Quando não está correndo por uma propriedade nos arredores de Bangalore, um dos principais polos tecnológicos da Índia, Chloe, uma cadela de quatro anos, participa de uma missão pouco convencional: aprender a identificar sinais de câncer pelo hálito humano. O treinamento faz parte de um projeto que combina o olfato dos cães com inteligência artificial para tentar desenvolver uma forma simples e não invasiva de rastrear a doença.
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O procedimento testado pela empresa é relativamente simples. O paciente respira durante cerca de dez minutos em uma máscara de algodão, que depois é lacrada em uma bolsa e encaminhada ao laboratório. Lá, a amostra é apresentada aos cães treinados.
Chloe integra um grupo de 15 animais utilizados atualmente pela startup. A maioria é formada por beagles, além de malinois e mestiços de pastor, provenientes de adoções ou criadores autorizados.
— É como um traje de “Homem de Ferro” para cachorros — brincou Kulgod, que estudou ciências cognitivas na Universidade da Califórnia e vem de uma família de médicos.
Um estudo recente conduzido pela Dognosis reuniu mais de 1,5 mil participantes de seis hospitais do estado de Karnataka e foi publicado no “Journal of Clinical Oncology”. Segundo a empresa, o sistema alcançou uma taxa de precisão de 90% na identificação de sete tipos de câncer.
Os resultados despertaram interesse, mas especialistas que não participam do projeto recomendam cautela antes que a tecnologia seja considerada uma ferramenta de rastreamento estabelecida.
— O estudo é promissor, é um sinal inicial. Mas eles precisam realizar o estudo com grupos maiores antes que possamos tirar conclusões definitivas — afirmou Santhosh Kumar Devadas, chefe de oncologia do Hospital Memorial Ramaiah.
Neelesh Reddy, consultor de oncologia dos hospitais Manipal, também ponderou que “só o tempo dirá como essa tecnologia será útil para pacientes reais”.
A empresa pretende realizar novos estudos e planeja lançar comercialmente a tecnologia em 2027. A Dognosis também trabalha em parceria com instituições médicas governamentais indianas.
A possibilidade de criar um método de triagem barato e não invasivo ganha relevância especialmente na Índia, onde muitos casos de câncer ainda são diagnosticados em estágios avançados. A estimativa citada pelos pesquisadores é de que um em cada nove habitantes do país poderá desenvolver algum tipo da doença.
Trabalho de até 45 minutos por dia
O treinamento dos animais é baseado em reforço positivo. As amostras são colocadas em plataformas próximas a dispensadores automáticos de comida, que oferecem recompensas quando os cães apresentam a reação esperada.
Segundo Itmar Bitan, de 28 anos, cofundador da Dognosis e ex-integrante de uma unidade canina das forças especiais de Israel, cada animal pode manifestar a identificação de um odor de maneira diferente.
— Alguns cães correm diretamente para o dispensador esperando o prêmio, outros ficam paralisados e outros arranham a amostra, empolgados — explicou.
É justamente aí que entra a inteligência artificial. Em vez de exigir que todos os animais apresentem o mesmo comportamento, o sistema aprende o padrão individual de cada cachorro e procura reconhecer quando aquela reação está associada à amostra investigada.

