação direta com as produtoras. Passei a negociar o cacau com elas, especialmente no sul da Bahia, e foi a partir dessa conexão que nasceu, de fato, a Black Cacau. Criamos uma empresa que transforma o cacau — vindo da biodiversidade dos biomas brasileiros — em chocolate, valorizando uma cadeia produtiva majoritariamente negra. O cacau saía das mãos dessas mulheres e chegava até nós, onde era transformado em chocolate. Era uma relação direta, sem intermediários: apenas quem produz o cacau e quem faz o chocolate. Simples assim.
Com a Black Cacau, Ronaldo foi um dos destaques do Shell Iniciativa Jovem, um programa de fomento ao empreendedorismo.
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Nesta busca pelo produto sustentável, ele e Patrícia se encontram e começam a pensar nessa cadeia produtiva de cacau aqui no estado. Descobrem uma grande variedade em relação ao tamanho da produção, mas, em comum, têm uma questão: todos têm capacidade produtiva, mas não manejam a árvore e não produzem o cacau fino. E o que falta para o estado se tornar uma potência? Patrícia responde: apoio.
O principal entrave hoje é a falta de incentivo. Celso Merola, chefe da divisão de desenvolvimento rural do Ministério da Agricultura no estado, explica que até a falta de conhecimento de que o Rio é um estado produtor dificulta a liberação de verbas e emendas parlamentares em prol da produção.
– Estamos buscando recursos, por meio de emendas de deputados federais e do Ministério da Agricultura, para apoiar esses produtores. O trabalho está avançando. Nosso objetivo é aproximar todos os atores da cadeia produtiva e abrir espaços para atuação, tentando obter apoio direto do Ministério para o setor. Durante muito tempo, o setor responsável pelo chocolate ignorava a produção no Rio de Janeiro, e as tentativas de conseguir recursos eram barradas, pois o estado não fazia parte do universo reconhecido da produção de cacau. Agora, estamos promovendo um movimento para que o Rio de Janeiro seja reconhecido como produtor de cacau e chocolate, com uma produção em expansão.
Ele destaca que o cacau orgânico produzido no Rio de Janeiro é valorizado no mercado, o que representa uma boa alternativa para os produtores. No entanto, os resultados virão a médio e longo prazo.
Com os recursos, a ideia é criar infraestrutura para apoiar os produtores, incluindo a produção de mudas de qualidade e treinamento. Segundo ele, é essencial ter material genético de qualidade para a produção das mudas, e o treinamento é voltado tanto para os produtores quanto para profissionais que atuam na produção do chocolate, envolvendo várias pessoas na cadeia.
– Enxergamos boas possibilidades para a produção de cacau em sistemas agroflorestais, especialmente nas áreas de Mata Atlântica, onde é possível recuperar áreas degradadas com cultivos integrados ao meio ambiente. O cacau cultivado entre outras plantas, o que é uma prática sustentável e promissora, mas que exige um trabalho de médio a longo prazo.
Com a reunião de abril organizada por Patrícia, algumas iniciativas começaram a surgir e outras foram fortalecidas. O Sebrae Rio, por exemplo, está mapeando e apoiando iniciativas ligadas à produção de cacau no estado, que, embora ainda incipiente, apresenta grande potencial de crescimento. De acordo com Daniel Freitas, representante do Sebrae Rio, o trabalho envolve articulação com diversas instituições, como a Secretaria de Agricultura e o Governo do Estado, além de produtores locais.
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Atualmente, o Sebrae atende três produtores de cacau no estado, com perfis bem variados — desde quem cultiva 150 pés até quem tem áreas com até 30 mil pés plantados.
– Estamos no início, ainda estudando o potencial, mas já começamos as capacitações.
Ele compara o potencial do cacau do Rio ao que já acontece com outros produtos agrícolas do estado que, apesar de pouco tradicionais, estão conquistando reconhecimento, como o café e até a vitivinicultura.
– O café do Rio já vem ganhando prêmios, e hoje temos produção de uvas e vinhos onde antes ninguém acreditava que seria possível.
Cachoeiras de Macacu é potência
Cachoeiras de Macacu, município do estado do Rio de Janeiro conhecido por um grande produtor nacional de goiaba para consumo in natura, está investindo na diversificação agrícola com um olhar especial para o cacau.
Segundo Jorge Rafael, supervisor local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural no município, o município tem um índice pluviométrico excelente e áreas com declividade, que não servem para outros cultivos, mas são perfeitas para o cacau. Além disso, há várias áreas em regeneração.
O município, que já conta com forte produção de goiaba, maracujá e banana d’água, promoveu recentemente um encontro com mais de 100 produtores interessados no cultivo do cacau, surpreendendo as expectativas iniciais, que previam a participação de apenas uma dúzia de agricultores.
O secretário municipal de Agricultura, José Marcos de Góis, explica que a iniciativa visa tanto o aumento da produção quanto a sustentabilidade ambiental. O objetivo é formar uma cadeia produtiva sólida, desde a produção até a venda, priorizando a qualidade e a sustentabilidade. Muitos produtores já trabalham com cacau orgânico e amêndoas de alta qualidade, consideradas entre as melhores do estado.
Góis revela que está visitando viveiros especializados para acelerar a produção, reduzindo o tempo para o primeiro cultivo de cacau de quatro para cerca de dois anos e meio. Além disso, a secretaria oferece assistência técnica gratuita, análise e preparo do solo, capacitação dos agricultores e acompanhamento constante.
– Queremos transformar Cachoeiras de Macacu na capital estadual do cacau, focando em uma produção mais orgânica e sustentável, utilizando manejo integrado para reduzir o uso de agrotóxicos.
Em 2009, começa a história de Carlos Cipriano com o cacau. Ele comprou uma fazenda em Cachoeiras de Macacu, que pertencia a um casal baiano , que preservava um cacaueiro plantado nos anos 1980. Determinado a mostrar que o Rio de Janeiro também é terra de cacau, Cipriano iniciou sua produção mesmo diante da incredulidade inicial do mercado.
– Ninguém acreditava que existisse cacau no Rio – lembra.
O apoio de Patrícia Nicolau, especialista no tema, foi fundamental nesse começo.
– Ela me ajudou na fermentação para amêndoa fina e na secagem. O Rio é muito úmido, então tivemos que aprender na prática.
Hoje, Cipriano já domina as técnicas para produzir amêndoas finas e abastece empresas como a Maré Chocolate e a Eco Foods, especializada em cacau vegano. As vendas chegaram a quase uma tonelada no ano passado.
Um dos desafios é que a área produtiva da fazenda está inserida na Reserva dos Três Picos, o que exige autorização do INEA para podas e manejo.
– Tenho que podar o cacau, tirar árvores que fazem muito sombreamento e causam aborto de frutos, mas preciso da licença, senão tomo uma multa violenta. Outro obstáculo é a presença maciça de jaqueiras (mais de 300 pés), uma espécie invasora que libera substâncias químicas no solo e inibe o crescimento de outras plantas. Estamos aprendendo a manejar isso, mas a terra aqui é maravilhosa. Aqui, o cacau dá quase oito meses por ano. Com manejo adequado, podemos ser um dos maiores produtores do mundo.
Para o secretário estadual de Agricultura, Dr. Flávio, o Rio de Janeiro vive um momento promissor com a consolidação do cacau como uma nova fronteira agrícola no estado.
– Com clima e solo favoráveis, políticas públicas em andamento e o protagonismo dos agricultores, a cultura começa a ganhar força em diversas regiões fluminenses como Serrana, Baixadas Litorâneas, Noroeste e Costa Verde. Mais do que um cultivo, o cacau representa uma oportunidade concreta de desenvolvimento sustentável, geração de renda e valorização das identidades locais. É o início de um novo ciclo que alia tradição, inovação e cuidado com o meio ambiente – destaca.
No final de maio, o Sítio Baobá, em Rio Bonito (RJ), foi o ponto de partida para a retomada das expedições promovidas pelo Movimento Cacau RJ. A iniciativa reuniu produtores, pesquisadores e entusiastas do chocolate para conhecer de perto o trabalho agroflorestal. O grupo também inaugurou o primeiro grupo de pesquisa e estudos sobre o cacau na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

