Candidatos à Presidência da República criticaram, nesta quinta-feira, as decisões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro de não comparecerem ao debate da TV Globo, assim como a sequência de determinações do judiciário que levou a emissora a cancelar a transmissão.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) atribuiu a decisão a uma interferência do Supremo Tribunal Federal (STF) a favor do petista. O mineiro também se colocou como o “único candidato” que combate a classe dos “intocáveis” do Judiciário e negou rumores de desistência.
— Estamos vendo a justiça a serviço do Lula. Estamos assistindo mais uma vez uma total insegurança jurídica, mais do que antes. Estamos assistindo um novo patamar disso — disse Zema, que já se encontrava nos Estúdios Globo para participar do programa.
Em nota, o mineiro disse considerar “lamentável que o Supremo tenha provocado esse cenário, prejudicante a realização do debate e, consequentemente, a democracia brasileira”.
O ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) também culpou Lula pelo cancelamento do debate e disse que o país vive uma “ditadura da toga”, também em tom contrário ao STF.
— É um atentado à democracia brasileira. Destruíram o processo eleitoral no país. Não tivemos a oportunidade de promover debates. O Lula desde o primeiro momento fez questão de não só não comparecer. Mas buscar linha paralela em podcast. E a partir dai tivemos coisas mais graves. Como decisões do TSE e do STF. Querem chegar a um ponto de uma ditadura da toga. Onde querem escolher entre eles o próximo presidente do Brasil — disse o ex-governador de Goiás — Eu saí do meu estado com quase 90% de aprovação. É só não roubar. Veja bem, cheguei aqui com três horas de antecedência. Sou o único candidato que estive em todas as eleições, desde 1989.
Caiado também publicou uma nota nas redes sociais na qual afirma que o “judiciário se tornou o trágico protagonista dessa eleição” e que o país “não aguenta mais essa tutela e jogo de ‘tabuleiro'”. O ex-governador de Goiás acrescentou ainda que cancelamento “é a prova de uma contaminação completa no processo, decisões de gabinetes interferem em candidatos, atropelam regras e blindam a corrupção do PT e Lula”.
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Augusto Cury (Avante) também subiu o tom contra o STF, mas também atacou Lula e Flávio pela ausência. O psiquiatra disse que os adversários se “acovardaram” a decidir não participar do programa.
— Foi uma frustração tremenda para mim, porque eu não defendo o poder, não preciso dele e nem do salário. Eu tenho uma situação financeira privilegiada. Eles defendem e mamam o poder. O Flávio tem 40 assessores e Lula, só no Palácio do Planalto, tem 74 colaboradores — disse Cury. — O Supremo ganhou um protagonismo totalmente desproporcional, beira um colapso da democracia, infelizmente.
Nas redes sociais, Renan Santos disse que Flávio Bolsonaro teve “medo de última hora” após a Justiça determinar que o candidato do Missão participasse do evento. “Por que tanto medo de mim?”, escreveu Santos no X.
— Flávio Bolsonaro cancelou a participação três minutos após a minha participação ser oficializada. O medo que esse cara tem de mim — disse Renan, que acrescentou em outro trecho: — Os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro fugiram mais uma vez e por conta dessa fuga não haverá debate. Essa é uma eleição em que você não saberá as propostas da maior parte dos candidatos. Porque eles não querem falar.
Entenda
A TV Globo anunciou o cancelamento do debate presidencial previsto a noite desta quinta-feira. A emissora informou que recebeu há pouco duas intimações judiciais relacionadas à realização do encontro. A primeira é assinada pela ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e atende a um pedido da coligação da candidatura de Lula, do PT, à Presidência da República.
A ata com as regras, assinada por todos os partidos, inclusive o PT, determina que em caso de ausência do candidato, o púlpito reservado a ele seja mantido vazio no cenário com uma placa que o identifique. E que numa das rodadas de tema livre, os candidatos presentes que assim desejarem formulem em trinta segundos a pergunta que fariam ao candidato que não compareceu.
A decisão da ministra Estela Aranha proíbe o púlpito com o nome de Lula. E a formulação das perguntas que seriam feitas a ele.
A segunda intimação recebida pela Globo esta noite é de uma decisão proferida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e atende a um pedido feito pelo partido Solidariedade a respeito da participação no debate de Renan Santos, do Missão.
As regras que estabelecem que candidatos devem ser obrigatoriamente convidados para debates em rádio e TV são determinadas por lei e reguladas por portaria do Tribunal Superior Eleitoral.
Devem ser convidados obrigatoriamente os candidatos de partidos com representação de pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional.
Em atendimento a essa regra, a Globo convidou para o debate os candidatos Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Lula (PT).
Uma outra decisão, essa da última terça-feira (29), do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alterou entendimento do próprio TSE sobre contagem de parlamentares no Congresso para fins de debate e decidiu que Romeu Zema, do Novo, teria direito de participar.
A decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo, proferida há pouco, determinou a participação do candidato Renan Santos, mesmo o Missão, partido de Renan, tendo apenas um parlamentar no Congresso Nacional.
A Globo tem longa tradição na organização de debates eleitorais. Nosso propósito é promover a discussão de ideias para o Brasil. Oferecer aos eleitores a oportunidade de comparar projetos. Nosso dever é o de promover a democracia.
Mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa tem de organizar os debates eleitorais.
Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite. A Globo agradece aos demais candidatos e faz esses esclarecimentos em respeito aos eleitores e ao público que esperavam ter a oportunidade de ouvir propostas para o futuro do país.
Candidatos criticam ausência de líderes e decisões que levaram a cancelamento de debate
