Acordar cedo, trabalhar, cuidar dos filhos, treinar, responder mensagens, manter compromissos e ainda encontrar disposição para repetir tudo no dia seguinte. Para muitas mulheres, uma agenda cheia passou a ser acompanhada pela tentativa de manter o mesmo ritmo por meio de café, pré-treinos e bebidas energéticas. O problema aparece quando os estimulantes deixam de ser um recurso pontual e passam a compensar noites maldormidas e períodos prolongados de estresse.
Insônia: por que o corpo está cansado, mas o sono não vem?
Você vive dizendo ‘estou só cansada’? Entenda quando é hora de prestar atenção
A cafeína, por si só, não precisa ser vista como vilã. O que importa é considerar a quantidade consumida ao longo do dia, a sensibilidade de cada pessoa e a combinação entre diferentes produtos. Café, suplementos pré-treino, energéticos e outras fontes de estimulantes podem se somar sem que o consumo total seja percebido.
“Muitas vezes, a pessoa não percebe o consumo total de estimulantes ao longo do dia. Ela toma café, utiliza um pré-treino e depois consome energético, por exemplo. Dependendo da quantidade e da sensibilidade individual, podem aparecer palpitações, aceleração dos batimentos, alterações da pressão e piora do sono”, explica o cardiologista Daniel Petlik.
O sono é um dos pontos que mais podem sofrer nesse processo. Quem dorme pouco tende a recorrer à cafeína para enfrentar o dia, enquanto o consumo de estimulantes em horários mais avançados pode dificultar novamente o descanso. Com o tempo, o recurso usado para lidar com a falta de energia pode contribuir para prolongá-la.
A cardiologista Bárbara Fagundes lembra que a prevenção cardiovascular não se resume a consultas e exames. “Sono, atividade física, alimentação, controle da pressão arterial e manejo do estresse fazem parte da saúde cardiovascular. Não adianta pensar em prevenção apenas como fazer exames. O que acontece repetidamente na rotina também importa”, afirma.
A popularização da cultura fitness acrescentou mais uma fonte de estimulantes ao cotidiano. Pré-treinos e bebidas energéticas passaram a acompanhar não apenas exercícios, mas também jornadas de trabalho extensas e períodos em que a pessoa já está fisicamente cansada.
“O estimulante pode diminuir temporariamente a percepção de fadiga, mas isso não significa que o corpo deixou de precisar de recuperação. É importante não transformar o cansaço em algo que precisa ser constantemente silenciado para que a pessoa continue produzindo”, ressalta Petlik.
A questão também envolve a forma como determinados sintomas são interpretados. Palpitações, falta de ar, desconforto no peito e queda significativa de rendimento podem ser atribuídos ao estresse, à ansiedade ou ao excesso de compromissos. Embora esses fatores possam provocar manifestações físicas, sintomas persistentes ou recorrentes merecem avaliação.
“Existe uma tendência de atribuir determinados sintomas à ansiedade, ao estresse ou simplesmente ao excesso de trabalho. Esses fatores realmente podem provocar manifestações físicas, mas sintomas persistentes, recorrentes ou intensos precisam ser avaliados. O fato de uma pessoa ser jovem, ativa ou aparentemente saudável não significa que deva ignorar aquilo que o corpo está sinalizando”, alerta o cardiologista Carlo Bonasso Filho.
Entre as mulheres, a ideia de alta performance também ultrapassou o ambiente profissional. Trabalhar, cuidar da família, manter uma vida social, treinar e seguir uma rotina de autocuidado podem se transformar em uma sequência de tarefas que deixa pouco espaço para recuperação. Nesse cenário, até o exercício físico, normalmente associado à saúde, pode entrar em uma lógica de cobrança por desempenho.
Para Bárbara, cuidar da saúde cardiovascular não deveria significar acrescentar mais uma meta à lista. “Saúde cardiovascular é construída com consistência. Não é necessário viver uma rotina perfeita, mas é importante observar se dormir mal, viver sob estresse e depender de estimulantes para conseguir atravessar o dia deixaram de ser situações pontuais e se tornaram o padrão”, pontua.
Também não existe uma quantidade de cafeína ou uma frequência de consumo que possa ser considerada adequada para todas as pessoas. Histórico cardiovascular, pressão arterial, medicamentos, presença de arritmias e sensibilidade individual podem alterar a resposta aos estimulantes.
“Uma pessoa pode tomar café e não sentir qualquer desconforto, enquanto outra percebe palpitação com quantidades menores. Por isso, copiar a dose de pré-treino, energético ou cafeína que alguém usa nas redes sociais não é uma boa referência para entender aquilo que é adequado para o próprio organismo”, acrescenta Daniel.
A questão, portanto, não é eliminar o café ou transformar a cafeína em um problema por si só. O ponto de atenção está em perceber quando estimulantes começam a ocupar o espaço que deveria ser preenchido pelo descanso.
Em uma rotina marcada pela busca constante por produtividade, a diferença pode estar justamente aí: usar um recurso para acompanhar o dia é uma coisa; precisar dele diariamente para conseguir chegar ao fim do dia é outra.
Café para acordar, energético para aguentar: quando o cansaço vira rotina
