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outubro 4, 2026
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'Caramba, como é que eu conseguia dançar tudo isso?': Deborah Colker revisita cenas clássicas de seu repertório em novo espetáculo

Por · outubro 4, 2026
'Caramba, como é que eu conseguia dançar tudo isso?': Deborah Colker revisita cenas clássicas de seu repertório em novo espetáculo


Quando Deborah Colkr começou a rever “Vulcão”, “Rota”, “4×4” e “Belle”, não estava apenas escolhendo coreografias antigas para levar novamente ao palco. A tarefa foi lembrar como aqueles movimentos haviam nascido — e descobrir o que ainda havia neles capaz de dizer alguma coisa no presente. Em um período que a coreógrafa descreve como de dificuldades pessoais (incluindo a perda de um neto e a doença do marido), olhar para a trajetória de sua companhia foi uma maneira de encontrar força na própria história. O resultado é “Remix”, espetáculo que reúne seis cenas de quatro trabalhos criados entre 1994 e 2014 e que chega à Cidade das Artes em 10 de outubro, para temporada até 2 de novembro.
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— O “Remix” veio de uma necessidade de olhar para dentro e buscar força na minha história. Eu e João (Elias, diretor-executivo da companhia) olhamos nossa história e encontramos força, identidade. E isso foi muito importante para mim, para os bailarinos e acredito que para o público — explica Deborah.
A escolha das cenas partiu de dois critérios: o impacto que provocaram no público e a capacidade de mostrar a força criativa da companhia. Entraram “Paixão”, de “Vulcão” (1994); “Delírios”, de “Belle” (2014); “As meninas” e “Vasos”, de “4×4” (2002); e “Gravidade” e “Roda”, de “Rota” (1997).
A seleção foi apenas o começo. Era preciso descobrir como esses trabalhos poderiam deixar de ser pontos isolados de um repertório e passar a funcionar dentro de um espetáculo novo. A montagem foi dividida em dois atos: o primeiro é mais intenso e explosivo. O segundo muda de registro e aposta em movimentos mais leves e fluidos.
A remontagem
Alguns dos bailarinos de ‘Remix’ ainda não eram nascidos quando parte das coreografias do espetáculo foi criada
Divulgação/Flavio Colker
A companhia já havia feito experiência semelhantes. “Mix”, de 1995, e “Vero”, de 2016, também partiram da combinação de trabalhos anteriores.
— Remontar não é só repetir os movimentos. O mais difícil é lembrar o contexto da criação. O pensamento que lhe deu origem — diz a coreógrafa.
O processo obrigou a própria Deborah a acessar as lembranças do corpo; outras precisaram ser recuperadas com a ajuda de vídeos. Também foi necessário decidir qual versão de determinadas coreografias deveria ser levada ao palco, já que algumas haviam passado por alterações. Em “Rota”, por exemplo, Deborah voltou a lidar com a roda que integra a coreografia. Em determinado momento, chegou a se perguntar como conseguia subir e dançar sobre a estrutura.
—Várias coisas eu falava: “Não vou pensar, espera aí que vai sair intuitivamente. E saía, eu lembrava — conta. — Aí eu entrei na roda e falei: “Caramba, como é que eu conseguia subir nessa escada, dançar nessa roda, dançar tudo isso?”.
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Alguns bailarinos que hoje fazem o espetáculo sequer haviam nascido quando essas coreografias foram criadas. É o caso de Luan Batista, de 31 anos, que está há nove anos na companhia.
O processo de remontagem é diferente de uma criação do zero. O bailarino assiste a vídeos, trabalha com antigos registros e recebe orientações. O desafio está em recuperar uma linguagem que já foi desenvolvida, mas sem deixar de encontrar uma nova maneira de executá-la.
— Olhar para os clássicos da companhia traz uma responsabilidade diferente. Mostrar a “Roda”, por exemplo, ao público é honrar uma das imagens que identificam nosso trabalho. Não é fácil pensar que há apresentações que fazem sucesso há mais tempo do que o que eu tenho de vida — revela o artista piauiense, que se encantou com a Companhia de Dança Deborah Colker ao assistir a uma apresentação na adolescência, no Festival de Joinville. — É um trabalho coletivo e contamos muito com a ajuda dos bailarinos mais experientes também. Alguns já dançaram essas coreografias antes, então nos dão toques nos ensaios.
A “roda” tem cinco metros de diâmetro, e, antes de incorporar a coreografia, é preciso aprender a controlar o movimento do equipamento. Primeiro, os bailarinos aprendem a se movimentar para frente e para trás e a controlar o peso e o equilíbrio. Depois, duas pessoas seguram cada lado da roda e, aos poucos, o grupo vai assumindo o controle do equipamento.
Já em “Vasos”, 90 peças ficam espalhadas pelo palco enquanto os bailarinos alternam movimentos de velocidade e delicadeza. A concentração precisa ser extrema.
Além da exigência física, a dimensão da montagem também é um desafio. De acordo com João Elias, grande parte do cenário de “Remix” foi reaproveitada, mas precisou ser atualizada. São mais de seis toneladas de elementos cênicos e cerca de 350 refletores. A cada apresentação, além dos oito técnicos fixos, cerca de outros 30 profissionais trabalham.
A estrutura de ‘Remix’
Em ‘Vasos’, os bailarinos dividem o palco com 90 objetos em cenário assinado por Gringo Cardia
Flávio Colker
A estrutura do espetáculo, também já apresentado no Theatro Municipal, na Cinelândia, fica guardada em um galpão em Duque de Caxias, onde recebe manutenção.
— Quando surgiu a ideia do “Remix”, eu pensei que a parte de estrutura seria fácil. Mas durante o processo é que eu me dei conta do tamanho e percebi que tinha arranjado um “problema” gigantesco — conta o diretor, bem-humorado.
Homenagem como ponto de partida
Não bastasse a roda, “Remix” tem também um piano. Em “As meninas”, parte de “4×4”, uma sonata de Mozart é executada ao vivo. Na montagem original, Deborah, que estudou piano desde criança, tocava e dançava. Agora, toca em algumas apresentações; em outras, uma pianista profissional assume a função.
— Eu era para ser musicista, mas a vida acabou me levando para a dança. É algo muito forte em mim. E, durante o tratamento do meu marido (o cantor Toni Platão, que sofreu um AVC), ouvi uma profissional da saúde dizer que estudos revelam que ouvir música clássica ajuda no bem-estar do cérebro e da mente; então, quis entregar isso ao público — conta.
Deborah Colker sobe ao palco para tocar no piano uma sonata de Mozart: momento faz parte da coreografia ‘As meninas’
Divulgação/Flavio Colker
Ela frisa que “Remix” não é só sobre olhar para trás. Para ela, revisitar 32 anos de carreira pode produzir uma experiência semelhante à de reler um livro, ouvir novamente uma música ou rever um filme; o conteúdo é conhecido, mas quem o reencontra é outra pessoa.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que “Remix” não foi construído como uma sequência cronológica. As seis cenas foram reorganizadas para criar dois atos com atmosferas diferentes. Em “Paixão”, parte de “Vulcão”, que abre o espetáculo, o tema não é o amor romântico, mas situações de impulso, fascínio e perda de controle. “Delírios”, de “Belle”, trabalha a tensão entre razão e instinto. “As meninas”, acompanhada ao vivo pelo piano, antecede “Vasos” e encerra o primeiro ato. No segundo, “Gravidade” retoma a relação com desequilíbrio e busca de equilíbrio. “Roda” fecha a apresentação, explorando o espaço e o movimento.
A história do espetáculo começou fora do palco. Em 2025, Deborah recebeu o título de Cidadã Honorária de Mesquita. Durante a cerimônia, crianças ligadas a uma escola de dança apresentaram uma coreografia inspirada em trabalhos da companhia. Havia ainda uma exposição com fotografias, desenhos e maquetes relacionadas à trajetória do grupo. João Elias estava presente e conta que aquela experiência os inspirou a olharem para trás.
Inspirado no romance “Belle de jour”, de Kessel, e no filme de Buñuel, tem coreografias baseadas na história da burguesa bem-casada que luta contra um vazio existencial
Divulgação/Flavio Colker
Segundo o diretor, ele e Deborah se deram conta de que as gerações mais novas só conheciam algumas das suas obras por registros. A partir disso, iniciou-se o pensamento de uma nova dramaturgia.
João Elias reforça, porém, que o espetáculo não deve ser entendido como uma simples reunião de cenas antigas. O que chega ao palco é uma tentativa de transformar três décadas de repertório em uma obra nova, atmosfera que a presença de jovens bailarinos ajuda a criar.
— O objetivo não é reproduzir o passado, mas descobrir o que ele ainda pode produzir quando colocado em contato com o presente — explica.
Para Deborah, o espetáculo está sendo encarado como uma bússola: uma maneira de perceber onde está a partir dos caminhos que já percorreu. Por outro lado, para quem não acompanhou a companhia desde o início, “Remix” oferece uma forma de encontrar esse passado sem tê-lo vivido.
— Eu quero que a pessoa saia diferente do que entrou. Que ela se divirta, que tenha alegria, emoção, que se apaixone, que se lembre de uma paixão — diz a coreógrafa.
“Remix” fica em cartaz na Cidade das Artes de 10 de outubro até 2 de novembro, com sessões às quintas e sextas, às 20h; e aos sábados, aos domingos e às segundas, às 16h. A apresentação tem duração de cem minutos, com um intervalo de aproximadamente 20. A classificação é 10 anos, e os ingressos custam entre R$ 25 e R$ 200.
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'Caramba, como é que eu conseguia dançar tudo isso?': Deborah Colker revisita cenas clássicas de seu repertório em novo espetáculo