Com seus “modestos 83 anos” e mais de 500 sambas escritos, além de 52 livros publicados, o carioca Nei Lopes abriu a programação oficial de sábado na Flip 2025 sendo aplaudido de pé assim que entrou no Auditório da Matriz para a mesa “Senhora liberdade”, batizada em homenagem a uma de suas canções mais famosas.
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De cara, o autor do recém-lançado “Dicionário de direitos humanos e afins” (Civilização Brasileira) encheu a plateia de otimismo:
— Daqui a pouco o Brasil vai ter jeito.
E daí em diante foi 1h de papo descontraído, mediado por Luiz Antonio Simas, com toda a bagagem de Nei sobre samba, História da diáspora africana, religiosidade e causos dessas oito décadas de vida, que, em breve, serão colocados numa autobiografia.
— Estou tendo possibilidade de fazer uma regressão nesse passado que me emocionada muito — disse o carioca, caçula de 13 filhos, o único que foi para a universidade. — Meu pai nasceu antes da abolição da escravidão e minha mãe, na passagem do século. Nenhum da família conseguiu ultrapassar a primeira etapa do ensino, o curso primário de antigamente. O primeiro fui eu. Cheguei à universidade sempre com apoio dos meus irmãos.
Foi um dos irmãos, que trabalhava numa gráfica, que percebeu as potencialidades de Nei e lhe presenteou com um livro aos 10 anos, sobre futebol e em inglês (Nunca fui bom de bola, mas comecei a aprender um pouquinho de inglês por causa do livro”, contou). Foi o início da trajetória como leitor, que, posteriormente, se transformaria também em escritor que, como disse Simas, é “dicionarista, enciclopedista e todos os istas da literatura”. Além da autobiografia, Nei Lopes trabalha neste momento numa obra sobre religiões de matriz africana de todo o continente americano, principalmente da região caribenha, planejada para meados do ano que vem.
— Resolvi mergulhar com bastante profundidade no mar das religiosidades da Afro-América. Acho que a gente tem muito que aprender com toda essa aparente confusão que existe no Caribe como um todo, especificamente Haiti. O que é o vodu? Será que é aquilo mesmo que a Hollywood ensinou? Há todo um trabalho político no sentido de queimar o que é a religiosidade haitiana. Acho que é uma forma de a gente botar as coisas nos seus devidos lugares. Não existe religião boa, religião ruim. Se é religião, não pode ser anti-humana.
Ícone do samba, tanto na composição musical como no pensamento da cultura popular ligada ao gênero, Nei Lopes criticou o que chamou de colonização do carnaval com a lógica das escolas de samba atuais. Ele acredita que hoje privilegiam-se os desfiles e não a integração comunitária de outrora.
— Samba realmente é uma cultura, uma coisa completa. Lamentavelmente a sociedade do consumo vem tirando o que ele foi na década de 1960, que eu vi, inclusive, participando de uma escola, a Acadêmicos do Salgueiro. Palmas! — disse ele, pedindo que a plateia ovacionasse a agremiação. — Carnaval é uma coisa, samba é outra. Há pouco tempo atrás, as pessoas iam para a escola de samba para fazer alguma coisa, para sambar e não para ser visto. Era congregar, sair junto, era viver, conviver. O que está faltando, nos meus modestos 83 anos, é convivência.
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