Vinte anos se passaram, e o fantasma de Weggis, pacata comuna suíça, palco da badalada preparação considerada símbolo do fracasso da estrelada seleção na Copa de 2006, segue no imaginário popular e como um trauma para a CBF.
Tanto que a fase de treinamento da seleção nos EUA, iniciada nesta semana, para o Mundial deste ano contará com atividades fechadas ao público e um hotel “totalmente operacional” que visa “única e exclusivamente ao foco na competição, diferentemente de outras épocas em que se buscavam resorts e hotéis luxuosos”, bradou o diretor esportivo da CBF, Rodrigo Caetano, na convocação, no mês passado.
Um clima bem diferente da jornada de 12 dias em Weggis, que se encerrava exatamente há 20 anos, marcada pela superexposição, treinos abertos, oba-oba e cuja imagem-símbolo foi a de uma torcedora invadindo o campo para abraçar Ronaldinho Gaúcho.
Estava em uma viagem de férias com minha esposa no mês passado e, coincidentemente, passaria por Weggis no dia seguinte à fala de Caetano. Seria apenas uma parada rápida em um passeio pela região. Mas a paixão pelo futebol falou mais alto.
Precisava ir ao campo onde o Brasil treinou, passar pelo hotel onde a delegação ficou. Ver se havia algum resquício daquela tumultuada passagem da seleção, que virou do avesso a pacata comuna na Suíça, de cerca de 4 mil habitantes, há exatos 20 anos… Vai que esbarro com algum suíço nesta faixa de idade com uma dentição proeminente…
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Mudamos o roteiro do passeio e fomos bater perna por Weggis. O lugar é pacato mesmo. Nenhuma vivalma na rua naquela fria tarde, com exceção dos turistas passeando à beira do Lago Lucerna.
Após quase meia hora de caminhada chegamos até a Thermoplan Arena, onde o Brasil treinou. No caminho, nenhum sinal do agito que marcou Weggis há duas décadas. Próximo ao campo, enfim uma lembrança: um pôster com uma foto em tamanho real da seleção brasileira, não do Mundial de 2006, mas da Copa das Confederações de 2005.
“Lembrança do CT da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2006”, diz o painel
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“Um acontecimento marcante durante o período de treinamento da campeã mundial Brasil, de 23 de maio a 3 de junho de 2006, antes da Copa do Mundo na Alemanha, com 112.500 visitantes em 12 dias.”
Bem em frente ao campo, nos deparamos com os primeiros moradores avistados. Um casal na faixa dos 60 anos cuidando do jardim na casa em frente. Essa parte da Suíça fala alemão, mas fomos lá tentar puxar assunto. A senhora se virava bem no inglês, enquanto o senhor, mais tímido, ficou na dele, plantando suas plantinhas.
Perguntei se já moravam ali na época da passagem da seleção. A senhora abriu um sorrisão nostálgico:
— Sim — disse, começando a apontar as diferenças na estrutura: — Esse prédio não tinha ainda, mas fizeram arquibancadas provisórias. Isso aqui ficou um caos! A rua ficava lotada. Foi uma ocasião!
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Quando perguntei se tinham guardado recordações do período, alguma foto com jogadores, a senhora chamou o marido, que entrou em casa e voltou com um sorriso de orelha a orelha e uma pasta cheia de recortes de jornal, revista e até um ingresso para o treino.
O homem ia me mostrando, orgulhoso, as recordações. Dentre elas, uma revista com Robinho na capa: “Sabia que ele está preso atualmente?”, eu disse, para uma reação de incredulidade do casal. Preferi não me aprofundar na história para não pesar o clima.
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O casal era Alice, de 65 anos, e Alfred Stöck, de 68, fazendeiros — hoje aposentados — que, na época, chegaram a dar entrevistas e ganhar notoriedade, já que a casa deles era a mais próxima do centro de treinamento. E também por uma história envolvendo 300 porcos.
— Na época, eu tinha muitos porcos. Pediram para eu tirá-los daqui. Temiam que o cheiro atrapalhasse os jogadores”, explicou Alfred, se divertindo ao exibir um jornal da época com uma reportagem sobre o assunto, com uma foto sua ao lado de um porco.
Foi uma preocupação das autoridades locais para não deixar uma má impressão para os famosos convidados. Na ocasião, ele recebeu 9 mil francos suíços (cerca de R$ 15 mil na cotação da época) para privar os animais de conhecer Ronaldo, Kaká e cia.
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A casa dos Stöck tinha realmente uma localização privilegiada. Do segundo andar era possível ver todo o campo. Perguntei se eles ficavam assistindo aos treinos. Como bons suíços, porém, preferiram lucrar.
— Aproveitamos para vender cachorro-quente, hambúrguer, salsichão — contou Alice. — Essa rua ficava cheia de barraquinhas.
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Sobre o dia a dia da seleção, eles contaram que as ruas em volta do CT eram fechadas e, às 6h da manhã, cerca de 200 pessoas da organização e da seleção já apareciam no local para preparar as coisas para o treino da seleção. Um cenário inimaginável para quem anda pela pacata cidade hoje em dia.
Por fim, perguntei se até hoje muita gente aparece por lá para ver por onde passou a seleção brasileira.
— Até alguns anos atrás, vinham caravanas, principalmente com brasileiros. Depois da pandemia, isso acabou — conta Alice.
Era hora de ir. O barco partia em alguns minutos. Ainda deu tempo de passar correndo em frente ao luxuoso hotel onde a seleção ficou hospedada, chamado de Park Hotel Weggis na época. Em 2020, foi reaberto como Chenot Palace Weggis, uma clínica/resort de alto padrão focada em bem-estar. Só de olhar a fachada, senti meu dinheiro evaporando.
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Vinte anos depois, a passagem da seleção brasileira por Weggis sobrevive. Em um painel e na memória e nos recortes de jornal de um simpático casal.

